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04/07/2008

Hostess africana de restaurante de Nova York foi vítima de assédio sexual

The New York Times

Steven Greenhouse
Em Nova York
Martha Nyakim Gatkuoth é uma refugiada da Etiópia. Ela tem 1,83 m de altura e um corpo esguio de modelo. A sua busca por emprego a levou a Nova York, e, a seguir, a um famoso restaurante na área do Central Park, onde encontrou um emprego que parecia ideal, com plano de saúde e uma atmosfera alegre e festiva.

O Tavern on the Green, estabelecimento de altos decibéis, é uma mistura de decoração sofisticada, opulência e ousadia. Entre os orgulhos do restaurante estão o seu 'rib au jus' assado lentamente e bem temperado, que custa US$ 44, as garrafas de champanhe Roederer Cristal de US$ 465 e os 45 candelabros feitos com 15 mil peças de cristal.

Mas Gatkuoth diz que o restaurante tornou-se um local bem diferente, um lugar de medo diário, no qual predominava o assédio sexual e racial. Ela conta que o diretor de operações do restaurante - e alguns outros funcionários que seguiam o exemplo do patrão - exigia que as funcionárias praticassem atos sexuais, referia-se de forma chula à genitália feminina, bolinava os seios e as nádegas das funcionárias e dizia às mulheres que elas conseguiriam funções e horários melhores se cedessem às suas exigências sexuais. Os funcionários negros e hispânicos reclamavam também do uso de termos racistas.

"Era algo que acontecia todos os dias", conta Gatkuoth, 25. "Eu me sentia amedrontada, aterrorizada, embaraçada e triste".

Gatkuoth diz que se sentia constantemente solitária, e que durante muito tempo achou que era a única funcionária vítima de abusos por parte do diretor de operações do restaurante. Mas ela não era a única, segundo a Comissão para Oportunidades Iguais de Emprego. Gatkuoth afirma que ficou tão aterrorizada que não só fez uma acusação criminal contra o diretor de operações - depois disso ele saiu do estabelecimento -, mas também tornou-se a principal queixosa no processo federal por discriminação, movido pela comissão, que resultou em um acordo segundo o qual o Tavern on the Green pagou US$ 2,2 milhões no mês passado.

O texto do processo contém termos chulos e palavrões para descrever as exigências e a linguagem discriminatória que Gatkuoth e várias outras funcionárias disseram ter enfrentado. Kam S. Wong, advogado da Comissão para Oportunidades Iguais de Emprego, diz que o diretor de operações era tão amedrontador e ríspido que muitas funcionárias tinham medo de reclamar. A princípio Gatkuoth fez a queixa criminal junto ao procurador de Manhattan - que arquivou o caso - e, depois disso, um advogado sugeriu a ela que entrasse em contato com a comissão. A organização entrevistou mais de 50 funcionários do restaurante.

Durante o processo, o Tavern on the Green não admitiu ter feito nada de errado, e está procurando fazer com que essa disputa embaraçosa na Justiça seja esquecida. Shelley Clark, porta-voz do restaurante, afirma: "O Tavern on the Green sempre teve e continuará tendo o compromisso de proporcionar aos seus funcionários um ambiente de trabalho seguro e sem discriminação ou retaliação".

Wong diz que os outros funcionários não quiseram ser entrevistados para esta matéria, ou por desejarem esquecer o caso, ou por temerem perder o emprego. Gatkuoth deixou de trabalhar no restaurante em maio.

Os advogados do gerente do restaurante, contra quem ela dirigiu a maioria das acusações de assédio sexual, afirma que ele foi vítima de falsas alegações, e que Gatkuoth inventou acusações sensacionalistas na esperança de obter uma grande recompensa com o processo movido pela comissão, com o objetivo de usar o dinheiro para ajudar a pagar os custos da sua educação e a dos seus irmãos.

Gatkuoth emigrou da África para os Estados Unidos aos 13 anos de idade. O seu pai era do sul do Sudão, uma área preponderantemente cristã, que sofria ataques do norte muçulmano. Ela passou grande parte da sua infância em campos de refugiados na Etiópia e no Quênia. Em 1996, ela mudou-se para Iowa como refugiada, com um tio e dois irmãos; eles perderam o contato com os pais.

"Vim para cá em busca de paz e educação", conta Gatkuoth, que tem memórias dolorosas das semanas passadas nos campos de refugiados, onde o único alimento era feijão.

Gatkuoth descreveu o seu sofrimento em uma longa entrevista no escritório da Comissão para Oportunidades Iguais de Emprego, em Manhattan. No processo a comissão acusou o Tavern on the Green de ter "praticado assédio sexual e racial grave e generalizado" contra mais de 50 funcionários desde 1999.

Após concluir o segundo grau em Des Moines, Gatkuoth mudou-se para Nova York, convencida de que lá uma imigrante africana como ela teria mais facilidade do que em Iowa de conseguir um emprego e de se adaptar. Ela obteve trabalhos ocasionais como modelo, e ofertas de vários restaurantes, incluindo o Tavern on the Green, no Central Park, na Rua 67 Oeste, para trabalhar como hostess.

