UOL Notícias Internacional
 

03/07/2008

Prótese inventada por amputado ajuda atleta sul-africano e outros

The New York Times
Em Mendocino, Califórnia
Quando Oscar Pistorius, o velocista da África do Sul que tem as duas pernas amputadas, for tentar obter tempo de qualificação para os Jogos Olímpicos, um homem determinado neste vilarejo litorâneo terá um interesse especial no resultado.

Van Phillips, 54 anos, um amputado que pode ser visto correndo pela redondezas daqui, a 240 quilômetros ao norte de San Francisco, inventou e usa as próteses Cheetah (guepardo), que conquistaram atenção e provocaram controvérsia mundial como as protéses usadas por Pistorius em seu esforço para competir contra atletas sem deficiência em Pequim.

"Seria a coisa mais empolgante que já aconteceu na minha vida, porque a forma C foi a primeira prótese na minha mente", disse Phillips, se referindo ao conceito introduzido em 1984.

Em janeiro, a IAAF (Federação Mundial de Atletismo) decidiu que as próteses de Pistorius lhe davam uma vantagem injusta e que ele não estava qualificado a participar em competições para atletas sem deficiência. Pistorius apelou, e o Tribual Arbitral do Esporte reverteu a decisão, dizendo que o exame do atleta pela Federação foi falho. Ele acha difícil conseguir o tempo de qualificação para Pequim; ele diz que os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, são uma meta mais realista.

"A Cheetah pode ser mais vantajosa que o pé humano", disse Phillips. "A fibra de carbono pode ser mais eficiente em energia." Mas ele disse acreditar que Pistorius deveria ser autorizado a competir.

Ele considera que muitos outros fatores estão envolvidos: regulagem, simetria, fixação da prótese ao membro do atleta, flexão limitada do joelho do amputado e como ele sai do bloco de largada. Estas diferenças são difíceis, se não impossíveis, de quantificar.

"Talvez não haja resposta", disse Phillips.

Em 1976, quando Phillips tinha 21 anos, sua perna esquerda foi cortada abaixo do joelho em um acidente de esqui aquático. No hospital, ele foi medido para uma prótese rosada de madeira e borracha e enviado para casa. Um ex-atleta, Phillips disse que ela parecia "uma sentença do inferno".

Phillips disse que ficou obcecado pela criação de uma prótesde de perna melhor. Quando era estudante do Centro de Próteses e Órteses da Escola de Medicina da Universidade do Noroeste, os professores o desencorajavam a mudar o status quo, ele disse. Ele aprendeu que a indústria de membros artificiais mudou pouco desde a Segunda Guerra Mundial e a Guerra na Coréia. A maioria era projetada dentro de uma embalagem cosmética - uma prótese lembrando um pé humano. Não havia energia para impulsionar a perna.

Usando conceitos do salto com vara, do trampolim de salto e a forma em C de uma espada chinesa que seu pai tinha, Phillips imaginou uma prótese que lhe permitiria saltar e pousar.

O resultado foi o Flex-Foot (pé flexível), que inclui vários desenhos de próteses para várias pessoas. Um dos projetos, a Cheetah, era voltada aos atletas de elite. Enquanto trabalhava no Centro de Design Biomédico da Universidade de Utah, Phillips trabalhava nos fins de semana para criar uma prótese cotidiana que lhe permitiria correr usando fibra de carbono, que é mais forte que o aço e mais leve que o alumínio.

Um dia depois de Phillips ter corrido por um corredor usando sua invenção, ele largou seu emprego, encontrou sócios e abriu uma empresa, transformando seu porão em laboratório. Ele fazia uma perna, a quebrava e aperfeiçoaria, produzindo 100 pernas em dois anos.

Ele disse que percebeu o erro cometido por outros projetistas de próteses: tentar imitar os ossos humanos. "Não funciona a menos que você tenha uma fonte de força", disse Phillips. Ele estudou ligamentos que armazenam energia muscular, observando os tendões de botos, cangurus e guepardos, notando como a perna posterior do guepardo pousava e comprimia, e a natureza elástica dela.

Em 1984, sua empresa, a Flex-Foot Inc., começou a vender seus projetos. Outra empresa vendia algo semelhante, mas não apresentavam a mesma resposta, ele disse. Os projetos iniciais de Phillips eram para uma prótese em forma de J com calcanhar. Mas no final dos anos 80, ele estava produzindo a Cheetah, uma prótese para corredores que era em forma de C e não tinha calcanhar.

Phillips disse já ter recebido milhares de cartas, freqüentemente de esposas o agradecendo por ter devolvido a vida aos seus maridos. Ele trabalhou com o três vezes medalhista paraolímpico Todd Schaffhauser e Dennis Oehler, o primeiro paratleta a correr os 100 metros em menos de 12 segundos. Amputados escalaram o Monte Everest e concluíram a maratona de Boston e o triatlo Ironman usando Cheetahs. Adolescentes a usam para jogar futebol no colégio e vôlei de praia.

Em 2000, Phillips vendeu sua empresa para a Ossur, uma empresa de próteses e órteses com sede na Islândia, que continua vendendo a Cheetah e outros projetos. Seu presidente-executivo, Jon Sigurdsson, chamou Phillips de "um visionário, cujas idéias e técnicas progressivas são centrais para nossa herança".

Paddy Rossbach, presidente da Coalizão de Amputados da América, disse: "A prótese de Van Phillips mudou todo o campo de próteses. Foi uma mudança extraordinária".

Sarah Reinertsen, atualmente com 33 anos, disse que quando trocou a perna oca de madeira pela prótese Flex-Foot aos 12 anos, a sensação era "como se estivesse caminhando nas nuvens". Em 2005, ela se tornou a primeira mulher amputada a completar o triatlo Ironman.

"Estas próteses permitem às pessoas liberar seu atleta interior", disse Alan Shanken, um amputado de 47 anos que completou recentemente o triatlo Fuga de Alcatraz. "Isso nivela um pouco o campo de jogo."

Em casa em Mendocino, um vilarejo ao estilo da Nova Inglaterra às margens do Pacífico, Phillips ainda projeta para si mesmo - próteses para esqui, surfe, natação e mergulho com scuba (remova a prótese e cole uma nadadeira no encaixe). E como sua filha de 8 anos é apaixonada por cavalos, ele planeja criar um desenho de prótese que possa ser usado para equitação.

Phillips também trabalha no projeto de uma prótese robusta, mas flexível para vítimas de minas terrestres. O maior obstáculo, ele disse, é a imaginação do amputado. Muitos não acreditam que podem caminhar ou correr novamente com facilidade - até conhecerem Phillips ou alguém usando um de seus projetos. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h49

    -0,43
    3,262
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h54

    1,59
    62.651,90
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host