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04/07/2008

Krugman: o terceiro mandato de Rove

The New York Times
Paul Krugman
Al Gore nunca alegou que inventou a Internet. Howard Stern não gritou. Hillary Clinton não disse que permanecia na disputa porque Barack Obama poderia ser assassinado. E Wesley Clark não contestou o serviço militar de John McCain.

Scott McClellan, o ex-secretário de imprensa da Casa Branca, intitulou seu livro de memórias que conta tudo de "What Happened" (o que aconteceu). Mas um verdadeiro relato da política americana moderna deveria ser intitulado "O Que Não Aconteceu". Repetidas vezes temos tempestades na mídia em torno de incidentes supostamente reveladores que nunca ocorreram de fato.

O mais recente falso escândalo se encaixa no padrão habitual de um comentário feito de forma desastrada, retirado do contexto e interpretado intencionalmente de forma errada.

O que o general Clark de fato disse foi que o serviço de McCain na guerra, apesar de heróico, não necessariamente constitui uma qualificação para a presidência. Foi um comentário duro, mas verdadeiro, e nem um pouco ultrajante - especialmente dado o fato de o próprio Clark ser um autêntico herói de guerra.

Mas o caso de Clark revelou algo importante - não sobre Clark, não sobre McCain. Agora nós sabemos o que um governo McCain representaria: um terceiro mandato para Karl Rove.

Era previsível que a campanha de McCain exploraria os comentários de Clark. A candidatura de McCain à Casa Branca sempre foi mais baseada na personalidade dele do que em política: ele não tem idéias com as quais os eleitores concordem, mas ele tem uma história de vida inspiradora da qual, diferente do mito do político independente, ele fala a respeito o tempo todo. A sugestão de que esta história de vida não é relevante para sua disputa pela presidência certamente provocaria uma reação violenta.

Mas a campanha de McCain foi além de condenar os comentários de Clark; ela não mediu esforços para distorcê-los. "Este tapa com as costas da mão contra John, como não sendo um guerreiro de valor apenas por ter sido abatido, é um dos insultos mais surpreendentes na minha história militar", disse o coronel aposentado Bud Day, que participou de uma teleconferência organizada pela campanha. Na verdade, Clark não disse nada disso.

A ironia, que não passou desapercebida pelos democratas, é que o próprio Day fez aquilo que acusou falsamente Clark de ter feito: ele apareceu nas campanhas de 2004 que contestavam o serviço militar de John Kerry em tempo de guerra.

A disposição da campanha de McCain em fazer uso dessas táticas, empregando porta-vozes tão manchados, nos diz que a campanha optou por ser negativa - especificamente, aplicar a estratégia usada tão eficientemente por Karl Rove em 2002 e 2004 (mas não tão eficientemente em 2006), a de retratar os democratas como não sendo patrióticos.

E para confirmar, Adam Nagourney do "The New York Times" relata sinais de "crescente influência de veteranos da loja de Rove na operação de McCain".

As táticas rovianas funcionarão neste ano?

Em 2002 e 2004, os republicanos foram muito bem sucedidos no uso da carta do patriotismo graças a uma combinação de mídia complacente e covardia dos democratas. A princípio, o caso de Clark sugere que nada mudou. As organizações de notícias divulgaram como fato a afirmação falsa de que Clark criticou o serviço militar de McCain e a campanha de Obama correu para "rejeitar" seus comentários.

"Dois dias após o estouro do caso Wesley Clark", escreveu o "Columbia Journalism Review" na manhã de terça-feira, "a imprensa, o Partido Republicano e a campanha de Obama todos parecem ter concordado que os recentes comentários de Clark sobre o histórico do serviço militar de John McCain foram insensatos, na melhor das hipóteses, ou desprezíveis, na pior".

Mas, de lá para cá, tanto a imprensa quanto a campanha de Obama parecem ter recuperado parte de seu equilíbrio. Começaram a aparecer artigos de opinião apontando que Clark não disse o que era acusado de ter dito. Obama também declarou que Clark não deve desculpas a McCain por seus comentários "inábeis" e negou que sua própria condenação, em um discurso feito na segunda-feira, a aqueles que "desvalorizam" o serviço militar era direcionado ao general.

No final, o caso Clark pode ter fortalecido a campanha de Obama. Na semana passada, após ter se curvado no assunto das interceptações de comunicações, Obama estava exibindo sinais perturbadores de estar reagindo da forma habitual dos democratas ao se encolher de medo em questões de segurança nacional. Esta pode ter sido a semana em que redescobriu as virtudes de se manter ereto.

Além disso, minha sensação, apesar de ser difícil de provar, é que a imprensa está se sentindo um pouco envergonhada pela forma como atacou Clark. Se for o caso, as organizações de notícias podem pensar duas vezes antes de comprar o próximo falso escândalo.

Se for o caso, a campanha acabou de dar uma grande guinada a favor de Obama. Afinal, se esta campanha não for dominada por falso ultraje em torno de falsos escândalos, ela terá que tratar de coisas que realmente aconteceram, como uma política econômica fracassada e uma guerra desastrosa, sendo que McCain promete manter ambas caso vença. George El Khouri Andolfato

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