UOL Notícias Internacional
 

26/06/2008

Friedman: assumindo o comando do Iraque?

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Tendo retornado recentemente do Egito, estou com o Canal Suez na minha mente. E olhando para o Iraque desde o Cairo, ocorreu-me que talvez os iraquianos tenham acabado de cruzar o Canal de Suez. Se isso de fato aconteceu, eis uma boa notícia.

Sobre o quê estou falando? O presidente do Egito Anwar Sadat não teria conseguido de nenhuma outra forma fazer a paz com Israel se ele não tivesse primeiro lançado seu ataque relâmpago que atravessou o Canal de Suez no dia de Yom Kippur em 1973. "A travessia", como o ataque surpresa ficou conhecido no folclore egípcio, foi tão importante do ponto de vista psicológico quanto do militar. Ela varreu a derrota humilhante que o Egito havia sofrido na guerra de 1967, e deu aos egípcios a dignidade e autoconfiança necessárias para fazer a paz com Israel em pé de igualdade militar. Apesar de a realidade militar ser mais complexa, os egípcios sentiram que eles mesmos haviam libertado o Sinai.

Uma das primeiras coisas que percebi ao visitar o Iraque depois da invasão norte-americana foi que o fato de que os iraquianos não terem libertado a si mesmos, mas terem de ser libertados pelos americanos, é uma fonte de humilhação para eles. É uma das razões pela qual eles nunca jogaram flores. É humilhante quando outro povo vem libertá-lo dentro de seu próprio país - e a humilhação, acredito, é a principal e mais subestimada força atuante nas relações internacionais, especialmente no Oriente Médio.

Isso também ajuda a explicar porque inicialmente os iraquianos não assumiram o poder sobre suas instituições governamentais, como a Autoridade Provisória da Coalizão, ou APC. Eles nunca lutaram por isso. Ela foi oferecida a eles. As pessoas precisam lutar e conquistar sua própria liberdade, e é isso que dá legitimidade às suas instituições.

O que parece ter acontecido no Iraque nos últimos meses é que o povo iraquiano finalmente conseguiu alguma liberdade para si. Com a ajuda do aumento de tropas ordenado pelo presidente Bush, a maioria das tribos sunitas libertaram-se das garras da Al Qaeda em suas províncias. E a maioria dos xiitas - representada pelo primeiro-ministro Nouri al-Maliki e pelo exército iraquiano - libertaram Basra, Amara e a Cidade de Sadr em Bagdá tanto das milícias do exército Mahdi quanto dos esquadrões da morte pró-iranianos.

Um dia poderemos olhar para trás e ver esses eventos como a verdadeira guerra de libertação do Iraque. Aquela que fizemos há cinco anos não contou.

E uma vez que os iraquianos agora têm sua própria narrativa de libertação, isso parece dar mais legitimidade e autoconfiança ao exército iraquiano dominado pelos xiitas e ao governo de Maliki. Também parece ter encorajado os sunitas a participarem das próximas eleições parlamentares - depois de terem boicotado amplamente as últimas eleições. Os curdos já se libertaram e têm essa autoconfiança.

Contribuiu para essa libertação o fato de que tanto a Al Qaeda quanto o Irã foram longe demais. Sempre acreditei que existe apenas uma coisa boa em relação aos extremistas: eles não sabem quando parar. A Al Qaeda no Irã empreendeu matanças contra quaisquer sunitas que se opunham a eles, cortando cabeças, forçando casamentos, decepando líderes tribais e assassinando xiitas às centenas. Enquanto isso, os extremistas xiitas pró-iranianos tentaram impor uma ordem ao estilo Taleban em Basra e Bagdá - com lenços nas cabeças a boicote de álcool - lugares que ainda têm uma maioria composta principalmente de xiitas seculares.

Eventualmente, essa opressão de muçulmanos sobre muçulmanos pareceu detonar um grito de "nós-não-vamos-mais-suportar-isso", que levou tanto os xiitas quanto os sunitas de centro a se libertarem de seus próprios extremistas e, fazendo isso, eles de fato assumiram o comando de seu próprio país.

Por mais estranho que pareça, a pessoa que viu essa violência chegar e alertou sobre como ela poderia sair pela culatra da Al Qaeda foi Ayman al-Zawahiri, amigo próximo de Osama bin Laden. Lembram da famosa carta datada de 9 de julho de 2005, que Zawahiri enviou para o líder da Al Qaeda no Iraque, Abu Musab al-Zarqawi? Zawahiri alertou Zarqawi para parar de assassinar tantos xiitas, e mesmo sunitas, com suas campanhas de atentados suicidas e seqüestros.

"Muitos de seus admiradores muçulmanos entre as pessoas mais comuns se perguntam sobre os ataques em Shia", disse Zawahiri na carta. "Esse questionamento fica mais forte quando os ataques são contra suas mesquitas. (...) Minha opinião é que isso não será aceito pela população muçulmana, não importa o quanto vocês tenham tentado explicar, e a aversão contra isso irá continuar. (...) Entre as coisas que o povo muçulmano que o ama e o suporta nunca irá achar palatável - além disso tudo - estão as cenas de matança de reféns."

Zarqawi não aceitou o conselho.

Mas não se engane: essas guerras paralelas de auto-libertação ainda não somam um movimento de unidade nacional. A guerra civil ainda pode estar no futuro do Iraque. Nem todos os sunitas e xiitas tiveram as suas "travessias". O Iraque está a quilômetros de distância de ser um país saudável. E agora que as comunidades xiitas e sunitas iraquianas estão tomando maior responsabilidade pelo seu próprio país, você também verá uma intensa luta de poder para ver quem domina quem. Com os dólares do petróleo se acumulando, há muito mais motivos pelos quais lutar.

Mas se tivermos sorte, essa luta será travada principalmente na arena política. Se não tivermos? Bem, vamos torcer para ter sorte. Eloise De Vylder

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