UOL Notícias Internacional
 

28/06/2008

Taleban coloca em risco importante centro paquistanês

The New York Times
Jane Perlez e Pir Zubair Shah

Em Peshawar, Paquistão
Nos últimos dois meses, militantes do Taleban repentinamente apertaram o laço nesta cidade de 3 milhões de habitantes, uma das maiores do Paquistão, estabelecendo bases nas cidades vizinhas e, à plena luz do dia, seqüestrando moradores em busca de pagamento de resgate.

Os militantes deixam sem serem incomodados a região tribal sem lei, a apenas 16 quilômetros de distância, em comboios de homens barbados, cabelos longos e fortemente armados. Eles apareceram em tribunais nas cidades próximas, ordenando os juízes a não se intrometerem. Na quinta-feira, eles invadiram um local de votação para mulheres nos arredores da cidade, e seqüestram regularmente pessoas nos mercados e lares da cidade. Há uma sensação de que os portões da cidade podem ruir a qualquer momento.

A ameaça a Peshawar é um sinal do avanço do Taleban no Paquistão e do aumento do risco que os militantes representam para toda a região, incluindo as linhas de abastecimento próximas das forças da Otan e dos Estados Unidos no Afeganistão.

Para os Estados Unidos, a principal rota de abastecimento para armas para as tropas da Otan parte do porto de Karachi, passa pelos arredores de Peshawar e pelo Passo Khyber, chegando até os campos de batalha no Afeganistão. Manter esta rota seria extremamente difícil caso a cidade sofra uma infiltração significativa de militantes que queiram derrotar o esforço de guerra da Otan do outro lado da fronteira.

Comandantes americanos e da Otan se queixam há meses de que a política do governo de negociação com os militantes levou a mais ataques no Afeganistão vindos do outro lado da fronteira, por talebans que têm como base as áreas tribais paquistanesas.

Mas a campanha descarada de intimidação em Peshawar, a apenas 90 minutos de estrada da capital, Islamabad, mostra que a ameaça do Taleban agora é séria em ambos os lados da fronteira, não apenas com atentados suicidas, mas também com a presença persistente dos militantes entre a população.

Nesta capital provincial calejada, o eixo da província da Fronteira Noroeste, o medo é palpável. Muitos dos ricos fugiram de suas mansões e partiram para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Famílias de classe média estão fazendo as malas para outros lugares no Paquistão e os pobres estão vulneráveis aos apelos dos militantes.

"Se esta tendência continuar, haverá uma paz completa, porque a cidade estará sob domínio do Taleban, ou uma guerra civil, devido aos combates", disse Samullah Shinwari, 31 anos e pai de quatro filhos, que está vendendo seu shopping center lucrativo e duas casas ancestrais da família e se mudando para Islamabad, a capital.

Com o afluxo dos militantes, o governo nacional convocou uma reunião especial em Islamabad na quarta-feira para tratar da situação da segurança que está se deteriorando rapidamente.

No dia anterior, um simpatizante do Taleban, Maulana Fazlur Rehman, chocou a Assembléia Nacional quando disse que toda a província da Fronteira Noroeste, incluindo Peshawar, estava à beira de ser engolfada pelo extremismo.

O controle pelo governo, ele alertou, é "quase inexistente" na província, uma parte integral do Paquistão e uma das quatro do país. O espectro da queda de Peshawar ameaça a estrutura do país.

O governo emitiu uma declaração após a reunião anunciando que estava entregando a segurança da província diretamente ao exército. Nas áreas tribais, a polícia e o Corpo de Fronteira paramilitar continuam sendo a primeira linha de defesa, e a política de acordos de paz com os militantes continuariam, disse a declaração. As forças armadas seriam uma força de último recurso.

Na sexta-feira, um maior contingente policial estava patrulhando as principais estradas de Peshawar e seus pontos de entrada da região tribal.

Havia relatos de que o Corpo de Fronteira planejava uma operação nos próximos dias em Khyber, adjacente à cidade, para remover os militantes islâmicos sob domínio de Mangal Bagh, um ex-motorista de ônibus que se tornou um dos líderes extremistas mais temidos, comandando milhares de homens.

Mas se há determinação suficiente para reverter os avanços surpreendentes dos militantes é motivo de debate.

"O governo está impotente, ele perdeu seu espírito", disse Arbab Hidayat Ullah, um ex-comandante de polícia daqui. "A polícia já perdeu tantos homens pelas mãos do Taleban que está apavorada."

Ullah disse que a polícia de Peshawar conta com um orçamento considerável, mas o dinheiro teve pouco impacto, e o vácuo permitiu que a força bruta do Taleban florescesse.

Apesar da proximidade com a capital, Peshawar sempre foi um mundo próprio, e a província, assim como as áreas tribais, foi em grande parte esquecida por sucessivos governos paquistaneses. Elas contam com poucos recursos do orçamento federal e recebem governança mínima.

Até agora, o povo de Peshawar basicamente preferia desta forma, cuidando de si mesmo ou enriquecendo com as rotas de contrabando resultantes de sua posição como entrada para as terras tribais semi-autônomas. A cidade também é há muito tempo um centro para intrigas.

Nos anos 80, os americanos usaram a cidade como base de retaguarda para os mujahedeen, os combatentes islâmicos, que eram abastecidos por Washington para combater os soviéticos no Afeganistão. Osama Bin Laden veio para cá em 1985 para ajudar neste esforço, e quase exatamente há 20 anos, em agosto de 1988, Bin Laden realizou reuniões em uma casa daqui que levaram ao nascimento da Al Qaeda, segundo um novo livro, "Os Bin Laden", de Steve Coll.

