UOL Notícias Internacional
 

21/06/2008

O que está dando certo no Iraque? E será que isto pode durar?

The New York Times
Stephen Farrel e Richard A. Oppel Jr.*
Em Bagdá
A violência no Iraque está no seu nível mais baixo desde março de 2004.
Nas duas maiores cidades do país, Bagdá e Basra, o clima é o mais calmo dos últimos anos. A terceira maior cidade, Mosul, está em meio a uma grande operação de segurança. Na última quinta-feira, forças iraquianas marcharam sem oposição pela cidade de Amara, no sul do país, que era controlada por milícias xiitas. Há uma sensação de que o governo do primeiro-ministro Nouri Kamal al-Maliki tem mais força política do que os seus antecessores.

Basta ver as últimas caricaturas de al-Maliki nos cartazes dos seguidores de Muqtada al-Sadr, o aguerrido clérigo que conta com profunda lealdade entre os xiitas pobres. Eles mostram o rosto do primeiro-ministro dividido ao meio - metade é o dele próprio, a outra metade o de Saddam Hussein. Sem dúvida a comparação é uma crítica forte.

Mas há apenas três meses os mesmos panfleteiros da Cidade Sadr retratavam al-Maliki como meio humano, meio papagaio. Uma criatura que apenas repetia as palavras dos seus sustentadores xiitas e norte-americanos, que são mais poderosos. A substituição de uma zombaria contra um oponente visto como fraco pela denúncia de um indivíduo que se teme que seja forte é uma mudança notável.

Moises Saman/The New York Times 
Soldados iraquianos são vistos em uma área usada como armazém na região de Basra

Para Hatem al-Bachary, um empresário de Basra, a mudança foi "um milagre", os primeiros sinais do retorno a uma vida normal.

"Não creio que as milícias tenham desaparecido, e talvez haja células adormecidas que tentarão voltar a agir", diz ele. "Mas na primeira vez em que tentarem retornar à atividade, terão que mostrar a cara, e o governo, a polícia e o exército estão fazendo um bom trabalho".

Embora o aumento do número de soldados dos Estados Unidos e o apoio constante das forças armadas norte-americanas nos bastidores durante as recentes operações tenham contribuído para a redução da violência, há sinais de que as forças de segurança iraquianas e o governo iraquiano estão fazendo progresso. Há simplesmente mais soldados iraquianos disponíveis para o governo, em parte porque um número menor de militares é necessário para combater os insurgentes sunitas que mudaram para o movimento Despertar Sunita. Eles agora são pagos para manter a paz.

As medidas de al-Maliki contra as milícias xiitas gerou uma certa confiança entre os cautelosos sunitas, proporcionando o potencial para a reconciliação política. O elevado preço do petróleo está enchendo os cofres do governo iraquiano.

Mas até mesmos esses sucessos trazem certas sementes de vulnerabilidade. As vitórias do governo em Basra, Cidade Sadr e Amara foram essencialmente negociadas, de forma que as milícias estão agindo pouco, mas ainda não foram derrotadas e nadam em ressentimento. Al-Maliki pode estar alimentando entre os sunitas expectativas que não será capaz de atender, e as forças do Despertar Sunita em muitos casos são leais aos pagadores norte-americanos, e não ao governo xiita. Iraquianos descontentes querem ver o governo gastar dinheiro para melhorar os serviços públicos. Ataques como o atentado a bomba que matou 63 pessoas no bairro de Huriya, em Bagdá, na última terça-feira, demonstram que os oponentes continuam infligindo carnificinas.

E, talvez o mais preocupante, mais de cinco anos depois que a invasão norte-americana derrubou Saddam Hussein - e gerou também um grande caos - o Iraque ainda não conta com regras formais para dividir o poder e a renda de uma nação rica em petróleo entre os grupos étnicos, religiosos e tribais ou para uni-los em torno de uma idéia estável de Iraque. Os avanços são frágeis.

As mudanças já estão afetando o complicado relacionamento do Iraque com os Estados Unidos. Na campanha presidencial, crescem as vozes que questionam se esta calma significa que os soldados norte-americanos devem partir mais cedo, ou se seria uma besteira colocar em risco aquilo que sem dúvida é o primeiro progresso real em cinco anos.

