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01/07/2008

Insurreição enfraquecida na Argélia ganha ajuda de Bin Laden

The New York Times
De Souad Mekhennet, Michael Moss, Eric Schmitt, Elaine Sciolino e Margot Williams*

Em Niciria,
Escondidos nas cavernas e matas que cercam esta cidade montanhesa no interior do país, os rebeldes argelinos foram praticamente derrotados há poucos anos.

Sua batalha nacionalista contra as forças armadas argelinas estava minguando. "Nós não tínhamos armas suficientes", lembrou um ex-militante, Mourad Khettab, 34 anos. "As pessoas não queriam se juntar a nós. E dinheiro, não tínhamos dinheiro suficiente."

Então o líder do grupo, um universitário graduado em matemática chamado Abdelmalek Droukdal, enviou uma mensagem secreta ao Iraque no último trimestre de 2004. Quem a recebeu foi Abu Musab al Zarqawi, o líder da Al Qaeda na Mesopotâmia, e os dois homens nas extremidades opostas do mundo árabe negociaram o que um observador descreveu como uma fusão corporativa.

Al Qaeda / The New York Times 
Fotos como a de Droukdal em treinamento ajudam a recrutar jovens para a insurreição

Hoje, os militantes argelinos -rebatizados de Al Qaeda no Maghreb Islâmico- se tornaram um dos mais potentes afiliados de Osama Bin Laden. Suas trocas de tiros com as forças do governo argelino se transformaram em ataques suicidas com caminhões-bomba a endereços representativos, como os escritórios da ONU em Argel. Eles seqüestraram e mataram turistas europeus. No mês passado, eles detonaram um par de bombas no lado externo de uma estação de trem no leste de Argel, a segunda visando atingir as equipes de emergência. Um engenheiro francês e seu motorista foram mortos pela primeira bomba; a segunda não explodiu.

O grupo argelino oferece à Al Qaeda centenas de combatentes experientes e uma conexão potencial com militantes que vivem na Europa. Nos últimos 20 meses, suspeitos de origem norte-africana foram presos na Espanha, França, Suíça e Itália, apesar de suas conexões com os argelinos não ser sempre clara.

A história do grupo, reunida por meio de dezenas de entrevistas com militantes e diplomatas, militares e autoridades de inteligência, mostra que a decisão dos argelinos de ingressar na Al Qaeda foi movida tanto por questões práticas quanto pelo abalo global do 11 de setembro de 2001.

Droukdal citou motivações religiosas para a fusão de seu grupo com a Al Qaeda.

Alguns militantes também disseram que a designação por Washington dos argelinos como uma organização terrorista, após o 11 de Setembro, teve o efeito de voltar o grupo contra os Estados Unidos.

Entrevistas com autoridades americanas, européias e árabes e um ex-tenente da Al Qaeda no Maghreb Islâmico indicam que mais fatores oportunistas estiveram em ação no crescimento do grupo.

Uma longa ofensiva do governo contra os rebeldes argelinos quase esmagou o grupo, disseram as autoridades. Eles precisavam do imprimátur da Al Qaeda para levantar dinheiro e afastar seu status de fora-da-lei dentro os círculos radicais islâmicos, devido aos civis que massacraram nos anos 90.

A Guerra no Iraque também está atraindo muitos dos melhores combatentes do grupo, segundo Khettab e um militante que treinou os argelinos no Iraque para Zarqawi. Abraçar a jihad global foi visto como uma forma de manter mais destes homens sob controle do grupo argelino e recrutar novos membros.

Então, em março de 2004, uma operação militar secreta americana levou à captura de um dos líderes do grupo. Poucos meses depois, Droukdal contatou Zarqawi para conseguir a libertação do homem. Zarqawi aproveitou a oportunidade para convencê-lo de que a Al Qaeda poderia reviver suas operações, disse um ex-líder do grupo argelino.

A ramificação da Al Qaeda no norte da África atualmente conta com pequenos campos de treinamento para militantes do Marrocos, Tunísia e até da Nigéria, segundo o Departamento de Estado e Droukdal.

