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27/06/2008

Jerry Seinfeld: Morrer é difícil. Fazer comédia é ainda mais

The New York Times
Jerry Seinfeld*
A verdade honesta é que, para um comediante, até a morte é apenas um assunto para se fazer piada. Sei disso porque estava ao telefone com George Carlin há nove dias, e estávamos fazendo algumas piadas sobre a morte. Estávamos falando de Tim Russert e Bo Diddley, e George disse: "Me sinto seguro por um tempo. Provavelmente haverá uma pausa antes de virem pegar o próximo. Eu sempre gosto de voar por uma empresa logo depois dela sofrer um acidente. Aumenta a sua chance estatística."

Eu havia ligado para cumprimentá-lo pelo seu mais recente especial na HBO. Com 70 anos, ele ainda conseguia produzir uma hora de coisas novas e maravilhosas. Ele estava em um hotel em Las Vegas, preparando-se para seu espetáculo. Era um monstro.

Certamente pode-se dizer que George, de muitas formas, inventou a stand-up comedy (comédia em pé) americana. Todo comediante faz um pouco de George. Não consigo nem contar quantas vezes, entre comediantes, alguém levanta alguma idéia para uma piada e o outro diz: "Carlin faz isso". Ouvi isso durante toda minha carreira: "Carlin faz isso", "Carlin já fez", "Carlin fez isso oito anos atrás".

E ele não apenas fazia. Trabalhava a idéia como se estivesse lapidando um diamante com suas facetas e ângulos e refrações da luz. Ele fazia você ficar infeliz por nunca ter pensado em ser um comediante. Era como um mendigo com um osso de galinha -quando terminava, não havia nada para ninguém.

Seu brilhantismo, contudo, gerou dezenas de grandes comediantes. Eu pessoalmente nunca liguei para "Seven Words You Can Never Say on Television" ou "FM & AM". Para mim, tudo o que ele fez tinha essa precisão e originalidade maravilhosas.

Fiquei obcecado com ele nos anos 60. Quando era criança, parecia que todo o mundo era engraçado por causa de George Carlin. Sua voz, mesmo misturada com imprecações, sempre soava como se estivesse tentando divertir uma criança. Era como o adulto mais divertido e malandro que você conhecesse lendo para você uma história antes de dormir.

Eu sei que George não acreditava no céu ou no inferno. Como a morte, eram apenas assuntos para o humor. E fico ainda mais triste de pensar que, quando eu chegar ao meu próprio fim, independentemente da espiral cataclísmica existencial que eu estiver passando, naquele momento ainda vou ter que pensar: "Carlin fez isso".

*Jerry Seinfeld é autor e comediante. Deborah Weinberg

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