UOL Notícias Internacional
 

25/06/2008

Zimbábue pode ser para a África do Sul o que o Tibete é para a China

The New York Times
Peter Godwin*
Nas últimas semanas, a natureza integral do regime repressor de Robert Mugabe no Zimbábue foi cruelmente exposta. Com o seu recurso truculento à tortura e aos grupos paramilitares para aterrorizar o seu próprio povo, Mugabe cruzou uma linha moral. Atualmente alguns advogados da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmam que há provas suficientes para denunciá-lo por crimes contra a humanidade.

Morgan Tsvangirai, líder do Movimento para Mudanças Democráticas e adversário de Mugabe no segundo turno da eleição presidencial na sexta-feira, teve pouca alternativa a não ser retirar-se da disputa (Tsvangirai refugiou-se na Embaixada da Holanda em Harare). Continuar participando das eleições só provocaria a morte de uma quantidade maior dos indivíduos que o apóiam. Qualquer posição intermediária nesse conflito desapareceu.

Em meio às ruínas do Zimbábue ficou a figura vacilante, abalada e moralmente comprometida de Thabo Mbeki, o presidente da África do Sul - até então o personagem mais importante na região -, que deveria ajudar a garantir um processo eleitoral livre e justo no Zimbábue. Mesmo neste estágio tardio, quando os grupos de extermínio estão agindo, Mbeki ainda tenta persuadir o Movimento para Mudanças Democráticas a participar como parceiro minoritário em um tipo de governo unitário no estilo queniano.

CAOS NO ZIMBÁBUE
EFE - 27.abr.2008
Simpatizante participa de comício do líder oposicionista Tsvangirai
COLAPSO DA SAÚDE
ZIMBÁBUE E ÁFRICA DO SUL
Tsvangirai e os seus seguidores - que mantiveram-se pacíficos, participaram de três eleições fraudadas pelos adversários e tentaram habitar o "espaço democrático" enquanto este ficava cada vez mais reduzido - são compreensivelmente hostis à idéia de participar de um governo liderado pelas mesmas pessoas que os atacaram. Além do mais, ingressar em tal coalizão só recompensaria Mugabe pela sua repressão violenta. A solução para o Zimbábue é simples: uma eleição livre e justa.

A comunidade internacional não tem escolha a não ser negar qualquer legitimidade ao regime de Mugabe. Para começar, os "resultados" da eleição de sexta-feira não deveriam ser reconhecidos. Aliás, o mundo não deveria mais reconhecer Mugabe como presidente do Zimbábue. E caso a oposição crie um governo no exílio, o Ocidente deveria negociar com este governo, baseado nos resultados da eleição de março, na qual Tsvangirai obteve mais votos do que Mugabe.

É claro que a África do Sul poderia utilizar o seu poder econômico para fazer com que o reinado de Mugabe acabasse em semanas, e não em meses.
Mas Mbeki recusou-se terminantemente a agir, fornecendo um manto protetor para a repressão de Mugabe. E, apenas algumas semanas atrás, quando membros da oposição eram torturados, Mbeki visitou o Zimbábue, aceitando uma coroa de flores e aparecendo na televisão estatal com um Mugabe de sorriso largo. No Conselho de Segurança da ONU, no qual a África do Sul atualmente tem uma cadeira, Mbeki se opôs a tentativas de inserir a situação política do Zimbábue na agenda da organização.

Se o cálculo de custos e benefícios feito por Mbeki foi tal que ele não achou necessário agir com mais rigor, talvez seja hora de modificar esse cálculo. Talvez, por exemplo, agora não seja o momento para as pessoas marcarem um safári para a África do Sul. E nem para você, ou qualquer instituição que lide com verbas, fazer novos investimentos no país.

E, o mais importante, há a Copa do Mundo de futebol, que será sediada pela África do Sul em 2010. Talvez isso pareça um exagero, mas a África do Sul já está investindo muito, financeira e politicamente, naquilo que espera ser uma festa triunfal. Talvez o Zimbábue deva tornar-se para a África do Sul, com a sua Copa do Mundo, aquilo que o Tibete tornou-se para as Olimpíadas de Pequim - o albatroz fedorento que estraga toda entrevista coletiva à imprensa e prejudica toda apresentação com o seu odor insistente.

Talvez seja hora de compartilhar a dor dos zimbabuanos, de ajudar a persuadir Mbeki a focalizar-se na fonte desta dor com a ameaça de agarrar a bola de futebol e levar os nossos jogos para outra parte.

*Peter Godwin é autor do livro "When a Crocodile Eats the Sun" ("Quando um Crocodilo Devora o Sol") UOL

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