UOL Notícias Internacional
 

29/06/2008

George Lucas, livre para seguir seu coração, volta a "Guerra nas Estrelas"

The New York Times
Por Dave Itzkoff
Em San Francisco (EUA)
As futuras gerações não precisarão construir um museu para George Lucas, porque George Lucas já fez isso por si mesmo.

Em cada lado da Golden Gate Bridge, ele mesmo construiu dois templos onde os filmes "Guerra nas Estrelas" são feitos e cultuados: no Rancho Skywalker em Marin County e em seu novo complexo de escritórios, o Letterman Digital Arts Center, em Presidio, ele reuniu todos os tipos de relíquias em homenagem à saga de seis filmes, desde as mais impressionantes (réplicas em tamanho real dos vilões Darth Vader e Boba Fett) até o mais enaltecedor (uma fonte do mestre Yoda) e o mais depreciativo (um bloco de grafite contendo o menosprezado Jar Jar Binks).

Como templos religiosos, ambas as construções consagram e confinam o homem para quem foram construídas.

Usando a liberdade e a fortuna que conseguiu graças ao sucesso astronômico de "Guerra nas Estrelas", Lucas acumulou recursos criativos sem paralelo; seu próximo filme poderia ser qualquer coisa, desde um épico grandioso até uma narrativa pessoal mais íntima, que ele muitas vezes disse que gostaria de fazer.

Em vez disso, seus próximos dois empreendimentos serão projetos relacionados a "Guerra nas Estrelas", não menos ambiciosos que os filmes anteriores, mas talvez menos comerciais. Eles chegam num momento em que até mesmo os fãs mais fiéis de "Guerra nas Estrelas" se perguntam se o garimpo ininterrupto de Lucas nesse mundo de fantasia ainda tem algo a render.

Há algumas semanas, Lucas, com 64 anos e uma barba cheia e branca, visitou seus escritórios em Presidio com uma certa relutância, de passagem entre as premieres do filme "Indiana Jones" na Europa e no Japão.

"Adoro fazer filmes; mas não gosto muito de divulgá-los", disse ele, sentado na sala da diretoria da Luscafilms, parecida com uma biblioteca, repleta de livros sobre a história militar do mundo real e de romances como "Quo Vadis". "Mas já que estou no clima de vender, é por isso que você está aqui. Farei toda a divulgação por mais duas semanas. Depois disso estarei acabado."

Ele estava negociando uma animação computadorizada chamada "Guerra nas Estrelas: A Guerra dos Clones", que a Warner Brothers vai lançar em 15 de agosto e que introduzirá uma série de desenho animado feita para televisão com o mesmo título. Essa última deve começar a ser exibida pelo Cartoon Network em alguns meses.

Apesar de ter desejado o contrário, Lucas não concluiu o épico "Guerra nas Estrelas" com o filme "A Vingança dos Sith" de 2005, o terceiro da seqüência que angariou mais de US$ 1 bilhão apenas nos Estados Unidos. Desde 2002 ele vem contemplando uma série de animação que aconteceria entre os episódios 2 e 3 da triologia, que mostra as aventuras dos cavaleiros Jedi Obi-Wan Kenobi e Anakin Skywalker (que é condenado a ser tornar o vilão Darth Vader), e explora os hérois, vilões e planetas que foram mostrados superficialmente nos filmes anteriores.

Para Lucas, isso foi uma oportunidade de revisitar o território imaginário que lhe dá uma grande satisfação pessoal. "Guerra nas Estrelas", diz ele, "é o tanque de areia no qual eu adoro brincar".

"Não é uma questão de provar nada para ninguém", acrescentou. "Eu não preciso fazer isso."

Mas seu interesse permanente em "Guerra nas Estrelas" sugere uma lição que seus colegas cineastas já aprenderam: que às vezes é muito mais fácil fazer grandes filmes do que filmes pequenos.

Como escreveu seu amigo e colaborador de longa data Steven Spielberg em uma mensagem de e-mail: "todos nós gostaríamos de fazer filmes pessoais menores, que chegam os cinemas despercebidos, longe do radar. Infelizmente, para George e eu, e outros que atingiram e sustentam um grande sucesso - 'fora do radar' tornou-se uma área em que voar é proibido".

Lucas começou a investir nos projetos de "A Guerra dos Clones" há cerca de três anos, quando ele reuniu a capacidade tecnológica da divisão de pesquisa e desenvolvimento de sua companhia para começar a construir a Lucasfilm Animation, que hoje tem estúdios no Rancho Big Rock - nome de uma parte do Rancho Skywalker - e em Cingapura.

(A Lucasfilm se recusou a revelar seu orçamento, mas Lucas disse que construir uma companhia similar nos anos 80 - época em que ele vendeu uma empresa iniciante de animação computadorizada chamada Pixar para Steve Jobs - teria custado a ele entre US$ 60 a US$ 100 milhões.)

Em seguida ele contratou uma equipe de jovens artistas obcecados por "Guerra nas Estrelas", que reverenciam Lucas como se ele fosse o próprio mestre Yoda.

