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02/07/2008

Procuram-se trabalhadores qualificados para a economia em crescimento no Brasil

The New York Times
Andrew Downie*
Em São Paulo
Para quase qualquer país fora a China e a Índia, obter mais de 5% de crescimento ao ano é difícil. Fazê-lo sem mão-de-obra qualificada é ainda mais difícil.

Mas este é o desafio diante do Brasil, o B das economias Bric - Brasil, Rússia, Índia e China - a versão atual dos tigres econômicos.

Após anos de expansão e contração, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está projetando um período de crescimento sustentado, com o PIB (Produto Interno Bruto) crescendo 5% ao ano, de agora até 2010, e entre 3% e 4% ao ano na década seguinte.

Lalo de Almeida/The New York Times - ago/2007 
Funcionários de uma companhia de café trabalham na estocagem do produto em Varginha

Mas muitas empresas e economistas, incluindo alguns do próprio governo, dizem que a escassez de mão-de-obra altamente qualificada, particularmente engenheiros e técnicos profissionais, ameaçará estas metas, assim como a ascensão política e econômica do Brasil.

"A falta de disponibilidade de capacidade técnica pode ser um obstáculo ao crescimento, sem dúvida", disse José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, a companhia estatal de petróleo, em uma entrevista. "É um grande desafio para o país."

A escassez de engenheiros aqui está se espalhando para outros setores. A falta de engenheiros de construção ameaça projetos de infra-estrutura; áreas como bancos, fabricação de aviões, petroquímica e metalurgia estão todas competindo pelos mesmos graduados de destaque. Nos setores de gás e petróleo que passam por um boom, as empresas estão recorrendo a mão-de-obra estrangeira porque não há brasileiros qualificados o suficiente.

"Alguns de nossos grandes clientes no setor de petróleo e gás contam com 40 a 50 vagas de trabalho e não conseguem preenchê-las", disse Paulo Pontes, diretor da Michael Page International, uma firma de recrutamento especializado.

"Quando perguntamos para as empresas onde estão as carreiras de futuro, sete entre 10 delas estavam em engenharia. Isto mostra a realidade do que está acontecendo hoje."

Um estudo feito pela Confederação Nacional da Indústria, em setembro passado, apontou que mais da metade das 1.715 empresas industriais pesquisadas não conseguiam encontrar os trabalhadores qualificados que precisavam. Destas, 69% disseram que a falta de uma força de trabalho qualificada resultava em ineficiência; 36% disseram que levava a bens de menor qualidade; e 25% disseram que tornava mais difícil a aquisição ou assimilação de novas tecnologias.

Esta realidade está levando milhares de empresas brasileiras ao ramo da educação. Algumas ensinam alfabetização básica e aritmética a zeladores e trabalhadores manuais. Outras oferecem cursos mais avançados que ajudam funcionários de fábrica ou linha de produção a entenderem melhor matemática, ciências e composição. E grandes empresas estão aumentando a quantidade de treinamento no emprego que dão a engenheiros e profissionais.

"Nós estamos planejando investir US$ 11 bilhões neste ano e US$ 60 bilhões ao longo dos próximos cinco anos apenas em projetos de crescimento orgânico", disse Maria Gurgel, diretora de planejamento de recursos humanos da Vale, uma das maiores empresas de mineração do mundo. "As pessoas por trás destes projetos são geólogos e engenheiros cujas especialidades estão em portos, ferrovias e minas. Estas são as áreas onde temos escassez. Nós precisos dar a eles treinamento especializado. Seria difícil crescer" sem eles, ela disse.

Hoje, empresas como a Vale, Petrobras e a petroquímica Ultrapar gastam milhões de dólares em seus próprios programas de treinamento.

Um programa típico é como o da Embraer, uma das maiores fabricantes de aeronaves. A Embraer fabrica jatos executivos e comerciais para seis a 122 passageiros. A empresa dobrou de tamanho desde o início da década e atualmente conta com encomendas que ultrapassam US$ 20 bilhões. Ela espera entregar próximo de 200 aeronaves para clientes neste ano.

Isto se deve em parte à criação de seu programa de especialização em engenharia. Em 2001, diretores da empresa perceberam que com apenas três universidades brasileiras oferecendo cursos de engenharia aeronáutica, não haveria graduados suficientes disponíveis para ajudá-los a projetar, construir e vender aviões em um mercado em rápido crescimento.

Então a empresa criou um programa que seleciona os melhores graduados em engenharia do país e os coloca em um curso de especialização de 18 meses. Eles já têm uma base em matérias como eletrônica, mecânica ou design. Nas salas de aula da Embraer, com vista para o chão da fábrica repleto de fuselagens, eles aprendem qualificações que os ajudarão a se tornar engenheiros aeronáuticos.

Júlio Franco, vice-presidente executivo para desenvolvimento organizacional e de pessoal, disse que a empresa gasta US$ 45 mil treinando cada estudante. "Eu não tenho dúvida de que vale a pena", ele disse. "Isto nos dá uma enorme paz de espírito."

O governo brasileiro está menos sereno.

Uma alto funcionário do governo disse acreditar que a escassez está limitada a certos setores e que pode ser superada a curto prazo com a contratação de aposentados e estrangeiros. Mas o prognóstico a médio e longo prazo é mais problemático, disse Nelson Barbosa, secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda.

"As medidas para resolver o problema a curto prazo não funcionarão a médio prazo", disse Barbosa. "À medida que aumenta o crescimento, estas soluções se esgotarão e será crucial investir mais em educação. O desafio é aumentar o número de graduados, o que significa oferta de mais vagas e aumentar o percentual de pessoas que completam seus cursos."

O problema é que o sistema educacional do Brasil está em desarranjo. Nos testes da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico de desempenho acadêmico, realizados a cada três anos entre jovens de 15 anos de 57 países, os estudantes brasileiros ficaram na quarta pior colocação em ciências e na terceira pior em matemática.

O trabalhador médio brasileiro possui seis anos de escolaridade, em comparação a 10 anos na Coréia do Sul, 11 anos no Japão e 12 anos nos Estados Unidos e Europa, segundo o estudo da Confederação Nacional da Indústria.

Entre os poucos brasileiros que chegam à universidade, menos de um entre cinco opta por engenharia, ciências, matemática ou computação, segundo um recente estudo do Banco Mundial sobre os elos entre educação e crescimento econômico.

"No Brasil, a maioria das pessoas que vão para a universidade cursa programas de ciências sociais e isto acontece não porque as pessoas desejam estudar filosofia, antropologia, geografia ou história", disse o autor do estudo, Alberto Rodriguez, "mas porque as universidades particulares, onde está ocorrendo o crescimento, oferecem estes cursos porque são mais baratos do que oferecer engenharia".

Há demanda por aqueles que se formam. Grandes empresas têm dinheiro para contratá-los e treiná-los. Empresas de porte médio não têm tanta sorte.

"Nós tivemos que reduzir o tamanho de nossa empresa", disse Marcos Coelho, presidente do conselho administrativo da Esteio, uma firma de engenharia que realiza estudos topográficos. "Se tivéssemos mais pessoas, nós cresceríamos bem mais rápido."

*Alexei Barrionuevo contribuiu com reportagem. George El Khouri Andolfato

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