UOL Notícias Internacional
 

29/06/2008

Coleção de objetos mostra lado mais agressivo e irreverente da política

The New York Times
Por Edward Rothstein
Em Nova York (EUA)
Uma das grandes perguntas sem resposta deixadas pela exuberante mostra "Fazendo Campanha para a Presidência: Nova York e as Eleições Americanas", que foi inaugurada essa semana no Museu da Cidade de Nova York, diz respeito a um penico de cerâmica de 1888, que traz um elegante monograma com as iniciais de Grover Cleveland e Allen G. Thurman entrelaçadas. Se esse utensílio chegou a ser usado, teria sido para apoiar esses dois candidatos do Partido Democrata, ou o contrário?

Não há tanta ambigüidade no que diz respeito aos porcos de metal com traseiros ocos dentro dos quais foram inseridas fotos de William McKinley. Esses souvenirs da campanha de 1896 de William Jennings Bryan não faziam menção ao caixa 2 da presidência, mas à frase vulgar que dizia que votar no oponente de Bryan era tão ridículo e ofensivo quando o traseiro de um porco.

A vulgaridade era parte do jogo. Essa exibição da parafernália das campanhas presidenciais - que fica aberta até o dia da eleição e deveria servir como um contraponto poderoso para a temporada que está por vir - foi montada principalmente a partir da coleção de mais de um milhão de broches, roupas, pôsteres, meias, bandeiras, máscaras, brinquedos, placas e outros objetos reunidos por Jordan M. Wright (que morreu subitamente no mês passado, aos 50 anos, depois de preparar um livro sobre sua coleção e de ter inspirado a mostra). Outra exibição de itens de campanha: "Se Eleito: O Jogo da Polícia Americana", está programada para abrir em 4 de julho na Sociedade Histórica de Nova York.

E exposição atual culmina numa interessante celebração do vulgar em seu sentido clássico: o vulgar como aquilo que é popular, comum, o espírito democrático em seus momentos mais explícitos, insistentes e estimulantes, às vésperas de escolher seus líderes nacionais. Então, apesar de exibir um dos dois palanques que estavam no Saguão do Sindicato Cooper quando Abraham Lincoln fez seu famoso discurso em 1860, e apesar de o texto competente do curador Thomas Mellins descrever a intrincada história dos partidos políticos americanos, falando sobre candidatos há muito esquecidos e outros quase imortais, esses objetos não dizem respeito a temas de campanha, plataformas ou políticas. Eles dizem respeito à competição pública pela imagem e atenção, à celebração e ao insulto - e a Nova York.

"Na maior parte da história do país", disseram, o Estado de Nova York desempenhou "um papel importante e às vezes decisivo" na escolha presidencial. E apesar de os nova-iorquinos terem perdido a oportunidade de votar na primeira eleição presidencial - a Assembléia ainda não havia determinado como escolheria os representantes para o Colégio Eleitoral - o museu, em compensação, mostra uma cabine eleitoral antiga de 1960 (não muito diferente daquelas ainda em uso) com uma lista de candidatos de 1789. As listas de apuração serão divulgadas semanalmente na Internet (www.mcny.org). (John Rutledge não tem nenhuma chance contra George Washington.)

Qualquer que seja o caso, Nova York, como lembra a exposição, compensou sua entrada tardia nas eleições presidenciais. Entre 1812 a 1972, ela controlou mais votos do que qualquer outro Estado, produzindo oito presidentes e mais de 25 nomeações dos principais partidos para os dois maiores cargos nacionais. Durante quase 90 anos (até 1956) todas as eleições, exceto duas, tiveram um nova-iorquino concorrendo para a presidência ou vice-presidência.

Mas a queda do poder eleitoral de Nova York não enfraqueceu sua importância como um centro de mídia e publicidade, que é o principal foco de atenção aqui. Há objetos históricos raros - incluindo frágeis lanternas de papel miraculosamente preservadas de uma campanha de 1796 em apoio a John Adams - além de itens de coleção mais recentes: "Um Homem da Terra", diz um broche de campanha de 1976 mostrando Jimmy Carter segurando um pé de amendoim. Um pôster dizendo "Spock para Presidente" de 1972, promovia o dr. Benjamin Spock, que concorreu à presidência pelo Partido do Povo, enquanto uma bandeira de 1928 apoiava a candidatura de Will Rogers ("O único político que é engraçado intencionalmente"). "Se eleito", ele prometeu, "vou renunciar".