A ameaça é sentida mais agudamente na Europa e em particular na França, que governou a Argélia por 132 anos, até 1962, e é uma grande parceira comercial do governo autoritário em Argel.

"Nós estamos sob dupla ameaça agora", disse Bernard Squarcini, chefe do serviço de inteligência doméstica e policial da França. "Um grupo que limitava suas atividades terroristas à Argélia agora faz parte do movimento da jihad global."

No mês passado, a França assinou acordos de desenvolvimento nuclear e militares com a Argélia. Washington também forneceu treinamento para as forças armadas argelinas e empresas americanas forneceram equipamentos. Mesmo assim, a inteligência e diplomatas ocidentais dizem que o governo argelino não quis torná-los parceiros plenos na investigação do grupo.

Na Europa, as autoridades estão observando o grupo cautelosamente, mas não estão convencidas de que o grupo possa atacar fora da África.

O secretário de Defesa, Robert M. Gates, disse na semana passada que a fusão da Al Qaeda com o grupo argelino e outros traz novos riscos.

"Estes grupos, até onde podemos dizer, têm uma boa dose de independência. Eles obtêm inspiração, às vezes orientação, provavelmente algum treinamento, provavelmente algum dinheiro, da liderança da Al Qaeda", ele disse, acrescentando que "não é um movimento tão centralizado como era, digamos, em 2001. Mas de certa forma, no meu entender, o fato de estar se disseminado como tem feito talvez o torne mais perigoso".

Adotando táticas da Al Qaeda
Na véspera de Natal do ano passado, cinco turistas franceses de Lyon estavam realizando um piquenique no meio da tarde perto da cidade de Aleg, na Mauritânia, a cerca de 2.700 quilômetros a sudoeste de Argel. De repente, eles foram emboscados por três homens em um Mercedes preto. Um dos atiradores disparou com um AK-47 contra os turistas, matando quatro e ferindo o quinto, disseram investigadores franceses.

O ataque refletia o que autoridades e militantes dizem ser os tentáculos do grupo no norte da África. Campos em Mali, por exemplo, estão sendo usados para iniciar operações na Argélia e Mauritânia, segundo a inteligência francesa.

Droukdal descreveu uma rede crescente de militantes apenas parcialmente controlada por seus tenentes distantes. O epicentro do grupo continua sendo as montanhas a leste de Argel.

Enquanto o grupo expande suas ambições além da Argélia, partes do país permanecem um campo de batalha desolador entre os militantes e um governo opressor, que segue seus cidadãos e limita a oposição política.

O governo argelino matou ou capturou cerca de 1.100 militantes no ano passado -quase o dobro do número em 2006, segundo o Departamento de Estado. Mas o grupo começou a usar vídeos de recrutamento sofisticados para repor suas fileiras com uma nova geração de jovens, que o Departamento de Estado diz ser "mais linha-dura". O grupo também se beneficiou com um programa nacional de anistia. Os cartazes de procurados nas delegacias de polícia e postos de controle incluem vários homens que foram perdoados e libertados, apenas para ingressarem na nova Al Qaeda.

Oficiais militares americanos estimam que o grupo agora conta com 300 a 400 combatentes nas montanhas a leste de Argel, com outros 200 simpatizantes espalhados pelo país. Liderado por Droukdal, 38 anos, um especialista em explosivos que ingressou na insurreição há 12 anos, o grupo adotou táticas "empregadas com sucesso por rebeldes e terroristas no Iraque e Afeganistão", segundo o Departamento de Estado.

Ao adotar estas táticas ao estilo Al Qaeda, o grupo realizou pelo menos oito atentados suicidas com veículos-bomba no ano passado, incluindo dois ataques no centro de Argel em 11 de abril e dezembro, datas que agora enchem os argelinos de medo. E enviou o primeiro homem-bomba do país, que visava o presidente da Argélia, Abdelaziz Bouteflika. O grupo também aumentou seu uso de bombas de estrada por controle remoto, e há confrontos cada vez mais mortíferos com milícias armadas pelo governo para combater os militantes.

"Nós não mais os prendemos", disse, Mohammad Mendri, 65 anos, o prefeito de uma aldeia que lidera uma milícia perto da cidade costeira de Jijel. "Nós simplesmente os matamos."

