UOL Notícias Internacional
 

18/06/2008

Sombras ofuscam o Senegal, uma das luzes mais brilhantes da África

The New York Times
De Lydia Polgreen

Em Dacar, Senegal
Do ar, esta ampla cidade parece uma metrópole em movimento, um quadrilátero agitado se projetando no Atlântico. Carros aceleram por uma via de quatro faixas, recém construída, que abraça a costa escarpada. A região à beira-mar é pontilhada por guindastes, hotéis de luxo em construção e centros de conferência, à medida que investidores de Dubai reformam o porto da cidade, esperando transformá-lo em um centro regional de alta tecnologia.

Mas no solo o quadro muda. Jovens sem emprego ficam à margem das novas avenidas, tentando ganhar a vida vendendo cartões de celulares, caju e calculadoras fabricadas na China para os transeuntes. O porto está cheio de alimentos importados, que cada vez mais estão fora de alcance para a maioria dos senegaleses.

Dacar em breve terá uma abundância de quartos de hotel cinco estrelas, mas o aumento dos aluguéis empurrou os pobres e até mesmos os cidadãos de classe média da cidade às favelas sujas, propensas a enchentes. Escassez de combustível significa apagões diários.

É difícil escapar do senso de mal-estar que tomou conta do Senegal, um dos países mais estáveis e admirados da África, um miasma de problemas políticos, econômicos e sociais tão inconfundíveis quanto a poeira fina que vem do Saara todo inverno, tapando o sol com uma névoa cinzenta.

Neste mês o senso de crise chegou ao ápice, quando uma coalizão de grupos políticos e cívicos iniciou uma conferência para reavaliar a direção do país. O governo, vendo isso como uma provocação, se recusou a participar.

Tudo isso levanta a questão: se dificuldades e tensão estão atormentando o Senegal -uma ex-colônia francesa que nunca conheceu um golpe de Estado ou governo militar, e por 48 anos tem sido uma das democracias mais estáveis, pacíficas e duradouras em uma região há muito tomada pela tirania e conflito- o que isto poderia significar para seus vizinhos mais problemáticos?

Esta questão se tornou mais urgente com a implosão do Quênia, antes um oásis no Leste da África, em meio a uma violência étnica detonada por disputa eleitoral no início deste ano, e o recente mergulho da África do Sul em uma violência contra os imigrantes.

A mídia e os comentaristas políticos do Senegal estão cada vez mais preocupados com a possibilidade da relativamente longa boa sorte do país também se esgotar.

"Após anos de sol, nós temos nuvens demais se reunindo sobre nós no Senegal", disse Abdoulaye Bathily, secretário-geral do Movimento para o Partido do Trabalho do Senegal, um dos partidos que se juntaram à coalizão do presidente Abdoulaye Wade em 2000, mas que de lá para cá rompeu com ele. "Nós estamos perdidos, à deriva. E se não pudermos sair disto, que país conseguirá?"

A classe política está aparentemente em uma crise permanente. A grande coalizão de partidos de oposição que conduziu Wade à presidência em 2000, após 40 anos de governo socialista, ruiu.

A maioria dos grandes partidos políticos não participou das eleições legislativas de 2007, de forma que a Assembléia Nacional é composta quase que exclusivamente de aliados de Wade.

Uma série de disputas dentro do partido do governo, juntamente com a ampla especulação de que Wade está preparando seu filho, Karim, para ser seu sucessor, também azedaram a antiga reputação do Senegal como um farol de democracia em uma região atormentada pelo autoritarismo.

Wade, um incansável octogenário que foi reeleito no ano passado para um mandato de cinco anos, apostou de muitas formas seu legado no renascimento de Dacar, de uma cidade colonial pitoresca em um grande centro regional, um espécie de mini-Dubai para o Oeste da África. É a herança de um líder idoso para uma nova geração de senegaleses, os homens e mulheres que ele chama de "Geração do Concreto".

Wade colocou seu filho, um ex-executivo de banco em Londres, encarregado da organização da Cúpula Islâmica, um encontro dos chefes de Estado dos países muçulmanos realizado aqui em março. A vasta reforma da cidade supostamente deveria ser concluída antes do encontro, mas apesar da maioria da avenidas ter sido concluída, os hotéis não foram. O governo alugou casas privadas e navios de cruzeiro para abrigar os representantes e a imprensa.

Grande parte das obras foi paga por doadores islâmicos, não com dinheiro dos contribuintes, mas pouca prestação de contas foi apresentada referente aos projetos de reconstrução.