"Ele é o cara", diz Dave Filone, diretor do filme e da série "A Guerra dos Clones". "Chewbacca existe porque ele o criou, deu a ele um nome e o colocou no cockpit da nave."

Os dois homens trabalham próximos (Filone foi diretor da animação "Avatar: O Último Dobrador do Ar") para criar o estilo de "A Guerra dos Clones", inspirado nos animes japoneses, e para desenvolver os roteiros, às vezes resgatando algumas idéias que Lucas vem colecionando desde que o "Guerra nas Estrelas" original foi lançado em 1977.

Lucas tomou a decisão incomum de esperar até que o primeiro episódio da temporada de "Guerra dos Clones" (que tem 22 episódios) estivesse quase terminado para depois submetê-lo às redes de televisão em 2007.

Ninguém quis a série imediatamente. A Fox Broadcasting, companhia irmã da 20th Century Fox, que lançou os filmes "Guerra nas Estrelas", recusou. E o Cartoon Network, que havia levado ao ar uma série de animação tradicional em 2D chamada "Guerra nas Estrelas: A Guerra dos Clones" entre 2003 e 2005, não se mostrou muito entusiasmado com o projeto.

Essa recepção morna pode ter sido resultado da insatisfação de alguns telespectadores com a seqüência mais recente de "Guerra nas Estrelas", com seus diálogos pomposos e artificiais e política confusa. Ou pode ser uma indicação de que "A Guerra dos Clones" não é compatível com o horário nobre das emissoras. "Ele não se enquadrava em nenhum dos moldes que eles tinham", disse Lucas. "Não é um 'Bob Esponja', e ao mesmo tempo também não é 'Uma Família da Pesada'."

Lucas disse que a Warner Brothers ficou interessada somente depois que ele decidiu produzir um filme de animação de "A Guerra dos Clones" (encorajado pelos resultados da animação que viu), e o estúdio de cinema convenceu o Cartoon Network, seu parceiro corporativo, a rever a animação para televisão. (Executivos da Warner Brothers e do Cartoon Network, ambas divisões da Time Warner, deram prazos um pouco diferentes, mas não discutiram isso por causa de Lucas.)

Para a Time Warner, a colaboração em "Guerra dos Clones" é mais do que uma oportunidade única de compartilhar a máquina de dinheiro da franquia "Guerra nas Estrelas". "É a relação com a Lucasfilms que nos deixa mais entusiasmados", diz Dan Fellman, presidente de distribuição nacional da Warner Brothers Pictures. "Não apenas a animação para o Cartoon Network, mas a possibilidade de fazer filmes para a televisão mais para frente."

Com certeza, Lucas já está desenvolvendo uma série de televisão com atores para "Guerra nas Estrelas", e a Time Warner adoraria demonstrar que um de seus canais a cabo (como TBS, TNT ou HBO) poderia acolher bem o programa.

Mas permanece uma dúvida: só porque um novo "Guerra nas Estrelas" pode ser feito, será que isso significa que um novo "Guerra nas Estrelas" deve ser feito?

Alguns aficionados em "Guerra nas Estrelas" - mesmo aqueles que trabalharam com Lucas nos projetos da saga - são ambivalentes em relação a continuar pilhando essa propriedade de ficção-cientifica que já gerou inúmeros quadrinhos, videogames e livros, sem mencionar os seis filmes.

"Acho que é a coisa mais fácil de ser feita, porque ele não precisa criar nada totalmente novo; tudo já está estabelecido", diz Genndy Tartakovsky, animador que dirigiu os curtas de "A Guerra dos Clones" de Lucas para o Cartoon Network. Falando como fã, Tartakovsky diz: "Gosto da idéia, mas há muito mais coisas que ele poderia explorar".

Lucas diz que ele não tem razões urgentes ou prementes para retornar a seus personagens e mitologias mais populares, exceto o fato de que ele pode e gosta de fazer isso.

Como exemplo, ele citou seu trabalho com Spielberg em "Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal". "Quer dizer, por que temos de fazer outro 'Indiana Jones'?" Disse Lucas. "Não havia motivo para isso, a não ser, 'puxa, pode ser divertido!'"

Mas na medida em que "Guerra nas Estrelas" o mantém longe de cumprir sua promessa de voltar a fazer filmes menores e mais pessoais, Lucas lamenta essa distração. "Você se vê desviando do caminho com facilidade", disse, dando risada. "Pelo menos é o que acontece comigo."

E ele se mostrou profundamente pessimista em relação à recepção que poderá enfrentar quando algum dia lançar um filme que não se passa em uma galáxia muito, muito distante. "Talvez ele vá parar em um festival em algum lugar", diz ele. "Talvez termine em meia dúzia de cinemas em todo o país, por umas duas semanas."