Sua lista de alvos ocidentais está crescendo. Em dezembro de 2006, militantes atacaram a bomba um ônibus que levava funcionários de uma afiliada da Halliburton, uma empresa americana de serviços para companhias de petróleo. Outros ataques mataram trabalhadores russos e chineses. O grupo também está mantendo como reféns dois turistas austríacos que seqüestrou na Tunísia, em fevereiro.

Seu ataque mais audacioso ocorreu em dezembro passado, quando homens-bomba atacaram escritórios da ONU e tribunais em Argel, matando 41 pessoas e ferindo 170 outras. O ataque foi elogiado pelo vice de Bin Laden, Ayman Al Zawahri, que o comparou ao atentado de 2003 ao quartel-general da ONU em Bagdá (na ação de 19 de agosto daquele ano, foram mortos, entre outros, o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, alto comissário da ONU e representante especial da organização para o Iraque), por Zarqawi.

Em seus comentários ao "Times", Droukdal confirmou que Zarqawi teve um "papel chave" na fusão, juntamente com outros intermediários. Droukdal explicou sua ira em relação aos Estados Unidos, dizendo: "Nós nos vimos na lista negra do governo americano, rotulados como terroristas. Então vemos os americanos construindo bases militares no sul de nosso país, conduzindo exercícios militares, saqueando nosso petróleo e planejando ficar com nosso gás".

Em janeiro de 2005, Zarqawi começou a incluir Droukdal em suas declarações públicas elogiando os líderes da Al Qaeda.

Em setembro de 2005, Droukdal declarou a França "nossa inimiga Nº1, a inimiga de nossa religião e de nossa comunidade". Um ano depois, a fusão foi formalmente anunciada por Zawahri, que disse: "Nossos irmãos serão um osso entalado na garganta dos cruzados americanos e franceses e seus aliados".

Expansão para a Europa
Em dezembro passado, as autoridades francesas prenderam oito homens nos subúrbios de Paris e apreenderam computadores, material eletrônico, óculos de visão noturna, equipamento de posicionamento global, celulares, máquinas para produção de armas e 20 mil euros.

Os investigadores disseram acreditar que os homens, ambos franco-argelinos e detentores de passaportes argelinos, estavam enviando equipamento logístico para apoiar um ataque à Argélia.

A polícia espanhola disse que fez uma descoberta semelhante em junho, quando prendeu oito argelinos sob suspeita de forneceram apoio financeiro e logístico ao grupo argelino.

Investigadores europeus estão examinando um grupo de tunisianos com supostos laços com a operação norte-africana da Al Qaeda, que são suspeitos de integrar uma célula de arrecadação de fundos e recrutamento que se estende de Paris até Milão.

Até agora, apesar de suas intenções declaradas de atacar a Europa e o restante do Ocidente, os investigadores disseram ver pouca evidência de que a divisão do norte da África da Al Qaeda esteja exportando combatentes e equipamento para um ataque na Europa.

"A ambição deles é atacar na Europa, mas não acho muito provável", disse Gilles de Kerchove, o chefe de contra-terrorismo para a União Européia. "Eu não diria que a Al Qaeda no Maghreb Islâmico está prestes a atacar na Europa."

O governo argelino, que não quis comentar para este artigo, minimizou a ameaça. Mas há nova evidência de que os comandantes da Al Qaeda vêem potencial em sua nova franquia no norte da África.

Agentes de inteligência interceptaram mais outra mensagem entre o quartel-general e sua filial na Argélia neste ano. Zawahri enviou uma mensagem particular a Droukdal, segundo um alto funcionário da inteligência alemã, apontando que as controversas caricaturas dinamarquesas do Profeta Maomé seriam republicadas. Ele pediu a Droukdal que ajudasse na vingança.

*Reportagem de Souad Mekhennet e Michael Moss, na Argélia, Marrocos e Alemanha; Eric Schmitt, em Washington; Elaine Sciolino, em Paris; e Margot Williams, em Nova York. Sophie Cois, em Paris, e Basil Katz, em Lyon, França, contribuíram com reportagem adicional George El Khouri Andolfato

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