Para os clientes, o Tavern on the Green é um sinônimo de alegria e elegância. Com os seus martinis lemondrop limoncello, os vasos cheios de rosas e amarílis, e as suas 24 janelas em cobre e ouro, ele faz com que o clima festivo chegue ao ápice. O champanhe Veuve Cliquot flui em abundância, as chamas das velas tremulam, os candelabros cintilam e a lua brilha através do telhado de vidro. O lugar é permeado de um romantismo extravagante.

Gatkuoth diz que gostava do trabalho, e que o problema começou devagar, com alguns comentários, que a seguir transformaram-se em uma enxurrada de comentários chulos e em apalpadelas constantes. "O gerente pediu de forma detalhista que eu lhe prestasse favores sexuais", conta ela. "E, quando recusei, me disseram que eu não conseguiria o horário que desejava. O resultado disso foi uma redução do meu salário".

Gatkuoth diz que quando as funcionárias passavam pela cozinha para chegar aos seus armários, ouviam freqüentemente comentários indecentes dos funcionários que lá trabalhavam.

"Às vezes eles diziam: 'Quando é que você vai engravidar?' É só para isso que as mulheres servem'", conta ela. "Às vezes o gerente fazia um comentário sobre a genitália de uma funcionária em meio a um grupo de homens, provocando gargalhadas deles todos. Na maioria das vezes eu estava sozinha. Ele simplesmente agarrava as minhas nádegas e dava-lhes um tapa. O restaurante é grande e há muitos locais onde coisas como estas ocorrem, e que não são freqüentados pela maior parte dos clientes.

"Ele fazia comentários como, 'Como é que você acha que fulana e sicrana conseguiram esse horário?'. Eu me perguntava se elas tinham sido ameaçadas da mesma forma que eu".

Gatkuoth conta que, apesar da sua angústia, sentia que não podia abandonar o emprego. Ela precisava de um trabalho estável para ajudá-la a enviar os dois irmãos que estão nos Estados Unidos para a Universidade, e um outro, de 15 anos, que ainda está na África, para uma escola na sua terra natal.

"Tenho tentado adotá-lo e trazê-lo para os Estados Unidos", diz Gatkuoth. "Mas lá é muito difícil adotar alguém. Parte do motivo pelo qual eu fiquei no restaurante é que me disseram que eu necessitava de um emprego estável e que fornecesse benefícios para que pudesse adotá-lo".

Gatkuoth recusou-se a fornecer o nome do ex-diretor de operações do restaurante. Mas o processo da Comissão para Oportunidades Iguais de Emprego faz referências contantes a ele - Leon Drogy -, relatando que ele fazia comentários sexuais freqüentes para diversas funcionárias e "apalpava com freqüência as funcionárias, como fez com Gatkuoth, que foi bolinada nos seios e nas nádegas".

Brian S. Kaplan, o advogado de Drogy, diz que após o acordo feito no mês passado, "qualquer alegação referente a Drogy é uma ficção, e, portanto, o meu cliente tem negado de forma repetida e categórica tais acusações".

Segundo Kaplan, o procurador geral do distrito de Manhattan, Robert M. Morgenthau, decidiu não acatar a acusação criminal feita por Gatkuoth contra Drogy depois que outros funcionários do Tavern prestaram depoimentos contraditórios. Uma porta-voz de Morgenthau disse que não faria comentários porque o caso já foi encerrado.

Uma hostess do Tavern, que trabalhou muitas vezes ao lado de Gatkuoth, e que insistiu que o seu nome não fosse divulgado porque não deseja irritar vários colegas envolvidos no processo federal, negou a versão de Gatkuoth, afirmando que nunca viu Drogy bolinar Gatkuoth ou outras funcionárias, e tampouco dirigir comentários inapropriados a elas.

"A gente está sempre interagindo com os clientes, de maneira que não sei como algo como isso pudesse ter acontecido", diz a hostess. "Na minha opinião, muita gente embarcou neste processo e prestou declarações à comissão na esperança de ganhar dinheiro".

Gatkuoth obterá uma quantia substancial - os termos do acordo a impedem de revelar o valor - e diz que usará o dinheiro para financiar a sua educação e a dos seus irmãos. Ela pretende estudar em uma universidade.

Durante mais de um ano, enquanto estava no emprego, ela não falou a ninguém a respeito do que estava ocorrendo no restaurante. Ela afirma que se sentia muito embaraçada.

"Como foi que deixei aquilo acontecer? Fiquei com mais raiva de mim mesma. A gente acha que é a única pessoa passando por tal problema, e isto piora a situação. Muitas mulheres sofrem em silêncio. Mas eu acho que se isso fizer com que o caso torne-se público, tudo terá valido a pena". UOL

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