Comandantes militares norte-americanos de alta patente estão percebendo uma nova confiança dos líderes iraquianos. Eles dizem acreditar que o sucesso das recentes operações militares contribuiu para a grande resistência do governo iraquiano aos negociadores norte-americanos quanto a um pacto de segurança de longo prazo para regulamentar a presença militar dos Estados Unidos após o final deste ano.

"Neste momento eles estão sentindo-se bem fortes, depois de Basra, Mosul e Cidade Sadr", afirma uma autoridade norte-americana graduada.

A razão mais óbvia, mas freqüentemente subestimada, para o recente sucesso militar foi o aumento do número de soldados iraquianos treinados.

A qualidade e a liderança dos recrutas eram freqüentemente ruins, mesmo nos últimos meses. No encrave de Cidade Sadr, em Bagdá, uma companhia militar iraquiana abandonou o seu posto em abril, obrigando os comandantes norte-americanos e iraquianos a preencher a lacuna com reforços reunidos às pressas. Em Basra, mais de mil soldados qualificados desertaram recentemente, em vez de cumprirem as ordens no sentido de lutar contra a milícia Exército Mahdi, de Sadr. Um funcionário graduado do governo iraquiano admitiu que os desertores simplesmente "sentiram que o lado oposto era forte demais".

Mas o aumento de contingente ajudou a superar os fracassos. Após um fiasco embaraçoso em Basra, al-Maliki foi capaz de retirar tropas de outros lugares para fornecer reforços e saturar a cidade com postos de revista e patrulhas, restaurando certa ordem após anos de domínio por milícias islamitas e máfias de contrabando de petróleo.

As autoridades norte-americanas dizem que 50 mil soldados iraquianos participaram da campanha em Basra, 45 mil em Mosul e 10 mil em Cidade Sadr. Os iraquianos contribuíram de longe com o maior número de soldados, embora os Estados Unidos e outros membros da coalizão tenham fornecido poder aéreo, reconhecimento, logística e apoio médico cruciais, assim como conhecimentos sobre operações psicológicas.

Um fator fundamental para o sucesso dessas tropas foi o treinamento:
nos últimos 12 meses o exército iraquiano recebeu mais 52 mil soldados; a polícia comum e a polícia nacional mais 59 mil e as forças iraquianas de operações especiais mais 1.400, segundo informou no mês passado o general James M. Dubik, chefe de treinamento de segurança e de missões de suprimentos.

Um outro motivo foi o fato de as tropas não terem que lutar contra insurgentes sunitas em locais como a província de Anbar. Isso se deveu ao Despertar Sunita e a um programa similar, baseados no pagamento de milhares de dólares pelos Estados Unidos a ex-insurgentes e milícias combatentes para transformá-los em guardas de bairros.

"Os nossos sucessos reduziram a pressão sobre as forças de segurança iraquianas em mais de 50%", afirma Sheik Hussain Abaid, diretor de um desses grupos pró-americanos no sul de Bagdá.

Ali Hatem al-Suleiman, um líder do Despertar Sunita em Anbar, diz que todo um regimento do exército composto de membros de tribos das províncias foi enviado para lutar em Mosul, enquanto uma divisão estacionada em Anbar dirigiu-se a Basra depois que os comandantes decidiram que uma situação de segurança mais estável em Anbar significa que as tropas poderiam ser liberadas para combater em outros locais.

Até mesmo autoridades xiitas do governo, que há muito suspeitam do Despertar Sunita porque este emprega insurgentes responsáveis pela morte de xiitas, concordam. "Antes, havia um vácuo de segurança nessas áreas, mas eles foram capazes de preenchê-lo", explica Ali Adeeb, membro do partido Dawa e aliado próximo de al-Maliki.

Mas os sucessos do governo em Basra e Cidade Sadr não foram exatamente vitórias, mas sim combates intensos seguidos de tréguas que permitiram que as milícias se dispersassem com as suas armas. "Podemos ter perdido uma oportunidade em Basra de matar aqueles que precisavam ser mortos", afirma uma autoridade de defesa dos Estados Unidos, que só concordou em falar francamente sobre o assunto se o seu nome não fosse divulgado pela reportagem.

