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20/06/2008

Inshallah, uma palavra que responde qualquer pergunta no Egito

The New York Times
Michael Slackman*
No Cairo, Egito
O McDonald's daqui tem arcos dourados, os mesmos arcos dourados do mundo todo. A comida é preparada da mesma forma, em linha de montagem. Mas há um elemento invisível ou, mais precisamente, divino, que leva o hambúrguer ao prato, um elemento que talvez os não iniciados não conheçam.

"Inshallah", ou "se Deus quiser", disse o balconista enquanto ia buscar o hambúrguer com cebolas no McDonald's da estrada do Deserto de Alexandria, a 45 km do centro de Cairo.

Os egípcios sempre foram religiosos, desde os tempos faraônicos. Qualquer guia turístico do Egito alerta os turistas sobre o uso freqüente de inshallah pelos egípcios ao discutir eventos futuros, um sinal de sua profunda fé e crença de que todos eventos ocorrem, ou não ocorrem, segundo a vontade de Deus. "Vejo você amanhã", é quase sempre seguido de um sorriso e de "inshallah".

Shawn Baldwin/The New York Times 
Pedestres caminham em uma rua movimentada do Cairo

Houve, contudo um avanço do inshallah, ao extremo. Agora, a expressão está ligada a qualquer resposta para qualquer pergunta, no passado, presente e futuro. Qual é o seu nome, por exemplo, pode ser respondida por: "Muhammad, inshallah."

"Pergunto a eles: 'Você já é Muhammad ou vai ser Muhammad?'", disse Attiat El Abdnoudy, diretor de documentários no Cairo.

Inshallah se tornou o equivalente lingüístico do véu na cabeça das mulheres e do calombo de prece, o ponto da cabeça que os fiéis pressionam no chão durante suas preces, nos homens. Tornou-se uma demonstração pública de fé e moda, um símbolo de devoção e dos tempos. Inshallah se tornou um reflexo, um tique lingüístico que se ligou a quase todo momento, quase toda pergunta, como a palavra "like" em inglês. Entretanto, é uma referência poderosa, com ou sem essa intenção.

Analistas políticos e sociais locais dizem que seu uso freqüentemente reflete ou alimenta, ou ambos, o grau crescente com que as pessoas estão vestindo a vida diária com acessórios religiosos. Será que o táxi me levará ao meu destino? Será que meu sanduíche virá sem cebolas? Qual é o meu nome? É sempre: "se deus quiser".

"Hoje, inshallah é usada de uma forma muito mais ampla do que há vinte anos", disse o autor de teatro egípcio Aly Salem. "Antes, costumávamos dizer sempre inshallah em relação a planos no futuro. Agora faz parte da aparência de devoção."

O ponto inicial para inshallah é a fé, mas assim como a popularidade crescente do véu de cabeça e do calombo da prece, seu novo status reflete a maré alta da religião na região. A observância, se não a própria devoção, está crescendo, enquanto o islamismo se torna, para muitos, um marco de identidade. Isso colocou os símbolos do islã no centro da cultura e da rotina.

"Nas últimas três décadas, o papel da religião ampliou-se em tudo em nossas vidas", disse Ghada Shahbendar, ativista política que estudou lingüística da Universidade Americana do Cairo.

A deferência ao divino se tornou reflexo comunal, um hábito compulsivo, como o buzinar incessante dos taxistas egípcios -mesmo se não houver carros na rua.

Samer Fathi, 40, tem um pequeno quiosque que vende batata frita, cigarro e cartão telefônico no centro da cidade. Pediram a ele um cartão telefônico de 100 unidades e ele respondeu, quase sem pensar, "inshallah", enquanto procurava.

No número 19 da rua Ismael, a porta do elevador se abriu.

"Desce?"

"Inshallah", respondeu um passageiro.

Como se tornou rotina, inshallah também virou uma espécie de conveniência, uma evasiva prática, uma postura teológica para evitar o compromisso. Não é preciso dizer não. Se não acontecer, bem, Deus não queria que acontecesse. Nazly Shahbendar, filha de Ghada, disse, por exemplo, que se fosse convidada a uma festa que não quisesse ir, ela nunca diria não.

"Eu diria inshallah", disse Shadbendar, que tem 24 anos e apenas imagem de sua nova religiosidade. Ela não usa véu nem tem vergonha de falar sobre os homens; ela fuma na frente da mãe.

Ela também aponta que inshallah não é o único termo religioso a se infiltrar no léxico diário. Como muitas outras pessoas aqui, ela vem usando a Shahada, declaração muçulmana de crença, como saudação rotineira. Então, em vez de dizer "Olá, como vai? Tudo bem e você?", ela diz aos amigos: "Não há nenhum Deus além de Deus", ao que os amigos respondem com a declaração: "E Maomé é seu profeta".

As pessoas agora respondem ao telefone dessa forma também, pulando o "alô". Seria algo como os cristãos se cumprimentarem dizendo: "Cristo ressuscitou!" seguido de "Cristo retornará". Não apenas nos domingos, mas todos os dias.

"Nós egípcios somos todos religiosos", disse Mostafa Said, 25, enquanto contava ao seu amigo que esperava que o seu carro fosse consertado até a semana que vem, inshallah. "Acreditamos que Deus é responsável pelo que acontece, até ao carro."

Mas não é apenas a fé nos céus que faz as pessoas invocarem Deus. É também, ao menos para alguns, uma falta de fé dos governantes terrenos. As pessoas estão cansadas dos preços em alta, dos salários que minguam, do trânsito, da corrupção, da sensação de que cada um tem que lutar por si mesmo.

"Neste lugar, quando uma coisa funciona, ou você quer que funcione, você agradece a Deus, porque certamente não é o governo que vai ajudar você", disse Sherif Issa, 48, motorista de táxi no Cairo, com um bigode manchado de nicotina e uma barriga bastante grande. "Como tudo está indo na direção errada -a quem podemos recorrer se não a Deus?"

O fato de Issa ser cristão é uma evidência que o uso de inshallah não é apenas um fenômeno muçulmano.

"Não importa se você é cristão muçulmano", disse ele. "Vou levar você a sua casa; chegar lá em um tempo decente já é um milagre. É claro que eu digo inshallah!"

*Nadim Audi contribuiu com reportagem. Deborah Weinberg

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