UOL Notícias Internacional
 

26/06/2008

Cristãos iraquianos eram alvo de extorsão para financiar a resistência

The New York Times
Andrew E. Kramer
Em Mosul, no Iraque
Conforme os sacerdotes fazem em toda parte, o arcebispo Paulos Faraj Rahho, líder dos católicos caldeus nesta antiga cidade, coletou doações na missa de domingo. Mas durante anos o dinheiro, uma pilha compacta de dinares iraquianos multicoloridos, foi parar nas mãos de um homem que ameaçava matar Rahho e toda a sua congregação.

"O que mais ele poderia fazer?", pergunta Ghazi Rahho, primo do arcebispo. "Ele tentou proteger os cristãos".

Mas, agora, oficiais militares norte-americanos dizem que à medida que a situação da segurança começou a melhorar no Iraque no ano passado, Rahho, 65, deixou de pagar o dinheiro para a proteção, uma pequena amostra da sombra assustadora de violência e perseguição que obrigou centenas de milhares de cristãos a fugir do Iraque. Segundo os militares, essa decisão pode ter sido o motivo pelo qual ele foi seqüestrado em fevereiro último.

Duas semanas depois, o corpo do sacerdote foi encontrado em uma cova rasa nas imediações de Mosul, a cidade bíblica de Níneve.

Moises Saman/The New York Times 
Fiéis participam de missa em igreja católica em Bagdá

Rahho foi um dos cristãos iraquianos conhecidos que morreram na guerra.
A sua morte foi lamentada pelo presidente Bush e pelo papa Bento 16 antes que o seu papel como fornecedor de dinheiro para proteção pago pelos cristãos caldeus aos insurgentes fosse conhecido fora do Iraque.

Segundos os militares norte-americanos e os cristãos iraquianos, esses pagamentos chegaram ao ápice de 2005 a 2007, e tornaram-se uma fonte de financiamento para a resistência. Assim, esse dinheiro tornou-se uma complicação secreta, vergonhosa e extraordinária na vida dos cristãos iraquianos e os seus líderes - uma complicação sobre a qual só agora os cristãos falam mais abertamente, já que a violência está bem menor do que nos primeiros anos da guerra.

"As pessoas negam isso, dizem que é algo muito complexo, e ninguém na comunidade internacional faz algo a respeito", afirma Canon Andrew White, o vigário anglicano em Bagdá. "Para complicar ainda mais a questão, parte do dinheiro para proteção foi oriundo de doações de cristãos no exterior, enviadas com a intenção de ajudar os cristãos iraquianos".

Durante mais de 1.000 anos o norte do Iraque foi compartilhado por pessoas de crenças e rituais diferentes: turcomenos, curdos, iazidis, árabes sunitas e xiitas e cristãos assírios - dos quais os caldeus são a maior denominação (a Igreja Caldéia, que pratica os rituais orientais, faz parte da Igreja Católica Apostólica Romana, mas mantém os seus próprios costumes e liturgia).

Desde a época do profeta Maomé, o fundador do islamismo, os muçulmanos no Oriente Médio permitiram essa diversidade, em parte mediante o pagamento de uma taxa especial por parte de judeus e cristãos. A taxa chamava-se jizya - e foi este o nome escolhido pelos insurgentes para camuflar a extorsão, em estilo mafioso, praticada contra os cristãos.

As autoridades dizem que a exigência podia chegar a centenas de dólares mensais por indivíduo do sexo masculino. Em muitos casos, as famílias cristãs perderam a poupança de uma vida inteira e endividaram-se para pagar a quantia exigida. Os insurgentes também arrecadaram dinheiro por meio do seqüestro de padres. Os resgates, muitas vezes pagos pelas congregações, chegavam a até US$ 150 mil, segundo sacerdotes e leigos.

De forma paradoxal, esta cidade, há muito tempo o reduto da cristandade iraquiana, também ficou conhecida como o último reduto urbano dos insurgentes sunitas. Um outro paradoxo, mais doloroso, é o fato de que muitos dos 700 mil cristãos iraquianos que restaram pagaram para salvar as suas vidas, sabendo muito bem que o dinheiro seria usado para a obtenção de bombas e outras armas para matar outras pessoas.

Rahho era um homem de Deus que pregava a paz nos seus sermões.
Determinar como ele acabou desempenhando o papel de fornecedor de pagamentos aos insurgentes é algo complexo. Parte da resposta encontra-se na deterioração da política local do norte do Iraque sob a ocupação norte-americana.

O norte, com toda a sua diversidade étnica e religiosa, no início esteve calmo. Mas um ataque dos fuzileiros norte-americanos em 2004 contra Fallujah, no oeste de Bagdá, obrigou os líderes do grupo insurgente sunita Al Qaeda na Mesopotâmia a mudarem-se para o norte. A seguir a região mergulhou em uma carnificina aterrorizante. Os cristãos, vistos como aliados dos invasores norte-americanos, tornaram-se alvos de ataques retaliatórios. Notas com a inscrição "Mude-se ou morra" passaram a aparecer nas portas das casas. "Todas as vezes em que os países ocidentais fazem uma guerra no Oriente Médio, o conflito transforma-se em uma guerra religiosa", afirma Rosie Malek-Yonam, autora do livro "The Crimson Field" ("O Campo Rubro"), um romance histórico descrevendo o massacre, de 1914 a 1918, dos assírios durante a Primeira Guerra Mundial sob circunstâncias similares.