Como acontece com freqüência, Lucas recebeu uma lição a partir da experiência de seu amigo e mentor Francis Ford Coppola, cujo filme mais recente, "Youth Without Youth", teve um lançamento pequeno e independente que ficou bem longe do sucesso de sua trilogia "O Poderoso Chefão". (Nos Estados Unidos, o filme foi exibido em apenas 18 cinemas e arrecadou menos de US$ 250 mil.)

"Você assistiu?", perguntou Lucas retoricamente. "Ah, não. Por acaso ficou sabendo que o filme foi lançado?"

Respondendo a algumas perguntas por e-mail, Coppola concordou que os filmes que ele faz hoje, e que Lucas diz querer fazer, têm poucas chances de chegar à categoria de blockbusters. "Fazemos filmes para nós mesmos", escreveu. "Se ninguém quiser vê-los, o que podemos fazer?" (Com um levantar de ombros entre parênteses, Coppola acrescentou: "a emoção consegue muito mais audiência no cinema do que a filosofia".)

Outros antigos colegas de Lucas argumentaram que os novos projetos de "Guerra nas Estrelas" forneceram muitos benefícios tecnológicos para toda a indústria cinematográfica, culminando na Industrial Light and Magic, companhia pioneira de efeitos especiais de Lucas, e no EditDroid, o software de edição de filmes que foi um precursor do sistema de edição Avid.

"As coisas que ele faz podem começar apenas a serviço de seus próprios filmes, mas obviamente se transformam em um benefício para toda a indústria", diz Sid Ganis, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que foi executivo da Lucasfilm durante os anos 80.

Ganis acrescentou que Lucas possui uma "intuição à qual se agarra com teimosia".

"Há algo nele, que quando dizem 'não, isso nunca vai funcionar', isso se torna mais uma motivação para continuar", acrescentou.

Como o próprio Lucas faz questão de lembrar, muitas vezes em sua carreira ele já provou que seus críticos estavam errados, desde os executivos de cinema que acharam que "American Graffiti" funcionaria melhor como um filme para a televisão, até colegas da indústria que o alertaram para não financiar "O Império Contra-Ataca" com o lucro de "Guerra nas Estrelas".

Quando trabalha dentro do território de "Guerra nas Estrelas", Lucas tem o total domínio e a liberdade de ignorar a opinião dos outros. No caso de "A Guerra dos Clones", ele está financiando a série do próprio bolso e cobrando uma taxa de licença da Time Warner para ela distribuir e levar o programa ao ar. (Uma pessoa que conhece os projetos de animação da companhia, e que não quis se identificar para evitar ofender Lucas, revelou que os primeiro episódios de "Guerra dos Clones" custaram provavelmente entre US$ 750 mil a US$ 1,5 milhão cada.)

"É muito mais fácil para mim fazer o programa que eu quiser, e depois dizer 'aqui está, você quer a licença dele ou não?'", disse Lucas. "Não há observações, não há comentários. Eu não quero saber qual é a sua opinião. Você pode colocar no ar ou não."

Mas a independência criativa de Lucas não consegue protegê-lo da realidade maior da indústria cinematográfica. Ele não está planejando, pelo menos por enquanto, competir com estúdios de animação estabelecidos como a DreamWorks, Disney e Pixar. O lançamento em meados de agosto do filme "A Guerra dos Clones" - uma data estranhamente tardia para um novo filme da série "Guerra nas Estrelas" - foi escolhido em parte para evitar a competição das ofertas recentes desses outros estúdios.

É bem provável que "A Guerra dos Clones" seja o filme da série "Guerra nas Estrelas" com a menor arrecadação de todas; Lucas disse que ficaria satisfeito se o filme fizesse US$ 100 milhões nos EUA. ("A Vingança dos Sith", em comparação, arrecadou US$ 380 milhões.)

Quando ele não está, digamos, opinando para um subcomitê do Congresso sobre tecnologia nas salas de aula, ou aparecendo em Cannes com sua companheira freqüente Mellody Hobson, que preside a firma de investimentos Ariel Capital Management, Lucas tem muitos outros projetos para ocupar seu tempo.

Ele já está trabalhando na segunda e terceira temporadas de "A Guerra dos Clones" e elaborando seu novo seriado de "Guerra nas Estrelas" com atores para a televisão. Depois, diz ele, buscará outros filmes e séries de televisão para seu estúdio de animação e continuará a desenvolver o "Red Tails", um filme demorado que ele está produzindo sobre os aviadores negros da 2ª Guerra, os Tuskegee.

E depois disso, quem sabe?

Lucas citou seu primeiro filme, "THX 1138", uma trabalho distópico de ficção científica lançado em 1971, e que na época ele achou que seria sua única oportunidade de dirigir um filme da maneira exata como o havia concebido. (A recepção da crítica e de público em relação ao filme por pouco não provaram que ele estava certo.)

Tudo o que sua riqueza pode comprar, disse Lucas, foi a oportunidade de fazer mais filmes da forma que ele quiser. "Tive mais oportunidades. Posso fazer mais meia dúzia de 'THX's'. Vou perder tudo o que investir neles, isso é garantido. Mas posso me divertir bastante fazendo isso." Eloise De Vylder

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host