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27/06/2008

Krugman: nada irá trazer de volta os dias de petróleo barato

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
O Congresso sempre teve uma queda por "especialistas" que dizem aos seus membros o que eles querem ouvir, sejam economistas do lado da oferta declarando que cortes de impostos aumentam a receita ou céticos em relação à mudança climática insistindo que o aquecimento global é um mito.

No momento, o tapete de boas-vindas está aberto para os analistas que alegam que especuladores fora de controle são responsáveis pela gasolina a US$ 4 o galão.

Em maio, Michael Masters, um administrador de fundo hedge, causou furor quando disse a um comitê do Senado que a especulação é a principal causa da alta dos preços do petróleo e outras commodities. Ele apresentou gráficos mostrando o crescimento do mercado futuro de petróleo, no qual os investidores compram e vendem promessas de entregar petróleo em uma data posterior, e alegou que "o aumento na demanda por especuladores de índices" -seu termo para investidores institucionais que compram contratos futuros de commodities- "é quase igual ao aumento na demanda na China".

Muitos economistas zombaram: Masters estava fazendo uma alegação bizarra de que apostar em um preço mais alto do petróleo -porque é isto o que significa comprar um contrato futuro- é equivalente a de fato queimar o produto.

Mas os membros do Congresso gostaram do que ouviram, e desde aquele depoimento grande parte do Capitólio adotou o discurso de culpar os especuladores.

Um tanto surpreendente, os republicanos se mostraram no mínimo tão dispostos quanto os democratas em condenar os especuladores malvados. Mas a verdade é que a fé dos conservadores no livre mercado meio que evapora quando se trata de petróleo. Por exemplo, a "National Review" tem publicado artigos culpando os especuladores pelos altos preços do petróleo há anos, desde que o preço ultrapassou os US$ 50 o barril.

E foi John McCain, e não Barack Obama, que disse recentemente isto: "Enquanto alguns poucos especuladores impulsivos contam seus lucros, a maioria dos americanos está na pior -usando uma fatia cada vez maior de seus salários obtidos com suor para comprar gasolina".

Por que os políticos estão tão ávidos em atribuir a culpa pelos preços do petróleo aos especuladores? Porque permite que acreditem que não precisamos nos adaptar a um mundo de gasolina cara.

De fato, nesta última segunda-feira, Masters assegurou a um subcomitê da Câmara que um retorno aos dias do petróleo barato está mais ou menos ao alcance. Se o Congresso aprovasse uma legislação restringindo a especulação, ele disse, os preços da gasolina cairiam quase 50% em questão de semanas.

Ok, vamos falar sobre a realidade.

A especulação está tendo um papel na alta dos preços do petróleo? Não está fora de questão. Os economistas estavam certos em zombar de Masters -a compra de contratos futuros não reduz diretamente a oferta de petróleo aos consumidores- mas sob certas circunstâncias, a especulação no mercado futuro de petróleo pode aumentar os preços indiretamente, encorajando os produtores e outros agentes a reter petróleo em vez de torná-lo disponível para uso.

O que está acontecendo agora é tema de uma disputa altamente técnica. (Os leitores interessados no assunto podem ir ao meu blog, krugman.blogs.nytimes.com, e seguir os links.) Basta dizer que alguns economistas, eu incluso, damos importância ao fato de que os sinais habituais de boom especulativo de preço estarem ausentes. Mas outros economistas argumentam que a ausência de evidência não é evidência sólida de ausência.

E quanto aqueles que argumentam que a especulação excessiva é a única forma de explicar a velocidade com que os preços do petróleo aumentaram? Bem, eu tenho algo para eles: minério de ferro.

O minério de ferro não é negociado em uma bolsa mundial; seu preço é estabelecido em acordos diretos entre os produtores e os consumidores. Então não há modo fácil de especular com os preços do minério de ferro. Mas o preço do minério de ferro, assim como o do petróleo, saltou ao longo do ano passado. Em particular, o preço que os produtores de aço chineses pagam para as minas australianas saltou 96%.

Isto sugere que o aumento da demanda por parte das economias emergentes, e não a especulação, é a verdadeira história por trás da alta dos preços das commodities e matérias-primas, incluindo o petróleo.

De qualquer forma, uma coisa é clara: a agitação em torno da especulação no mercado do petróleo está nos distraindo das questões reais.

Uma regulação mais rígida do mercado de futuros não é uma má idéia, mas não trará de volta os dias de petróleo barato. Nada irá. Os preços do petróleo flutuarão nos próximos anos -não seria uma surpresa uma pequena queda caso os consumidores passem a dirigir menos, comprem carros mais econômicos e assim por diante- mas a tendência a longo prazo certamente é de alta.

Grande parte do ajuste aos preços mais altos do petróleo virá por meio da iniciativa privada, mas o governo pode ajudar o setor privado de várias formas, colaborando com o desenvolvimento de tecnologias de energia alternativa e novos métodos de conservação, assim como ampliando a oferta de transporte público.

Mas nós nem mesmo teremos o início de uma política racional de energia se continuarmos ouvindo pessoas que nos garantem que basta desejarmos que os preços altos do petróleo irão embora. George El Khouri Andolfato

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