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18/06/2008

Emigrantes poloneses voltam para casa e representam um desafio para a economia do país

The New York Times
De Carter Dougherty
Em Varsóvia (Polônia)
Há muito tempo a Alemanha tem sido boa para Katarzyna, uma polonesa de 28 anos que trabalha em uma farmácia de Frankfurt durante o dia e limpa casas à noite.

Durante seis anos ela conseguir ganhar o suficiente para comprar um automóvel esportivo Audi e um apartamento na Polônia, e ainda assim restou-lhe dinheiro suficiente para viajar bastante pela Europa. Milhões de outros poloneses também deixaram o país natal, especialmente nos quatro anos que se seguiram ao ingresso da Polônia na União Européia.

Mas agora, o fortalecimento econômico da Polônia -e uma carência cada vez mais aguda de trabalho- atrai emigrantes como Katarzyna de volta para casa. Ela vai se mudar para Varsóvia em julho.

"Tenho que admitir que tudo o que eu desejava era ganhar dinheiro rapidamente", afirma Katarzyna, que pediu que o seu sobrenome não fosse publicado porque ela freqüentemente recebe pagamentos informais, evitando assim os impostos. "Agora que todo mundo saiu da Polônia, talvez eu possa me dar bem por lá".

Com as economias européias ocidentais sofrendo desaceleração e a economia polonesa prosperando, os participantes de uma das maiores migrações do continente estão começando a retornar para casa. Embora o movimento ainda seja discreto, essa tendência provavelmente significará ao mesmo tempo oportunidades e desafios para o governo polonês. Esse retorno deverá contribuir para aliviar a carência de mão-de-obra, especialmente em setores cruciais como a construção civil. Mas as autoridades polonesas também estão preocupadas em encontrar empregos suficientes de qualidade para essas pessoas quando o volume de emigrantes que retornam aumentar.

Além disso, os migrantes enviaram 40 bilhões de zlotys, ou US$ 18 bilhões, para casa em 2007, um número que sem dúvida aumentará à medida que mais pessoas retornarem em caráter permanente com as suas poupanças acumuladas. Ademais, muitos esperam que haja um ímpeto econômico decorrente da chegada desses indivíduos que conhecem pessoalmente as economias avançadas a oeste da Polônia.

"Eles trazem consigo habilidades, mas de uma forma sutil", diz Rafal Antczak, professor de economia da Universidade de Varsóvia. "Muitas dessas pessoas realizam tarefas muitos simples, trabalhando em hotéis ou restaurantes. Mas elas trazem de volta experiência -experiência de vida".

Até o momento, nesta década, cerca de 2 milhões de poloneses deixaram o país natal. Muitos são produtos de uma breve onda de crescimento demográfico ocorrida na década de 1980. Trabalhando como garçons no Reino Unido, operários de construção civil na Irlanda, faxineiros na Alemanha e fazendo outros serviços de baixa qualificação, os jovens poloneses, muitas vezes oriundos do leste pobre do país, ganharam euros e libras esterlinas que enviaram à Polônia ou pouparam.

Enquanto isso, a economia polaca, correndo para alcançar os padrões de vida do Ocidente, fez com que o desemprego caísse drasticamente nos últimos anos. E o zloty valorizou-se em relação à libra esterlina e ao euro, fazendo desta forma com que diminuísse a vontade dos migrantes de ganhar dinheiro no exterior.

Motivado pela necessidade econômica, o governo polonês está se articulando para facilitar o retorno dos migrantes. Ele patrocinou campanhas de publicidade no exterior e criou bancos de empregos na Internet.

"Quatro anos atrás, o debate dizia respeito às vantagens da migração e às medidas que o governo poderia tomar para possibilitar aos poloneses trabalhar em toda a Europa", diz Justyna Frelak, especialista em migração do Instituto de Questões Públicas em Varsóvia. "Agora estamos discutindo os custos da migração para as famílias, as crianças e os poloneses no exterior, bem como a carência de mão-de-obra que resultou desse êxodo".

Desde 2006, o desemprego na Polônia caiu de 14% para 8%, e a economia cresceu bastante -o índice foi de 6,5% em 2007-, mesmo com os problemas financeiros que abalaram os mercados globais.