Malek-Yonan, que depôs sobre a questão da segurança dos cristãos no Iraque em uma audiência no Congresso dos Estados Unidos em 2006, acusou o exército norte-americano de não proteger os cristãos, por temer que uma atenção especial dispensada a essa minoria fosse capitalizada por propagandistas da resistência.

Em vez disso, a tarefa de proteger os bairros cristãos em Mosul e nas vilas da Planície de Níneve ficou a cargo da milícia curda Pesh Merga, e, mais tarde, de unidades do exército iraquiano dominadas por curdos.

Os curdos, porém, tinham a sua própria agenda: a expansão das fronteiras da sua região. Os curdos afirmam serem os donos de cinco distritos disputados na província de Níneve, incluindo dois que são historicamente cristãos.

Malek-Yonan e outros cristãos assírios e especialistas acusam os comandantes curdos de privar os cristãos de segurança, na tentativa de fazer com que a composição demográfica favorecesse os curdos. Segundo ela, o resultado esperado foi um êxodo de centenas de milhares de cristãos do país. Pelo menos centenas deles foram mortos. Um padre foi esquartejado e decapitado.

As autoridades curdas negam ter deixado de proteger os cristãos. "As forças iraquianas curdas em Mosul fazem o seu trabalho sem distinção entre seitas, religiões ou nacionalidades", afirma Mohammad Ihsan, ministro de Questões Extra-Regionais no Governo Regional do Curdistão.

No entanto, a população cristã do Iraque diminuiu de 1,3 milhão de habitantes no período anterior a guerra para os atuais 700 mil.

Aqueles que não emigraram enfrentaram um dilema moral terrível.

Aquilo que era chamado de jizya era coletado e pago por líderes judeus e cristãos aos insurgentes que atuavam na margem oeste do Rio Tigre.
Segundo Kanna, o parlamentar cristão, Rahho pagou o dinheiro em nome dos cristãos que moravam nos bairros orientais de Mosul. Ele foi uma escolha óbvia dos insurgentes por ter passado quase a vida inteira em Mosul e ser bem conhecido.

"Ele era o elo de ligação", resume Kanna.

O primo do arcebispo, Ghazi Rahho, caracterizou o papel do religioso como sendo menos importante, e enfatizou a questão de vida ou morte que fez com que ele escolhesse pagar para salvar a sua congregação. E certamente o arcebispo não era o único que pagava.

"Todos nós pagamos", confessa um padre cristão ortodoxo assírio, que pediu que o seu nome não fosse divulgado por temer uma retaliação dos insurgentes. "Tínhamos medo".

Segundo vários cristãos que pagavam, o dinheiro mudava de mãos discretamente, de acordo com um mecanismo simples.

Um homem se apresentou como Abu Huraitha, e que às vezes dizia representar a Al Qaeda na Mesopotâmia, fazia as ameaças por telefone, conta o padre assírio. "Ele dizia: 'Preciso do dinheiro, preciso do dinheiro. Se vocês não nos derem o dinheiro, nós os mataremos'", conta o padre. Quem levava o dinheiro, porém, era um cristão, um velho de olhos azuis, que passava nas igrejas para coletar os pacotes com as quantias exigidas. "O sujeito do telefone dizia: 'Se vocês não derem o dinheiro ao velho, morrerão'".

Ele conta que pagou dez milhões de dinares iraquianos, ou cerca de US$ 8.000, em um período de três anos, até o inverno passado, quando o exército dos Estados Unidos reforçou a sua guarnição em Mosul com o Terceiro Regimento de Cavalaria Blindada. As operações militares intensificaram-se na cidade. As unidades norte-americanas construíram fortalezas nos bairros e instalações de controle de tráfego que atrapalharam a movimentação dos insurgentes. O esquema de extorsão começou a desmoronar.

O padre assírio diz que durante os combates do inverno passado circulou o boato de que os norte-americanos mataram Abu Huaraitha. Muitos líderes de igrejas basearam-se na suposta morte desse contato para deixarem de pagar. Entre eles estava Rahho. Ele discursou na televisão em janeiro, denunciando os pagamentos e afirmando que esse dinheiro não deveria mais ser entregue aos insurgentes.

Um mês depois, em 29 de fevereiro, Rahho foi seqüestrado por homens armados após rezar na Catedral do Espírito Santo. Eles mataram o seu motorista e dois guarda-costas e colocaram o religioso no porta-malas de um carro. Na escuridão, ele conseguiu pegar o telefone celular e ligar para a sua igreja. Rahho implorou aos fiéis que não pagassem um resgate que financiaria a violência.

O tenente-coronel Eric R. Price, assessor das unidades do exército iraquiano no leste de Mosul, diz que Rahho, que era diabético, provavelmente morreu por falta de medicamento antes que a sua libertação pudesse ser negociada.

Ahmed Ali Ahmed, um árabe que as autoridades iraquianas identificaram como membro da Al Qaeda na Mesopotâmia, o grupo doméstico que segundo os serviços de inteligência norte-americanos é liderado por estrangeiros, foi capturado, julgado e condenado a morte pelo seqüestro, embora Kanna, o legislador cristão, afirme que ele foi apenas o executor do seqüestro, e que os mentores intelectuais estão impunes.

Na verdade, a igreja foi abordada para a discussão do resgate. A quantia exigida, e jamais paga, foi de US$ 1 milhão, e, depois, de US$ 2 milhões. UOL

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