A exibição está repleta de amostras do caráter violento da contenda democrática. Praticamente não há nenhuma campanha das primeiras décadas a ser mostrada, quando o Colégio Eleitoral servia ao propósito que seus fundadores haviam vislumbrado - distanciar as eleições do clamor do povo. Mas em 1826, Nova York eliminou o impedimento de voto para os que não tinham propriedades; então os homens brancos de todas as classes puderam votar. Os cabos eleitorais ganharam popularidade, os comícios tornaram-se comuns - e isso, sabemos, foi apenas o começo.

Então, em sua maior parte, os itens da coleção não são apenas simples broches de lapela. São objetos da vida comum, com inscrições demonstrativas e sempre mais coloridos e elaborados ao longo das décadas. No início, com decoro, podia-se usar um chapéu de James Monroe (por volta de 1820) ou uma presilha de cabelo pequena de Andrew Jackson (por volta de 1832); mais tarde, podia-se acender um lampião de James Garfield de 1880 ou usar um guarda-sol de McKinley (1896) ou meias "I Like Ike" (1952). Também era possível cultivar um contato mais íntimo, usando um par de meias finas de Adlai Stevenson por volta de 1952, ou barbear-se com uma navalha de Theodore Roosevelt de 1904.

Parece que, por um breve momento a cada quatro anos, as unidades fundamentais da democracia não eram os eleitores individuais, mas as equipes rivais e beligerantes, o debate político transformado em esporte de massa. Na mostra, estão também vestidos de papel impressos de forma elaborada nos anos 60, que permitiam às lideres de torcida vestirem seu apoio a Robert F. Kennedy ou Nelson A. Rockefeller nos comícios não somente nas mangas da roupa. E agora que as convenções dos partidos são um pouco mais do que festas convencionais - ou um teatro desordenado - o cenário típico lembra um carnaval, um Halloween político, com fantasias costuradas com restos de material de campanha, apagando as identidades do dia-a-dia.

A cena da convenção partidária contemporânea é evocada no centro da exposição com panos de fundo enormes de multidões e bandeiras, arquibancadas em miniatura, e as luzes do espetéculo cercando figuras de papelão dos candidatos desse ano (apesar de que Hillary Clinton não deveria ter sido retirada?).

Alguns itens de campanha são tão estranhos - como o penico - que poder-se-ia imaginar serem uma sátira do oponente; afinal, o Carnaval tem uma tradição de inverter os papéis e status. Há também exemplos mais do que suficientes de "apelar para o negativo" aqui, que sugerem uma longa e até mesmo gloriosa tradição de sarcasmo devastador. Um objeto ainda inspira o choque por causa de sua intenção bruta: uma boneca de McKinley, que, quando virada de cabeça para baixo, transforma-se em uma criança negra - uma referência aos rumores de 1896 de que o candidato havia tido um filho negro.

Outros ataques são digeridos com mais facilidade e até mesmo apoiados. Não tiraram sarro de William Henry Harrison em 1840, dizendo que era um corrupto populista provinciano, pronto para se vender por um barril de cidra e uma cabana de madeira? Bem, o candidato bem-de-vida abraçou a acusação, transformando o barril e a cabana de madeira em seus símbolos, e até mesmo construindo um chalé na beira do Parque Washington Square em Manhattan. As propagandas de televisão mostradas aqui (que também podem ser vistas em www.livingroomcandidate.org) mostram quão maleáveis as imagens promocionais podem ser, e quão facilmente podem ser reformuladas para o ataque.

"Não houve uma eleição desde a de Washington em que não fomos para as urnas sem prender o nariz", disse o colecionador desses objetos. Mas não é essa a sensação criada pela mostra. A atitude geral é afetuosa, entusiasmada, de surpresa. A democracia é em parte um teatro, com seus próprios dramas e traumas, encenações e revelações. Não é que os problemas não importem; é que eles não são a única coisa que importa. Wright fez de sua coleção a base de um Museu da Democracia para o qual ele esperava encontrar um lar. Talvez não seja necessário. Porque agora mesmo, esse lar está a nossa volta. Eloise De Vylder

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