UOL Notícias Internacional
 

20/06/2008

Krugman: instinto de sondador

The New York Times
De Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Culpar os ambientalistas pelos altos preços da energia, apesar das evidências, é uma característica do governo Bush.

Assim, em 2001, Dick Cheney atribuiu a crise de eletricidade da Califórnia às leis ambientais que, segundo ele, impediam a construção de usinas elétricas. Ele ignorou completamente a história real, que foi a de que as empresas elétricas -provavelmente algumas das mesmas que participaram de sua força-tarefa secreta, que deveria ter elaborado uma estratégia nacional de energia- estavam pressionando uma alta dos preços ao reduzir deliberadamente o fornecimento de eletricidade ao mercado.

E o governo passou os últimos oito anos tentando convencer o Congresso que a chave para a segurança de energia americana seria a abertura do Refúgio Nacional da Vida Selvagem do Ártico à exploração de petróleo -apesar das estimativas da Administração de Informação de Energia sugerirem que a exploração no refúgio faria pouca diferença ao panorama da energia, e que as companhias de petróleo não estavam particularmente interessadas em abrir buracos na tundra.

Mas ainda é uma surpresa e uma decepção ver John McCain se juntando a esta tradição infeliz.

Eu nunca levei a sério a reputação de McCain na mídia como sendo independente, porque na maioria das questões, ele é um conservador bem convencional. Mas em política de energia, ele demonstrou no passado alguma independência. Mais notadamente, ele votou contra o realmente terrível projeto de energia de 2005, que era movido por interesses especiais e que foi apoiado pelo governo Bush -e por Barack Obama.

Mas isso foi naquela época.

Em seu discurso de segunda-feira sobre energia, McCain tentou tocar em todas as bases. Ele falou sobre conservação. Ele condenou os males da especulação: "Enquanto alguns poucos especuladores impulsivos contam seus lucros, a maioria dos americanos está na pior".

Um aspecto estranho do atual debate da energia, por acaso, é que muitos dos mesmos conservadores adoradores do mercado que primeiro negaram que havia uma bolha pontocom, e depois negaram que havia uma bolha imobiliária, estão completamente convencidos de que especuladores inescrupulosos são responsáveis pelos altos preços do petróleo.

Mas o item que virou notícia foi o pedido de McCain por mais exploração de petróleo em águas profundas. Na terça-feira, ele deixou isto mais explícito, pedindo pela exploração e desenvolvimento da atualmente protegida plataforma continental exterior. Esta é uma reversão de sua posição anterior, e avançou muito na direção de um alinhamento de sua política de energia com a do governo Bush. Isso não é uma boa coisa.

Como muitas reportagens notaram, a política McCain/Bush para exploração em águas profundas não faz sentido como uma resposta à gasolina a US$ 4 o galão: a própria Administração de Informação de Energia da Casa Branca diz que a exploração da plataforma continental exterior não produzirá quantidades significativas de petróleo até os anos 2020, e mesmo no pico da produção seu impacto sobre os preços seria "insignificante".

Mas o que não vi enfatizado foi o quadro mais amplo: McCain agora está alinhado com um governo que, mesmo excluindo suas tendências de culpar o movimento ambientalista, estabeleceu um amplo retrospecto de não conseguir pensar direito em uma política de energia.

Lembre-se, eles não apenas insistiram que os iraquianos nos receberiam como libertadores; às vésperas da guerra no Iraque, funcionários do governo também eram taxativos que a mudança de regime no Iraque adicionaria milhões de barris por dia à oferta mundial de petróleo, derrubando os preços. (Na verdade, a produção de petróleo do Iraque levou cinco anos apenas para recuperar os níveis pré-invasão.)

Então por que McCain se associaria a estas pessoas? A resposta, presumivelmente, é que se trata de um cálculo político cínico.

Eu estou razoavelmente certo de que os assessores de McCain sabem que a exploração em águas profundas não alteraria em nada os atuais preços da gasolina. Mas eles podem acreditar que o público pode ser enganado. Uma pesquisa Rasmussen realizada antes do anúncio de McCain sugere que o público é favorável a uma maior exploração em águas profundas, e acredita (equivocadamente) que isto reduziria os preços da gasolina.

E McCain pode também esperar escorar suas relações ainda frágeis com a base republicana. E qualquer um que leu o que está na sua caixa de entrada após a publicação de um artigo sobre os preços do petróleo pode testemunhar, há muitas pessoas na direita que acreditam que todos nossos problemas de energia foram causados por abraçadores de árvores santarrões. McCain acabou de jogar um pouco de carne vermelha para este eleitorado.

Mas eu duvido que a aposta de McCain funcionará. Na verdade, é quase certamente autodestrutiva.

Para ter uma chance em novembro, McCain tem que convencer os eleitores que ele não é apenas uma continuação de Bush. A política de energia é uma das áreas onde ele melhor poderia ter exposto este argumento.

Em vez disso, ele cedeu a posição superior em energia para Obama, e se associou firmemente ao presidente mais impopular de todos os tempos. George El Khouri Andolfato

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