Quando o presidente da Assembléia Nacional tentou questionar o filho do presidente a respeito dos gastos no encontro de cúpula, a posição de liderança do partido do presidente da Assembléia foi abolida e a casa apresentou um projeto de lei reduzindo o mandato dele para um único ano.

Ele posteriormente se reconciliou com o presidente, mas estes escândalos arranharam a reputação do país. Antes um queridinho dos doadores internacionais, que gastaram milhões para ajudar o Senegal a construir escolas e clínicas, pagar suas dívidas e planejar projetos de infra-estrutura, o país se viu criticado por representantes do Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial pelos gastos públicos e políticas que agravaram os efeitos da alta dos preços dos alimentos.

Um estudo encomendado pela Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional concluiu no ano passado que "uma falta de transparência nos assuntos públicos e nas transações financeiras, assim como uma corrupção crônica, atormentam o Senegal atualmente".

A África como um todo está desfrutando de altas taxas de crescimento econômico, mas em 2006 a economia do Senegal cresceu apenas pouco mais de 2%. Ela se recuperou e deverá atingir 5,4% neste ano, mas o desemprego persistente e os altos preços dos alimentos e combustíveis impedem que os benefícios do crescimento ajudem a maioria das pessoas.

Acima de tudo, o povo senegalês parece ter perdido seu otimismo aparentemente infindável. Pesquisa Gallup realizada aqui no ano passado apontou que apenas 29% dos entrevistados disseram ter um emprego, uma redução em comparação a 35% no ano anterior.

Mais expressivo, 56% dos entrevistados disseram que deixariam o Senegal permanentemente se pudessem. Nos últimos anos, dezenas de milhares de senegaleses embarcaram em frágeis barcos pesqueiros de madeira para tentar entrar na Europa. Acredita-se que muitos milhares tenham morrido nestas perigosas travessias.

Esta frustração em grande parte se voltou contra Wade, uma antiga figura da oposição que enfrentou aprisionamento e isolamento político por décadas, antes de levar sua mistura peculiar de idéias neoliberais e afro-otimistas ao palácio presidencial.

Para seus muitos fãs, Wade é uma versão atualizada dos pais fundadores que governaram a África nos anos imediatamente após a independência. Sua idade é um segredo guardado a sete chaves, mas acredita-se que tenha 82 anos, o que o tornaria quase velho o suficiente para ser um contemporâneo de gigantes políticos da África, como Kwame Nkrumah, de Gana, e Julius Nyerere, da Tanzânia.

El Hadji Amadou Sall, o porta-voz de Wade e um assessor sênior, disse que o governo já está gastando grande parte de seu orçamento em setores que afetam diretamente os pobres, como saúde e escolas, mas que estes são menos visíveis do que os hotéis cinco estrelas. Wade também anunciou planos ambiciosos para estimular a produção de alimentos.

Alguns senegaleses estão satisfeitos. Paco Demba Dia, um lutador de 39 anos, disse que ver as novas avenidas e prédios lhe dá um senso de orgulho.

"Em todos estes anos, os socialistas nunca fizeram nada assim por nós", ele disse.

Mas para seus críticos, Wade manchou a reputação do Senegal de uma das mais antigas e mais estáveis democracias da África e consolidou sua família no poder.

O descontentamento é maior entre os jovens e seus porta-vozes: artistas de rap que se transformaram nos griots (ou músicos contadores de histórias) de sua geração fornecendo uma trilha sonora para suas frustrações.

"Nós aguardamos por 40 anos por uma mudança real neste país", disse Didier Awadi, um rapper cujas rimas na língua uolof exigindo mudança ajudaram a estimular os jovens a votar contra o Partido Socialista em 2000. "Mas ainda estamos esperando."

Em um dos muitos outdoors por toda a cidade que davam as boas-vindas aos participantes do encontro de cúpula islâmico, alguém pichou o rosto de Wade, escrevendo: "Estamos com fome".

De fato, muitos senegaleses se perguntam se o dinheiro gasto na reconstrução da capital foi bem gasto. Amadou Ndiaye, um ambulante que vende calçados de fabricação chinesa na calçada, disse que pouco das novas construções o beneficiarão. Ele não tem carro e as novas avenidas não passam perto de sua favela.

"Nós não podemos comer avenidas", disse Ndiaye. "Nós não temos recursos para dormir em hotéis cinco estrelas. Então para quem é tudo isto? Não para o homem comum senegalês." George El Khouri Andolfato

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