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26/06/2008

Futebol vence Cultura por 1 a 0 na guerra por Viena

The New York Times
De Michael Kimmelman
Em Viena, Áustria
Hoje na Europa nada -nem os preços do petróleo; certamente não a recente visita do presidente Bush; nem mesmo a Carla Bruni- ocupa mais a atenção do que a Eurocopa 2008. O campeonato de futebol do continente, que acontece a cada quatro anos e este ano está sendo sediado conjuntamente por Suíça e Áustria, termina no domingo. (Se você é fã de futebol, veja o álbum da fase semifinal da competição.) Para as instituições culturais da cidade, depois de um mês de jogos, a final não será cedo demais.

A Áustria está tomada pelo que poderia se chamar de síndrome de país pequeno. O campeonato, a tentativa da nação de se unir ao grande esporte global, foi um desastre temporário para as instituições culturais da cidade, que por anos sustentaram a economia local e deram à Viena sua fama gloriosa.

"DESASTRE TEMPORÁRIO"
Peter Rigaud / The New York Times
Uma bola gigante repousa sobre o teatro Burgtheater, em Viena, uma das cidades-sede da Eurocopa 2008; tradicionalmente refúgio de Goethe e Shakespeare, o teatro se rendeu ao futebol durante o torneio para abrigar, provisoriamente, um bar para os torcedores VIPs... que acabaram preferindo ver os jogos nos estádios
"Nunca foi tão ruim", lamentou Wilfred Seipel, diretor-geral do museu Kunsthistorisches, sobre a freqüência, que durante o campeonato mergulhou 60%. As perdas de receita excederam US$ 150.000 (cerca de R$ 300.000), ele estimou.

O Burgtheater, templo nacional de Goethe e Shakespeare, cancelou todas suas apresentações para junho. A Áustria Telecom, alugou-o por mais de US$ 2 milhões e fez um bar gigantesco de esportes para clientes VIPs corporativos. No entanto, em noite recente, a maior parte dos presentes eram jornalistas e gerentes de nível médio que haviam filado convites. Os verdadeiros VIPs, é claro, estavam nos jogos.

Houve uma fúria de atenção da mídia na semana passada quando um diretor da Ópera Estadual de Viena, Ioan Holender, anunciou o cancelamento do balé marcado para a noite da final, porque poucos ingressos, "cerca de 30%", haviam sido vendidos.

As pessoas foram afugentadas pela possibilidade de hoolingans bêbados saírem da chamada FanZone, uma enorme área cercada no centro da cidade. Ali, dezenas de milhares de espectadores (nem tantos quanto os austríacos esperavam) vinham se reunindo pacificamente para assistir os jogos em telas gigantescas, engolindo pretzels de US$ 4 (cerca de R$ 8) e cervejas Carlsberg de US$ 7 (por volta de R$ 14), quando podiam pagar. (Depois da derrota da seleção austríaca para a Alemanha por 1 a 0, na semana passada, os austríacos pareciam ainda mais tristes em terem de beber cerveja dinamarquesa.)

Os vienenses de fato vinham evitando instituições culturais e o centro da cidade não por medo da violência, mas pela mesma razão que os nova-iorquinos evitam o lado Leste da cidade quando os presidentes visitam a Organização das Nações Unidas -para evitar confusão. De fato, o próprio Holender foi visto na FanZone, torcendo pela seleção de seu país Romênia (que perdeu de 2 a 0 para a Holanda).

"A questão não é se eu sou ou não fã de futebol", disse ele em seu escritório nesta semana acenando com a mão para eliminar essa pergunta particular. "Realmente é uma questão da pequenez da mente austríaca."

E ele tem um ponto. O que está acontecendo aqui não é tanto um choque cultural entre estetas e rufiões; as multidões têm sido quase narcolepticamente bem-comportadas, anestesiadas por eventos como o jogo de quartas de final entre Espanha e Itália, no domingo, um empate de 0 a 0 durante o qual as multidões na FanZone estavam mais quietas do que alguns públicos de ópera.

Não, a situação aponta mais na direção de uma crise de identidade.

Gerald Matt, diretor do Kunsthalle, onde o público caiu em dois terços durante o campeonato, explicou o problema. "É uma mistura muito estranha entre um complexo de inferioridade e megalomania". Ele citou uma "síndrome de Córdoba", referindo-se ao que, para os austríacos, foi aquela época gloriosa há trinta anos quando a Áustria venceu a Alemanha por 3 a 2 em Córdoba, Argentina, gerando ilusões eternas de grandeza.