E, em Mosul, as comemorações pelo desempenho dos iraquianos que lutaram lá ignoraram o tremendo - mas oculto - papel desempenhado pelas Forças de Operações Especiais dos Estados Unidos no sentido de neutralizar os combatentes inimigos mais perigosos antes que as tropas iraquianas chegassem em grande quantidade. "Não se fala muito em como os integrantes desse grupo secreto criaram condições para que o exército iraquiano entrasse e em como eles fizeram tal coisa", diz a autoridade norte-americana.

Resta saber se o governo iraquiano será capaz de capitalizar os sucessos operacionais com medidas concretas que melhorem a vida do povo nas três regiões, especialmente no que diz respeito a serviços municipais básicos e a oportunidades econômicas. "Tememos as expectativas irrealistas", diz a autoridade norte-americana. "A consolidação desses serviços leva tempo".

Mas caso não se tome tais medidas, grande parte dos ganhos poderá ser anulada em lugares como Hayaniya, uma das áreas mais pobres de Basra e um reduto Sadrista, no qual os moradores reclamam de que não viram muitas melhorias. "Eles disseram que iam consertar as escolas e as ruas - mas quando e onde?", pergunta Ali Alwan, 45. "É só conversa. Nós sofremos durante a operação militar, mas qual é a recompensa?"

As operações de al-Maliki contra indivíduos também xiitas em Basra e em Cidade Sadr renderam uma boa vontade, pelo menos temporária, por parte dos sunitas, que há muito tempo viam o governo dominado pelos xiitas como o inimigo. Entrevistas com 36 comerciantes, acadêmicos, professores, operários e funcionários públicos sunitas em ex-redutos da resistência, como Fallujah, Tikrit e os bairros de Akhamiya, Amiriya e Fadhil, em Bagdá, sugerem que o primeiro-ministro ganhou algum terreno junto a um grupo cuja lealdade é essencial para a construção de um Estado unificado e estável.

Abdul Hadi Jasim, um barbeiro de Adhamiya, afirma: "Agora, depois que uma das maiores milícias xiitas que destruiu Basra foi atacada, acredito que há uma sensação de justiça".

Mas antigas suspeitas ainda estão no ar, e os sunitas recordam-se da carnificina perpetrada por milícias xiitas de 2004 a 2007, e de como os grupos de extermínio xiitas foram protegidos pelas forças de segurança iraquianas. Além do Exército Mahdi, muitos sunitas temem a organização Badr, o braço armado do Conselho Islâmico Supremo do Iraque, um aliado próximo do Partido Dawa, de al-Maliki. As forças do Badr dominam algumas unidades das forças de segurança iraquianas.

"A guerra de Maliki foi seletiva", acusa Falah Muhammad Abdullah, um engenheiro de 46 anos que mora em Fallujah. "Por que o governo de al-Maliki caça a milícia Mahdi e nada faz contra o Badr?"

Muitos sunitas estão convencidos de que al-Maliki procura servir a outras forças: o Irã, os norte-americanos, o seu próprio Partido Dawa ou o Conselho Islâmico Supremo. Os dois últimos enfrentarão um desafio sério por parte dos sadristas nas eleições provinciais do final deste ano.

Mowafaq Abu Omar, um camelô de 52 anos de Adhamiya, expressou uma suspeita comum - de que o verdadeiro objetivo da operação em Basra foi assumir o controle sobre o único porto significante do Iraque e contribuir para a criação de uma grande e autônoma superprovíncia xiita rica em petróleo no sul do país.

Também há menos entusiasmo em relação à recente operação no oeste de Mosul, que é em grande parte sunita. Eman al-Hayali, uma professora de Amiriya, elogiou al-Maliki por enfraquecer o Exército Mahdi de Sadr, mas disse temer que a operação de Mosul tenha sido montada para satisfazer aos elementos que controlam al-Maliki no Irã e enviar uma mensagem ao presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad: "Não se preocupe, Excelência, nós também estamos matando sunitas".

Com tais suspeitas aflorando, a atual estabilidade seria ameaçada caso os ex-insurgentes que atualmente integram as forças do Despertar Sunita passassem a acreditar que estão sendo usados pelo governo liderado por xiitas enquanto recebem pouca coisa em troca.

"Só estamos satisfeitos com o governo em relação à guerra contra as milícias xiitas", afirma Khalid al-Summaraie, um líder de uma milícia sunita no bairro Fadhil, em Bagdá.

