UOL Notícias Internacional
 

19/06/2008

Friedman: cicatrizes emocionais impedem discussão sóbria sobre Iraque

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Quando estive em Cairo na semana passada, o analista político egípcio Osama Ghazali Harb me contou sobre uma palestra que ele havia dado recentemente na principal Catedral Copta da cidade. Tratava-se de uma discussão sobre o estado da política árabe. Depois de terminar, disse, um iraquiano que tinha ido com alguns amigos egípcios levantou-se para fazer uma pergunta e no meio do caminho fez a seguinte declaração: existem "apenas duas democracias" no Oriente Médio hoje: "Iraque e Israel". O público vaiou.

"A audiência ficou muito irritada com ele", disse-me Harb - aparentemente porque ele havia sugerido que o Iraque era uma democracia, e que, portanto, é de certa forma superior ao Egito, porque ele havia comparado o Iraque a Israel com um elogio e porque ele não havia reconhecido o papel dos EUA em "impor" a democracia no Iraque.

O Iraque tornou-se um daqueles assuntos discutidos com tantas cicatrizes emocionais por tantas pessoas que é muito difícil manter uma discussão sóbria sobre a real situação do país hoje. Boa parte dos argumentos é tingida por sentimentos pessoais em relação a George W. Bush ou pelo fato de alguém ter sido a favor ou contra a guerra. Como resultado, o que faremos em seguida no Iraque - como e por que - é pouco discutido na campanha presidencial.

O que é ruim, porque isso se tornará um verdadeiro desafio - que irá exigir que a separação entre três realidades políticas conflitantes.

A primeira é o estado de espírito do público americano, que levou à opinião de que o preço que pagamos no Iraque durante os últimos cinco anos é muito, muito maior do que os resultados atingidos até agora. Portanto, quem quer que ganhe as eleições - John McCain ou Barack Obama - assumirá o governo consciente de que o povo americano não irá tolerar mais quatro anos de um compromisso a perder de vista com o Iraque.

Mas a segunda é a realidade em campo no Iraque, que não é mais uma persistente história de horror. Ficou claro que os reforços militares ajudaram a reduzir os conflitos internos. Ficou claro que o exército iraquiano está se saindo melhor. Ficou claro que o primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, estabeleceu-se mais como um líder nacional ao desmantelar os grupos xiitas mais nocivos de sua própria comunidade. Ficou claro que os sunitas decidiram participar das próximas eleições parlamentares. Ficou claro que o Curdistão continua funcionando como uma ilha de decência e mercado livre. Ficou claro que a Al Qaeda iraquiana foi atingida. Ficou claro que alguns países árabes estão aceitando as mudanças no país ao reabrirem suas embaixadas em Bagdá.

A terceira realidade, todavia, é o fato de que o processo de reconciliação dentro do Iraque - quase cinco anos depois da invasão americana - ainda não atingiu um ponto em que a estabilidade é auto-sustentável. O bombardeio desta semana em Bagdá, que matou mais de 50 pessoas num ponto de ônibus de um bairro xiita, apenas enfatiza isso. Os militares americanos ainda são necessários como uma espécie de árbitro. Ainda não está claro se o Iraque é um país que pode permanecer coeso por qualquer outro meio que não seja um pulso de ferro. Ainda não está claro que seu governo não é nada mais do que uma coleção de feudos sectários.

É essa confusão volátil que provavelmente o próximo presidente irá encontrar: o desejo profundo do público americano de terminar com o Iraque por causa dos altos custos; a esperança remota de que ainda é possível uma solução decente capaz de redimir parte dos gastos; e o fato de que o Iraque ainda não tem coesão como país.

Podemos continuar debatendo os méritos da guerra o quanto quisermos até 20 de janeiro de 2009, mas desse dia em diante haverá apenas uma questão para o novo presidente: à luz dessas três tendências conflitantes, o que você planeja fazer com o Iraque que herdou?

Se McCain for o novo presidente, o exército americano dirá a ele, mais dia menos dia, que não podemos continuar no Iraque indefinidamente com a mesma quantidade de tropas porque os custos de nossas forças armadas estão se tornando impraticáveis; se Obama for presidente, os iraquianos dirão a ele, logo no primeiro dia, que não podemos deixar o país precipitadamente senão ele irá explodir.

Seria um grande erro se McCain desistisse de seu objetivo conseguir alguma recompensa no Iraque. Mas também seria um grande erro assumir que o público é capaz de tolerar outro presidente com um compromisso a perder de vista no Iraque. Da mesma forma, seria um grande erro se Obama desistisse agora de fazer uma retirada em fases. Isso é uma garantia muito importante para os iraquianos. Mas também seria um grande erro deixar de avaliar o país novamente e questionar se é possível resgatar algo de decente lá a um custo aceitável - algo que ainda possa servir aos nossos interesses, que seja justo com os iraquianos e que plante as sementes de uma sociedade aberta que pagará benefícios a longo prazo?

"No que diz respeito ao Iraque, a maioria dos americanos quer de fato sair do país, mas ainda assim não querem perder", diz Michael Mandelbaum, autor do livro "Democracy's Good Name". Administrar essas tendências e humores conflitantes em campo no Iraque será um dos desafios mais difíceis que já foram passados de um presidente para outro.

Seria útil começar a falar sobre o assunto. Eloise De Vylder

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