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25/06/2008

Diminui o apoio à diversidade cultural na Itália

The New York Times
Michael Kimmelman
Em Roma
Uma exposição de arte da Índia era organizada em uma manhã recente no Museu de Pré-história e Etnografia Luigi Pigorini. Em um local situado após as exibições de mah-jongg, música chinesa e dança ritual andina, Putli Ganju, Juliette Fatima Imam e a mãe de Juliette, Philomina Tirkey Imam, penduravam na parede os seus quadros de animais e peixes.

"Esse não é o meu tipo", disse a Imam mais velha. Ela explicava o significado do seu trabalho - simples, hierático e diáfano -, que mostra um pássaro fugindo de um veado. A forma como Ganju retrata a vida na selva, no quadro ao lado, é mais elaborada, com floreios e filigranas.

"Somos de tribos diferentes", disse Imam. "No trabalho dela tudo está misturado e no meu, cada coisa fica separada".

Ganju, uma mulher pequena e silenciosa que usa um sari colorido, sorri simpaticamente.

Chris Warde-Jones/The New York Times 
Um etíope vendedor de sapatos lê jornal na Piazza Vittorio, em Roma

Apesar de toda a sua diversidade, a Europa pode ser notavelmente provinciana. O mais recente governo italiano a chegar ao poder, há dois meses, baseou-se em uma plataforma que prometia a repressão aos imigrantes estrangeiros ilegais, que, segundo os oponentes da imigração na Itália, são vinculados ao crime. No mês passado a polícia italiana prendeu centenas de migrantes que moravam em um cortiço. Em maio, grupos antiimigração atacaram acampamentos de ciganos perto de Nápoles após boatos de que uma cigana de 16 anos tentou roubar um bebê.

Em toda a Europa, e sobremaneira na Itália, a postura em relação à imigração está ficando mais dura. Calcula-se que cerca de oito milhões de imigrantes ilegais vivam na União Européia. Na semana passada o parlamento da união aprovou leis para prender e deportar os ilegais. E, aqui, a ala de extrema-direita do novo governo do primeiro-ministro Silvio Berlusconi acabou de propor uma das leis antiimigração mais duras do continente, provocando uma cerrada oposição por parte das organizações de direitos humanos, da Organização das Nações Unidas (ONU) e também de promotores italianos que temem que os tribunais vejam-se inundados por casos de crimes.

Mas, com a queda do índice de natalidade e uma população composta cada vez mais de pessoas velhas, atualmente a Itália dificilmente sobreviveria sem os trabalhadores estrangeiros. Albaneses e romenos tomam conta dos idosos. Indianos que trabalham em Emilia-Romagna tratam das vacas que produzem o leite utilizado na fabricação de queijo parmesão.

O problema é que os temores em relação a crimes cometidos por imigrantes - medos que são inflamados pela mídia e por políticos populistas - conjugaram-se a uma das maiores ondas de imigração da Europa. A Liga Norte, um partido político que antigamente defendia a secessão do norte da Itália, ingressou na coalizão de governo de Berlusconi no segundo trimestre deste ano, após distribuir em regiões próximas a cidades como Siena cartazes mostrando um índio norte-americano e uma advertência de que os italianos terminarão, assim como os índios, confinados em reservas, caso não impeçam que os imigrantes tomem conta do país.

Aqui em Roma, o primeiro prefeito conservador em anos, Gianni Alemanno, ganhou a eleição com uma plataforma similar, que defendia o endurecimento para com criminalidade e a imigração ilegal. Ele praticamente não falou nada sobre cultura e as artes, exceto quando anunciou a redução de verbas para o festival de verão da cidade. Ninguém se recorda da última vez em que um prefeito de Roma ingressou no gabinete sem apresentar algum projeto cultural grande e financeiramente inviável.

Roma, um pólo antigo de atração de estrangeiros, está naturalmente mais integrada do que a maioria das cidades italianas e, ao contrário da maior parte do país, ela adotou pelo menos algumas medidas nos últimos anos para fazer frente à sua realidade multicultural. Entre essas medidas estão a criação de um programa de bibliotecas públicas para atender aos imigrantes e fornecer aos romanos livros e palestras sobre culturas estrangeiras. A questão agora é saber se tais iniciativas terão continuidade.

"Sempre nos consideramos uma cultura monolítica, mas a imigração é o nosso presente e futuro", diz Franco Pittau, funcionário da Caritas, uma associação católica de serviços e desenvolvimento sociais que, entre outras coisas, monitora a imigração local.

Franca Eckert Coen faz coro à observação. Judia italiana em uma cidade preponderantemente católica, morando em um apartamento repleto de arte judaica, ela era a encarregada de política multicultural no governo do ex-prefeito de Roma, Walter Veltroni. Coen lembra-se do ano em que os chineses comemoraram o seu Ano Novo com dragões perto do Dia da Epifania.

"Os jornais noticiaram que os chineses são contrários ao cristianismo", conta ela. "Assim, realizamos um evento público em Campidoglio sobre cultura chinesa e a comemoração do Ano Novo, e agora temos um desfile chinês todos os anos".