"Mas, na realidade, somos um país pequeno, então nunca vamos ter uma seleção muito boa", diz Matt. "Este campeonato deveria mostrar ao mundo que somos importantes. Mas nós já somos importantes, na cultura. Acontece que aqueles que são politicamente importantes aqui não estão conscientes de quanto a cultura é importante para nosso país e não têm orgulho dela. Então, em vez disso, adotam essa cultura em troca."

Com "essa cultura", ele queria dizer o futebol. "Aconteceu o mesmo em 38", disse Holender, mais maliciosamente, aludindo ao Anschluss. O futebol, ele queria dizer, era outra potência mundial, em associação com a qual a Áustria agora tenta parecer grande, mas ao custo de sua verdadeira alma cultural.

Seipel, diretor do museu, disse: "Veja, é uma compreensão errônea da política democrática. Temos um governo socialista, e Viena quer ser aberta a tudo, trazer mais pessoas, o que é bom. Mas então decide que deve proteger a cultura cercando nosso museu como uma prisão, como se as pessoas fossem perigosas como leões."

"Quero dizer, você viu a Maria Teresa?"
Estava se referindo ao famoso monumento da rainha Maria Teresa, na frente do museu de Seipel e também na frente do Museu de História Natural, que, para a Eurocopa 2008, foi engolido como uma amêndoa em um chocolate por um pavilhão vermelho brilhante de três andares, patrocinado por uma empresa de café local. Os turistas podem ir ali fazer um lanche como se não houvesse já suficientes cafés em Viena. Imagine se levantassem uma concessão do Starbucks do tamanho, digamos, da balsa de Staten Island, atravessando a quinta avenida e bloqueando a entrada do Museu Metropolitano de Arte. "Duvido que isso acontecesse em Nova York", disse Seipel.

Claramente ele nunca tentou atravessar a cidade durante a maratona de Nova York. Contudo, é verdade: dentro do Kunsthistorisches, o homem da bilheteria, sem nada para fazer, lê o jornal, enquanto (graças a Deus por certas verdades eternas na vida) alguns poucos turistas japoneses evitam que o museu fique completamente abandonado.

Do outro lado da rua, adolescentes sorriam para fotografias diante das chuteiras do tamanho de carros estacionadas na frente dos MuseumsQuartier. (Elas tiveram que se transportadas até ali por caminhões.)

Uma van tocando música espanhola em altos brados descarrega 3 homens gordos com roupas de matadores, e os adolescentes vão embora. Isso foi mais agitação do que estava acontecendo no Kuenstlerhaus, onde a exibição de futebol, que custou ao governo austríaco cerca de US$ 4 milhões, estaria vazia, se não fosse por grupos escolares.

Depois de dois meses, a mostra teve cerca de 17.000 visitantes, na maior parte estudantes, não os turistas que eram o público-alvo. Certamente, foram muito menos que os 100.000 que o governo havia sonhado. As autoridades austríacas imaginaram que os fãs de futebol iam querer ver uma mostra sobre o esporte, o que parece tão lógico quanto pensar que as pessoas que saem para jantar gostariam de ver uma mostra sobre "weiner schnitzel". É um exemplo da síndrome de Córdoba em ação.

Ninguém está acima do comércio e da política. O maior evento social na cidade é o famoso Baile Anual de Inverno, quando todos os assentos da orquestra são removidos da Ópera Estadual de Holender, como agora no Burgtheater, para deixar espaço para os clientes VIPs. Quando terminar a Eurocopa 2008, o Burgtheater vai chorar durante todo o percurso até o banco. O cartaz vai descer da frente do parlamento. As chuteiras de futebol pintadas serão removidas das estátuas na frente do Kuenstlerhaus.

Mas, por enquanto, a Espanha e a Rússia se enfrentam na segunda semifinal na noite de quinta-feira. No último domingo, na frente da ópera, torcedores usando perucas tricolores da Itália convenceram um casal de guias turísticos de Viena, daqueles que andam com perucas brancas e roupas do século 18, a jogarem futebol debaixo do calor. Foi uma espécie de relaxamento cultural.

"É interessante ter as duas culturas, não?" disse um jovem fã de futebol de Linz, Áustria, que disse se chamar Alexander K. Ele estava na frente do café Europa, que, até domingo, está oferecendo o um especial de futebol de "bratwurst" e cerveja (austríaca, é claro) por US$ 7,50 (cerca de R$ 15).

Sim senhor K., é interessante. Deborah Weinberg

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