Ele acrescenta: "Eles não fizeram nada no sentido de nos proporcionar um melhor padrão de vida".

Um outro fator importante que sustenta al-Maliki tem sido a alta drástica do preço do petróleo, que, entre outras coisas, permitiu ao banco central iraquiano resgatar a sua moeda em um ritmo frenético, elevando o valor do dinar iraquiano e limitando a elevação dos preços pagos pelos consumidores. Alimentada pelos preços mais elevados dos alimentos, a inflação no mês passado foi de 16%, contra 11% em janeiro.

Mas esse índice poderia ter sido bem mais elevado sem as políticas agressivas adotadas pelo banco central. "O banco gastou de US$ 1 bilhão a US$ 1,5 bilhão mensalmente em receitas obtidas com o petróleo para a compra de dinares iraquianos no mercado aberto", explica Mudher M. Salih Kasim, assessor graduado do banco. "Este é o principal instrumento para o controle dos preços aos consumidores", afirma Kasim, que observa que o dinar valorizou-se 20% em relação ao dólar. "Um colapso do preço do petróleo seria um desastre", adverte Kasim.

O governo também está tentando canalizar dinheiro para acalmar os iraquianos que tiveram que suportar as operações militares em Cidade Sadr, Mosul e Basra, e também para garantir a lealdade desses indivíduos. Tahseen al-Sheikhly, porta-voz do plano de segurança de Bagdá, diz que US$ 100 milhões seguirão para Cidade Sadr para melhorar as condições econômicas e sociais no bairro após a operação militar de dois meses, que deixou casas destroçadas e mercados destruídos. Safaa al-Deen al-Safi, encarregado das atividades de desenvolvimento e reconstrução, diz que mais US$ 100 milhões serão investidos em setores como saúde e educação.

As forças antigoverno e antiocupação também fracassaram. Os insurgentes muçulmanos sunitas alienaram muitos iraquianos com um rastro de sangue e proibições do consumo de álcool e cigarros. E, à medida que os ataques contra as comunidades xiitas por insurgentes sunitas diminuíram, os xiitas que procuravam o Exército Mahdi para autodefesa passaram a ter menos disposição para suportar abusos.

Mas a melhoria da situação no Iraque enfrenta uma série de forças desestabilizadoras de âmbito provincial, nacional e regional. A insurgência sunita - que agora atua em vários locais como grupos pró-americanos sob o Despertar Sunita - continua aguardando para ver se o governo cumpre as suas promessas de fornecer empregos e de fazer uma administração menos sectária nas áreas de segurança, serviços públicos e infra-estrutura.

Os sadristas continuam fortes, e podem não perdoar aquilo que muitos consideram uma traição por parte de al-Maliki, que não teria se tornado primeiro-ministro dois anos atrás sem a aprovação dos seguidores de Sadr. Mohanned al-Gharrawi, um importante clérigo sadrista em Bagdá,
afirma: "Nos sentimos como uma ponte que foi usada para que eles atingissem os seus objetivos, e que depois foi deixada para trás".

Apesar desta confiança recém surgida, algumas autoridades graduadas iraquianas próximas a al-Maliki dizem que sem a rede de segurança militar norte-americana eles estariam vulneráveis às ameaças externas e internas. Um elemento importante, mas pouco observado, das negociações quanto à segurança tem sido a tentativa iraquiana de obter dos Estados Unidos um compromisso de defender o governo de agressões estrangeiras ou domésticas. Adeeb, o assessor de al-Maliki, diz que as autoridades querem que os norte-americanos protejam o governo iraquiano contra qualquer coisa que seja percebida por este como uma ameaça - e não apenas contra aquilo que os norte-americanos vejam como ameaça.

"O nosso sistema político é fraco, os terroristas e os membros do antigo regime não poupam esforços para derrubar o sistema, e países vizinhos têm as suas próprias ambições", afirma Adeeb. "O nosso exército ainda não é capaz de defender o Iraque".

*Andrew Kramer, em Mosul; Mohammed Husain, Suadad al-Salhy, Anwar J. Ali, Riyadh Muhammad, Ali Hameed, Mudhafer al-Husaini, Tareq Maher, Maha Malik, em Bagdá; e funcionários de "The New York Times" em Bagdá, Basra, Mosul e Fallujah contribuíram para esta matéria. UOL

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