UOL Notícias Internacional
 

23/06/2008

Não mais uma capital, Bonn é um destino internacional

The New York Times
Nicholas Kulish
Em Bonn, Alemanha
Alguém esqueceu de apagar as luzes em Bonn.

A antiga capital alemã, conhecida jocosamente como o "Hauptdorf", ou a "capital vilarejo", é supostamente uma relíquia do passado, nove anos depois que o Parlamento e as embaixadas saíram de lá e se mudaram para Berlim. Mas a pequena cidade às margens do Reno, imortalizada por John le Carré como "Uma Pequena Cidade na Alemanha" em seu romance de espionagem homônimo, conseguiu atingir o objetivo improvável de se reconstruir como uma cidade do futuro.

Autoridades locais e empreendedores combinaram gastos conscientes e a considerável generosidade do governo federal com a localização privilegiada da cidade no Vale do Reno para transformá-la em um campus internacional, que inclui desde pesquisa médica e energias alternativas até escritórios da ONU, que começou a se instalar aqui em 1996.

Em vez de assistir ao declínio do emprego desde que o Bundestag e a Chancelaria deixaram a cidade em 1999, Bonn viu um aumento de mais de 12 mil postos de trabalho em uma cidade de tamanho modesto, com apenas 315 mil habitantes.

Martin Specht/The New York Times 
Um centro de negócios está sendo construído às margens do rio Reno, em Bonn

Bonn, assim como a própria Alemanha, parece ter sido desconsiderada cedo demais. O desemprego na Alemanha tem as taxas mais baixas dos últimos 15 anos. E apesar da expectativa de desaceleração, a economia alemã cresceu a uma taxa anual de 6% no primeiro quadrimestre desse ano.

Embora isso possa ser ultrapassado em breve pelo crescimento rápido e descontrolado da China, essa antiga nação do velho continente - com apenas dezesseis avos da população da China - ainda é a maior economia do mundo de acordo com muitas estatísticas, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e do Japão. O país é também o maior exportador de bens industrializados do mundo, na frente de todos os demais graças a um setor manufatureiro próspero e sofisticado.

O antigo prédio do Parlamento do país agora é um centro de convenções, com novas instalações crescendo ao lado em meio a muitos guindastes. Bonn também abriga a SolarWorld, uma das companhias líderes na indústria de energia solar de ponta da Alemanha.

O setor de saúde é responsável por um em cada dez postos de trabalho na cidade e arredores. O governo federal anunciou em março que Bonn havia sido escolhida para abrigar um centro de pesquisas de doenças mentais de US$ 1 bilhão.

No centro, o marco dominante no horizonte da cidade surgiu após a saída do governo federal. A Torre do Correio do Deutsche Post, serviço de correios que emprega 7 mil pessoas em Bonn e arredores, com seus 40 andares de aço e alumínio, ergue-se sobre a cidade. Ela foi inaugurada em dezembro de 2002, dois anos depois que o Deutsche Post abriu seu capital. A Deutsche Telekom é o maior empregador regional com cerca de 13 mil funcionários.

"Sinto que é uma cidade que está de fato crescendo em importância, e não o contrário", diz Torbjoern Possne, executivo da fabricante de celulares Ericsson, que tem escritórios aqui.

Tanto a Alemanha quanto sua antiga capital, à qual o antigo chanceler Helmut Kohl se referiu como sendo um "símbolo notório de modéstia", têm razões para serem subestimadas por suas forças. A tendência alemã de esconder seu poder e influência sob a fachada das instituições internacionais, sobretudo a União Européia, mas também as Nações Unidas e a OTAN, permite que ela exerça sua influência sem sofrer a acusação tentadora de que tem ambições revanchistas depois das duas Guerras Mundiais.

Para Bonn, a receita de mais de US$ 2,2 bilhões recebida do governo federal entre 1994 e 2004 para facilitar a transição após a perda do Parlamento, gerou um forte ressentimento em todo o país. Além disso, pela lei, a cidade permaneceu com cerca de 20 mil empregos públicos e com os gabinetes de meia dúzia de ministérios.

Grupos de defesa dos contribuintes dizem que o resultado é o desperdício de dinheiro e de tempo dos funcionários que têm de viajar constantemente para Berlim, e os ambientalistas reclamam do excesso de poluição que resulta das viagens aéreas excessivas.

"As pessoas são muito reservadas em relação a isso", diz Joerg Haas, diretor executivo do HWB AG, um grupo investimentos privado sediado em Bonn.

Haas é menos reservado em relação ao comentar a distância entre a reputação do país e sua realidade econômica. "A Alemanha é com freqüência subestimada, mas se você olhar para os números, não há motivo para isso", disse Haas, que mudou sua antiga companhia de software de Colônia para Bonn em 2001.

"No passado, tentamos produzir nos países do leste; fomos para a Hungria, Polônia", disse Haas. "Mas trouxemos tudo de volta porque no fim das contas a estrutura mais produtiva e o lugar mais viável para desenvolver e produzir softwares é a Alemanha", diz ele, enfatizando a escolaridade, eficiência e confiabilidade dos funcionários, além da infra-estrutura física do país.

Agora Haas e seus sócios apostam seu dinheiro no futuro de Bonn, construindo um empreendimento imobiliário de US$ 465 milhões em uma bela paisagem do Reno. O planejamento original do luxuoso Elysion Hotel, que está em construção, tinha 160 quartos, mas o crescimento local fez com que eles voltassem à prancheta para aumentar o número de quartos para 254.

A vista do Reno a partir do escritório de Haas - com barcaças cheias de areia e pedra em direção à Holanda - é muito excepcional, assim como a vista dos picos dos montes Siebengebirge, incluindo os famosos Petersberg e o Drachenfels, onde, de acordo com a lenda, Siegfried matou o dragão.

Bonn ainda se beneficia de seu período como capital da Guerra Fria. O governo federal passou meio século tentando dar a Bonn os ares de uma capital histórica. Como resultado, Bonn às vezes parece uma cidade pequena sob efeito de esteróides, com todos os atributos e benefícios normalmente associados à vida na cidade grande, como um sistema metroviário além de museus e teatros de primeira linha, sem mencionar as escolas internacionais.

Seu período como capital também deu à cidade uma fama que poucas cidades pequenas podem almejar, o que ajudou a ganhar reputação no turismo médico entre os funcionários públicos estrangeiros de países menos desenvolvidos.

O Dr. Juergen Reul, especialista em neuroradiologia, acabou de abrir uma nova clínica privada especializada em cirurgias minimamente invasivas para problemas neurovasculares e de coluna. As operações começaram logo no primeiro mês, quando pacientes estrangeiros de todos os países desde o Golfo Pérsico até a Rússia ajudaram a clínica a preencher toda sua agenda, deixando-os com uma lista de espera.

"Bonn foi declarada morta, e então todo mundo entrou em ação para provar o contrário", disse Reul. "Agora há uma sensação de corrida do ouro". Reul tem uma perspectiva única. Antes de começar seus estudos de medicina, trabalhou como policial para assuntos de segurança diplomática nos anos 70. "Costumávamos dizer que a cidade era um ninho de burocratas sonolentos", disse Reul. "Agora é uma cidade viva." Eloise De Vylder

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