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23/06/2008

Restaurante para famintos de Mumbai sobrevive da caridade de quem passa

The New York Times
Anand Giridharadas
Em Mumbai, Índia
O Honda dourado encostou próximo à guia na frente do restaurante numa tarde tranqüila na semana passada. O vidro baixou. Uma nota de 100 rúpias, equivalente a cerca de US$ 2,30, saiu da janela, cortesia de uma mulher com lenço na cabeça que se identificou somente como sra. Abbas. Então, da mesma forma que chegou, o carro foi embora.

Dentro do restaurante Mahim Darbar, sete homens se levantaram num salto: homens esquálidos, doentes e com rostos marcados por erupções. Esse era o momento pelo qual estavam esperando. Abbas havia pagado o almoço deles, de uma forma essencialmente mumbaiana.

O mundo está repleto de restaurantes de todo tipo, de cadeias de hambúrguer a estabelecimentos três estrelas. Há lugares com drive through e outros em que você se senta. Mas o mundo não está muito familiarizado com a variação de Mumbai do tema: o café dos famintos.

Michael Rubenstein /The International Herald Tribune 
Um homem come um prato de arroz em dos "restaurantes para famintos" em Mumbai

É preciso uma cidade como Mumbai, antiga Bombaim, frenética, interativa e compassiva, para erigir restaurantes para os mal-nutridos. Não são instituições de caridade, já que os moradores dessa cidade têm pouco tempo para servir comida para os outros. Numa cidade que não pára de vender ações e rodar filmes, eles preferem fazer uma parada rápida para a benevolência.

Os cafés para famintos existem há décadas em um trecho de rua no bairro Mahim. Mendigos e desempregados esperam pacientemente, agachados em filas perfeitas na frente de cada um dos estabelecimentos. Enormes panelas de comida cozinham atrás das portas fechadas. O que os separa do alimento é um custo de 25 centavos por prato - um abismo mais difícil de atravessar do que se pode imaginar. Mas de vez em quando, um carro pára e faz uma doação, e os homens almoçam.

Os donos do restaurante descrevem sua missão como beneficente, mas os estabelecimentos têm lucro, ainda que muito pouco. Somente na Índia, talvez, onde nenhum nicho de negócio permanece muito tempo sem ser explorado, donos de restaurante são capazes de depender dos famintos para sobreviver.

Nos cafés, a pobreza é destilada à sua essência. O verdadeiro fardo, mais do que a falta de dinheiro, talvez seja a vulnerabilidade em relação à boa vontade dos outros, a dependência em relação a seus caprichos.

Se acontece de alguém que passa por ali na hora do rush encontrar o seu olhar faminto, você pode comer. Se a pessoa estiver falando no celular ou mudando a estação do rádio, pode ser que você não coma. A vida dos que estão abaixo na hierarquia pode ser simples assim.

Tratar os famintos dessa forma pode parecer cruel. Mas talvez haja alguma sabedoria. No resto do mundo, organizações beneficentes levantam dinheiro em escolas e igrejas e servem comida de graça em abrigos tranqüilos. No mínimo, os homens podem sentar-se dentro do restaurante, e não na sarjeta.

Mas na Índia, com seus vestígios feudais de classe e casta, isso talvez não funcione. Para a classe média que cresce cada vez mais, a caridade anônima dos talões de cheque ainda precisa virar moda. Os indianos mostram pouco entusiasmo em doar dinheiro para causas abstratas. A caridade indiana é uma caridade feudal: que faz doações para os indivíduos inferiores na hierarquia de poder das famílias.

A forma mais comum de caridade entre a classe média continua sendo pagar a cirurgia de US$ 200 do motorista da família ou a educação dos filhos da empregada. É a caridade estratificada do senhor feudal. Depende da forma como o servo demonstra sua necessidade e do senso de obrigação paternalista do senhor.

Colocar esses homens para dentro a pretexto de salvaguardar sua dignidade arriscaria deixá-los famintos, segundo o cálculo dos donos de restaurante. Eles acreditam que os homens precisam ser exibidos dessa forma, deprimidos e com olhares tristes. Eles precisam olhar para os transeuntes com aquele olhar reverente, tristonho e obediente que os indianos bem nascidos aprenderam a esperar. Eles precisam ser a propaganda de sua própria causa.

"Se eles ficarem dentro, será uma confusão para as pessoas que dão dinheiro - elas irão pensar que eles estão comendo", diz Shaib Ansari, proprietário de 23 anos do restaurante Mahim Darbar, que foi aberto por seu tio há mais de quatro décadas. "Não permitimos que ninguém se sente dentro do restaurante até que paguem para eles comerem".

Mas agora o Honda havia chegado, e estava na hora de os homens passarem de fora para dentro, do chão para a mesa, do desejo para a satisfação.

O garçom era um adulto com menos de 1,20 m de altura e tão esquelético quanto seus clientes, com uma estrutura assimétrica que na Índia é normalmente testemunho de uma doença que não foi tratada. Ele começou a preparar as refeições para os homens, enchendo pratos laranjas com arroz e derramando um mingau amarelo com curry.

Era um estabelecimento muçulmano, servindo comida carnívora. Mas por respeito aos seus muitos clientes hindus, o mingau também vinha numa versão vegetariana.

O restaurante recebe alguns homens (e apenas homens) apenas uma vez. Esses são os que tropeçam na fome e rapidamente saem dela. Outros freqüentam o lugar por alguns meses: homens que perderam o emprego no mercado de trabalho volátil que está tomando o lugar do antigo modelo socialista de empregos vitalícios.

Há também os clientes regulares. Nesse restaurante, não é privilégio ser um cliente regular. É uma categoria composta principalmente por homens doentes e instáveis - ou, como diz o dono, os "aposentados mentais".

Raju Subachan, 30, com uma faixa de pano vermelha em volta da cabeça, pertence à segunda categoria, de desempregados.

Ele veio há dois meses de Allahabad, no norte. Encontrou emprego como garçom numa empresa de bufê; ele transportava comida de ferry, sem jamais imaginar que passaria fome um dia. Mas Mumbai pode ser um lugar insensível. As empresas de bufê demitem empregados tão caprichosamente como os contratam, e Subachan logo se viu sem rumo.

Ele deixou claro, sentado na entrada do restaurante, que não era um viciado em comida de graça. Durante um mês de desemprego, foi ao restaurante apenas três ou quatro vezes. Nesse dia, ele já havia comido uma vez, ao meio dia, e estava esperando pela segunda refeição, que esperava que deixasse com uma sensação de saciedade até a manhã. E então o Honda dourado chegou e fez com que ele se levantasse.

Sentou-se sozinho, afundando os dedos no mingau amarelo em seu prato. Ele comeu rapidamente e em silêncio. Quando você come assim, com sua dependência exposta ao mundo, uma refeição não é mais algo para ser feito com demora.

Subachan levantou-se e lavou as mãos, e então se perdeu novamente na liberdade e na solidão da cidade. Eloise De Vylder

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