Com bilhões de euros em fundos da União Européia sendo despejados no país, em grande parte destinados a projetos de infra-estrutura, o desespero tomou conta das companhias de construção civil em busca de mão-de-obra. A J.W. Construction -fundada por um polonês que retornou dos Estados Unidos- trouxe trabalhadores do Uzbequistão, do Tadjiquistão, da Mongólia, da China, da Bulgária e até do México nos últimos anos. Agora, a companhia espera que encanadores, eletricistas e carpinteiros poloneses retornem à medida que as bolhas do setor imobiliário estouram no Reino Unido, na Irlanda e na Espanha, reduzindo as oportunidades de empregos nestes países.

"Há uma expectativa crescente de que as pessoas comecem a voltar", afirma Jerzy Zdrzalka, o diretor-executivo da companhia. "Essa expectativa está vinculada à estagnação da indústria da construção civil na Europa ocidental".

Os pioneiros da migração reversa ainda não estão visíveis nas estatísticas. Mas por toda a Europa, a possibilidade de retornar à Polônia é o assunto atual dos membros dessa diáspora, um grupo vinculado por companhias aéreas de baixo custo, telefones celulares baratos e sites da Internet.

Usando brincos de turquesa e um colar que não combina, e acabando de voltar de um concerto de Bon Jovi, Katarzyna é praticamente indistinguível de uma jovem européia ocidental média de pouco mais de vinte anos de idade.

Trabalhando em Frankfurt, a próspera capital financeira da Alemanha, ela acostumou-se a ganhar mais do que o salário médio que recebia em Bialystok, a sua pobre cidade natal no leste da Polônia. Ela também passou a compreender a história do seu país como fonte de migrantes: a avó de uma mulher cujo apartamento ela limpava migrou de Bialystok para os Estados Unidos há um século.

Katarzyna também passou a gostar da vida nas cidades grandes, e é por isso que pretende morar em Varsóvia, e não em Bialystok. Katarzyna espera que o alemão e o inglês que aprendeu no exterior a ajudem a conseguir um emprego no setor comercial ou bancário, áreas que estudou antes de deixar a Polônia.

"É em Varsóvia que estão as oportunidades para bons empregos", afirma Katarzyna. "Isso ainda é melhor do que voltar para casa. E, após o período que passei em Frankfurt, não consigo me imaginar retornando para uma cidade pequena".

Ela acrescenta que o zloty forte contribuiu para a sua decisão de retornar, o que é um fenômeno comum entre os poloneses que estão retornando ou pensando em voltar. Três anos atrás o euro valia 4,6 zlotys, mas agora ele vale apenas 3,4 zlotys, o que reduz os benefícios de trabalhar no exterior.

No entanto, não se sabe quantas das novas qualificações daqueles que retornam atenderão aos interesses econômicos poloneses.

Respondendo ao desafio da reestruturação pós-comunista, o governo polonês autorizou a criação de faculdades particulares na década de 1990. Muita gente acha que essas faculdades forneceram cursos de baixa qualidade. A geração de indivíduos formados nessas instituições particulares de ensino superior tornou-se a primeira a emigrar em grande quantidade após 2004, muitas vezes trocando as atividades profissionais por trabalhos manuais.

"A economia não precisa de pessoas com treinamento bancário ou que trabalharam em um pub londrino", explica Krystyna Iglicka, especialista em migração do Centro de Relações Internacionais em Varsóvia.

Assim, a migração reversa provavelmente será bem mais gradual do que a debandada súbita de cidadãos experimentada pela Polônia. Caso as expectativas dos que voltarem não forem atendidas, esta notícia se espalhará rapidamente.

"Não será um processo súbito", afirma Jerzy Dusynski, vice-ministro de Ciência e Educação da Polônia. "Mas se pudermos criar oportunidades para esses indivíduos, eles voltarão".

Marcin Zochowski, 28, trabalhou na Escócia durante um ano como instalador de carpetes e, algumas vezes, como carpinteiro, antes de retornar a Varsóvia. Graças aos vôos da Wizz Air, uma das várias companhias aéreas de passagens baratas na Europa, Zochwoski prevê que trabalhará ocasionalmente no Reino Unido ou na Irlanda, mas também na Polônia, procurando maximizar os seus ganhos, bem como passar mais tempo com a mulher e a filha pequena.

Como trabalha na construção civil, Zochowski enxerga amplas oportunidades, até porque ele gosta de toda a Europa, e não só da Polônia.

"Viajarei para cima e para baixo, mas isso dependerá do que eu encontrar", explica Zochowski. "Tenho família, de forma que faz sentido trabalhar um mês fora e depois retornar". UOL

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