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25/06/2008

Krugman: lar, não-tão-doce lar

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
"Ter uma casa é algo que está no coração do sonho americano". Assim disse o presidente Bush em 2002, ao divulgar o "Desafio da Casa Própria" - um conjunto de iniciativas políticas com o propósito de aumentar drasticamente o número de proprietários de imóveis, sobretudo entre as minorias.

Ops. Apesar de o número de casas próprias ter crescido à medida que a bolha imobiliária aumentava, ele caiu vertiginosamente - especialmente para os afro-americanos - quando a bolha estourou. Hoje, a porcentagem de famílias que têm casa própria nos EUA não é maior do que era há seis anos, e há indícios para apostar que quando Bush sair da Casa Branca esse número será ainda menor do que quando ele entrou.

Mas eis uma pergunta que ninguém faz, principalmente em Washington: por que aumentar o número de casas próprias deveria ser um objetivo político? Quantas pessoas deveriam ter suas próprias casas?

A julgar pelo que os políticos dizem, pode-se pensar que toda família deveria ter sua casa própria - de fato, a menos que você tenha uma casa própria, não é um americano de verdade. "Se você é proprietário de alguma coisa", disse Bush uma vez, "é dono de uma parte vital do futuro de nosso país". Assim, os cidadãos que vivem em casas alugadas, e, portanto não possuem essa "parte vital", não podem ser patriotas de verdade. É quase como voltar a usar a propriedade como critério nas eleições!

Até mesmo os democratas parecem compartilhar da idéia de que os americanos que não têm casa própria são cidadãos de segunda classe. No início do ano passado, logo no começo da crise hipotecária, Austan Goolsbee, economista da Universidade de Chicago que é um dos principais conselheiros de Barack Obama, alertou em relação ao colapso dos empréstimos subprime. "Porque isso sempre foi um sonho tão comum", escreveu, "de fato, não há lugar como nossa própria casa, mesmo que ela venha com uma hipoteca inflacionada."

Essa crença de que você não é nada se não tiver uma casa se reflete na política norte-americana. Levando em conta que o IRS (Receita Federal americana) permite deduzir os juros hipotecários do imposto de renda, mas não permite deduzir os aluguéis, o sistema de impostos federal dá um subsídio enorme para as casas ocupadas pelos seus próprios donos. Além disso, empresas patrocinadas pelo governo - Fannie Mae, Freddie Mac e o Federal Home Loan Banks - oferecem financiamentos baratos para os compradores de imóveis; já os investidores que queiram fornecer casas de aluguel não têm nada disso.

De fato, a política norte-americana é baseada na premissa de que todos devem ter uma casa própria. Mas na verdade existem algumas desvantagens reais em ser proprietário de um imóvel.

A primeira delas é o risco financeiro. Apesar de raramente ser discutido dessa forma, tomar um empréstimo para comprar uma casa é como comprar ações: se o valor de mercado da casa diminui, o comprador pode facilmente perder todo seu investimento.

Isso não é uma preocupação hipotética. Só entre 2005 e 2007 - ou seja, no auge da bolha imobiliária - mais de 22 milhões de americanos compraram casas novas ou já existentes. Agora que a bolha estourou, muitos desses compradores perderam boa parte de seus investimentos. Hoje, há provavelmente cerca de 10 milhões de famílias com eqüidade negativa - ou seja, com hipotecas que excedem o valor das casas.

Ter uma casa também amarra as pessoas a seus empregos. Mesmo nas melhores épocas, os custos e os transtornos de vender uma casa e comprar outra - estimativas dizem que o custo médio para mudar de casa fica em mais de US$ 60 mil - tendem a fazer com que as pessoas relutem em se mudar para onde estão os empregos.

E essa não é uma época das melhores. Agora, o estresse econômico está concentrado nos Estados com a maior explosão imobiliária: a Flórida e a Califórnia tiveram um aumento de desemprego muito maior do que o país como um todo. Ainda assim, alguns donos de imóveis nesses Estados evitam buscar oportunidades em outros lugares porque é muito difícil vender suas casas.

Por fim, há o custo de viajar. Comprar uma casa quase sempre significa procurar uma casa simples para a família nos subúrbios, normalmente num lugar afastado, onde os terrenos são mais baratos. Numa época de gasolina a US$ 4 e preocupações em relação à mudança climática, essa é uma escolha cada vez mais problemática.

É claro que existem vantagens em ter uma casa própria - e, sim, minha esposa e eu temos uma casa. Mas ter uma casa não é para todos. De fato, levando em consideração a forma que a política dos EUA favorece ter uma casa em vez de alugar, pode-se argumentar que os Estados Unidos já têm proprietários de imóveis demais.

Tudo bem, sei como algumas pessoas vão responder a isso: qualquer um que questione o ideal da casa própria parece querer que a população fique "confinada em prédios de concreto ao estilo soviético" (como disse um colunista da Bloomberg recentemente). Bem, não é assim. Tudo o que estou sugerindo é que deixemos de lado a obsessão da casa própria, e tentemos nivelar a balança que, nesse momento, está extremamente inclinada contra o aluguel.

E enquanto isso, vamos tentar abrir a cabeça para a possibilidade de que aqueles que preferem alugar em vez de comprar uma casa também podem compartilhar do sonho americano - e também têm uma parte no futuro do país. Eloise De Vylder

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