"O mesmo ocorreu com os sikhs", acrescenta Coen. "Tivemos um evento público depois de 2001. Também organizamos visitas de imigrantes aos museus capitolinos. Depois pedimos a eles que mostrassem algo. Os poloneses, por exemplo, arranjaram alguém para tocar música polaca no museu. São pequenas coisas capazes de fazer com que grandes temores sejam superados. Vi todos esses imigrantes tornarem-se um pouco mais cidadãos italianos. A cultura é crucial para proporcionar ao povo de Roma uma chance de constatar que ser estrangeiro significa trazer uma vida étnica diferente para a cidade, e que a diversidade é um fator positivo".

Não há dúvida de que atualmente a cultura italiana não é diversificada.
Ela consiste de uma dieta exclusivamente branca, nativa e monoétnica de jogos italianos, minisséries italianas de televisão, propagandas italianas nas televisões a cabo anunciando dispositivos vibratórios duvidosos que prometem acabar com a gordura, e música popular italiana.
Nem mesmo os alunos romanos do ensino básico conseguem mais se afastar da dieta de espaguete com molho de tomate, agora que um programa municipal intercultural para servir um almoço internacional por mês foi abandonado pelo novo governo de centro-direita, atendendo ao pedido de algumas mães italianas, que duvidavam do valor nutritivo do falafel e do curry.

As pessoas recordam-se da última vez em que o governo italiano prometeu lidar com os estrangeiros ilegais, em 2002. As deportações, 45 mil naquele ano, caíram para 23 mil em 2006, enquanto 640 mil novos imigrantes foram legalizados como parte da maior operação unificada de legalização na história da Europa. Poderia se dizer que a Itália, no seu paradoxo, está passando pelo tipo de choque cultural experimentado pelos Estados Unidos um século atrás, quando milhões de italianos, entre outras nacionalidades, migraram para aquele país. Atualmente os romenos são a população imigrante que mais cresce aqui. No final de 2001 eles eram 75 mil. Desde então, centenas de milhares chegaram.

Além disso, 5,7% da população carcerária também é composta por romenos.
Mais de um terço dos prisioneiros na Itália consiste de estrangeiros. Os estrangeiros são condenados por 68% dos estupros e 32% dos roubos.

Os políticos e a mídia capitalizaram essa conexão, apregoando calamidades como o assassinato, no outono passado, de Giovanna Reggiani, uma italiana de 47 anos, perto de um cortiço de ciganos, o que gerou uma onda de racismo contra essa etnia. Mas, na verdade, a criminalidade geral não aumenta desde 1991. Os roubos aumentaram, mas os assassinatos diminuíram. Em 1990 o número de assassinatos foi de 1.695, contra os 620 registrados no ano passado.

Gabriella Sanna dirige um programa de bibliotecas multiculturais que teve início aqui com um pequeno orçamento de cerca de US$ 120 mil em 1997. Atualmente ele sobrevive com menos, diz Sanna. Ele teve início com a coleta de livros de autores internacionais traduzidos para o italiano e com a organização de visitas de imigrantes de primeira e segunda geração às escolas para ensinarem às crianças italianas sobre culturas diferentes.

A seguir, à medida que a população imigrante crescia, a biblioteca começou a adquirir livros em romeno, polonês, árabe, francês, inglês, espanhol e chinês. As seções de língua estrangeira foram criadas em quase doze bibliotecas situadas em regiões habitadas por imigrantes.
Sanna estima que cerca de 8% dos imigrantes atualmente utilizem as bibliotecas públicas em Roma.

Ela foi diplomática quando a conversa abordou a recente eleição e a questão da sobrevivência do programa. "Esta é uma nova experiência para nós porque sempre trabalhamos em um clima favorável", diz Sanna. A sua expressão sugere que ela não está otimista.

Do outro lado da cidade, na exposição de arte indiana, onde os três artistas discutem os seus trabalhos, o museu estava vazio. Ele ocupa uma ensolarada instalação modernista do final da era fascista na área limítrofe ao centro da cidade. O lugar, dedicado a culturas estrangeiras, é esplêndido, mas conta com pouca verba e não é suficientemente reconhecido. Os alunos romanos do ensino básico visitam o museu em excursões escolares, mas depois não retornam. Os seus pais, ao serem questionados a respeito da última vez que visitaram o museu, parecem parentes com expressão culpadas ao serem lembrados e uma tia bondosa que eles não visitam há anos.

A irmã de Imam, com pouco mais de 20 anos, a mais ocidentalizada das três indianas, ao ouvir as colegas descreverem os seus quadros, entra na conversa. "Aprendi com a minha mãe e com Putli", diz ela. Mais complicadas do que a das outras, a suas pinturas sugerem um caldeirão onde os objetos se fundem. Ele está cheio de formas e figuras. No centro há dois pássaros entrelaçados. Ela olha para as aves, e explica a mensagem.

"Dois pássaros", afirma. "Na Índia, dizemos que dois pássaros juntos dão sorte". UOL

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