Hoje o Taleban, às vezes trabalhando com a Al Qaeda, tem controle quase total sobre as áreas tribais, e sua influência tem se infiltrado de forma constante no restante do Paquistão, ao "talebanizarem" as áreas próximas.

Os militantes do Taleban são um mescla de vários grupos, disseram autoridades locais e policiais. Um levantamento nas cidades próximas de Peshawar revela a mistura.

Ao sul, em Darra Adam Khel, forças do Tehrik-e-Taleban do Paquistão, uma divisão do Taleban, assumiu o controle virtual da cidade há algum tempo. O grupo é liderado por Baitullah Mehsud, que é acusado pelo governo paquistanês de ser o mentor do assassinato de Benazir Bhutto, em dezembro, e de controlar um grande número de homens-bomba em ambos os lados da fronteira.

Ao leste, o militante Mangal Bagh lidera um grupo chamado Lashkar-I-Islam. Ele controla a área de Khyber e conta com tantos homens e dinheiro que está enfrentando outro grupo islâmico no vale de Tirah, disseram as autoridades.

Ao norte, as forças do Tehrik-e-Taleban estabeleceram uma prisão na cidade de Michini há vários meses. E na cidade de Warsak, o Taleban construiu um campo de treinamento, eles disseram.

Em Shabqadar, a poucos quilômetros de distância, o Taleban apareceu na praça central e postou um aviso para que as pessoas entrem em contato com eles em vez dos tribunais para resolverem suas disputas, disse Ahsanuddin Khan, o vice-superintendente de polícia.

Na quinta-feira, em Tangi, perto de Charsadda, quatro picapes com homens barbados, de cabelo comprido, altamente armados e com cachecóis cobrindo seus rostos, invadiram uma escola onde urnas para mulheres foram montadas para uma eleição especial para a assembléia provincial. Os militantes ordenaram aos homens presentes na escola que partissem.

"Havia talebans demais", disse Laila Gul, uma funcionária do Partido do Povo Paquistanês. "Eles dispararam para o ar. Um deles disse que explodira a granada em seu cinto." Em resposta, duas caminhonetes surradas da polícia da Fronteira Noroeste apareceram, com alguns poucos policiais idosos, mas foi permitido que os invasores partissem.

Em Charsadda, a apenas 20 minutos de Peshawar, comboios ameaçadores de homens do Taleban apareceram nas últimas semanas, sem que a presença deles fosse contestada, na verdade quase aceitos, disse Munir Orekzei, um líder tribal e membro da Assembléia Nacional.

Na sexta-feira, Waliur Rehman, um comandante local do Taleban, supervisionou a execução de dois homens perante milhares de pessoas em Bajur, os acusando de terem ajudado os Estados Unidos a realizarem ataques com mísseis em Damadola, que mataram 14 pessoas no mês passado.

Homens armados com adagas investiram contra um dos homens, o decapitando e acenando a cabeça decapitada para a multidão que comemorava, segundo a agência de notícias "The Associated Press".

Em todos estes lugares, os militantes usam uma mistura de medo e cooptação social, técnicas semelhantes às usadas por seus pares no Afeganistão nos anos 90, quando o Taleban surgiu após a retirada soviética e o fim do financiamento americano aos mujahedeen.

Um dos primeiros alvos do Taleban geralmente são os criminosos com que freqüentemente nutrem um relacionamento simbiótico, disseram as autoridades daqui. Freqüentemente o Taleban ataca os criminosos e assim aumentam seu prestígio social entre a população local.

E então para caírem nas graças do Taleban, os criminosos deixam crescer suas barbas e cabelos e se juntam aos militantes, elas disseram. Desta forma, os criminosos recebem a proteção dos militantes pelo dinheiro que pagam ao Taleban, que é obtido em seus esquemas de extorsão.

No último fim de semana, 16 cristãos foram seqüestrados de uma casa de um bairro de classe alta de Peshawar. Eles foram libertados após negociações com a polícia, mas o senhorio, um muçulmano, foi mantido mais tempo sob custódia e apenas libertado sob a condição de que freqüentaria as reuniões religiosas islâmicas por três meses.

Enervante para a razoavelmente tolerante Peshawar foi o recente seqüestro de quatro prostitutas de uma casa em Hayatabad, a área mais cara da cidade, adjacente a área de Khyber.

O seqüestro de meninos também se tornou comum em Hayatabad: nas últimas semanas, uma dúzia de meninos foi levada pelos militantes que exigiam que se tornassem jihadistas em vez de ficarem ociosos em casa, disse Masood Afridi, um médico que vive lá.

Ninguém sabe exatamente quando o Taleban de fato avançaram em Peshawar.

Poucas pessoas esperam um ataque direto, mas sim uma crescente campanha de intimidação e medo, e o posicionamento de homens fortemente armados em pontos estratégicos cuidadosamente escolhidos. Algumas pessoas acreditam que assim que os combates de verão no Afeganistão acabarem e mais talebans paquistaneses voltarem para casa, eles voltarão sua atenção para Peshawar.

Desconhecer a estratégia dos militantes é uma coisa, mas a estratégia do governo é inexistente, se queixou Waris Khan Afridi, um líder tribal de região de Khyber e um ex-membro da Assembléia Nacional.

"Não existe estratégia para conter o avanço deles", ele disse. "Muito em breve, o Taleban irá para Peshawar e dirá: 'Mãos ao alto'." George El Khouri Andolfato

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