UOL Notícias Internacional
 

06/07/2008

Vilarejo francês ressuscita o franco

The New York Times
Steven Erlanger
Em Collobrieres, França
A prefeita Christine Amrane diz que o principal motivo é o lucro, não apenas o prostesto ou a nostalgia. Esse vilarejo no coração de Provença decidiu aceitar o franco francês no dia-a-dia do comércio, juntamente com o euro, e as velhas notas coloridas, impressas com heróis e escritores franceses, fizeram as pessoas pensar.

Não com muito radicalismo, é claro. Não o suficiente para bagunçar as coisas no pitoresco vilarejo de 1.600 habitantes, com uma praça central perfeitamente pavimentada, onde se destacam a prefeitura e um café com mesas de homens mais velhos jogando cartas e bebendo pastis [famoso licor francês], e protegida do sol quente sulino por plátanos gigantes.

"Perdemos algo com o franco", diz Amrane, na prefeitura desde 2001. "Perdemos nossa identidade. Entramos na Europa muito rapidamente, talvez rápido demais."

Juntamente com as viagens sem necessidade de visto, a introdução do euro em 2002 foi aclamada como um grande passo para a construção de uma Europa unificada. Porém, impressas com imagens abstratas, pontes e prédios, sem retratos de pessoas vivas ou mortas, as notas de euro são tão desprovidas de face quanto parecem ser os eurocratas que comandam a nova Europa.

Apesar de os europeus valorizarem a facilidade de viajar encorajada pelo euro, eles também acreditam que a nova moeda causou inflação, ao permitir que os comerciantes arredondassem seus preços. Com a criação do Banco Central Europeu, os países não podem mais ajustar suas taxas de juros e de câmbio de acordo com suas circunstâncias econômicas.

A padeira Nathalie Lepeltier, 39, que teve a idéia de aceitar o franco no vilarejo para incentivar que as pessoas gastassem mais, diz: "O euro tornou a vida mais cara; os preços estão bem mais altos." Não importa se o euro foi um acerto ou não, as pessoas certamente acreditam que ele foi um erro. "As pessoas perderam a noção do valor do dinheiro com o euro", disse Lepeltier.

"Elas lembram dos preços em francos, e agora, ao voltar a usar a moeda, ficam chocadas com o preço das coisas", disse.

O protesto politico está menos presente na mente das pessoas aqui do que o festival das castanhas de outono. Paris está a 860 quilômetros de distância, e Bruxelas ainda mais longe. Mesmo assim a União Européia é uma fonte de confusão e aborrecimento. Os franceses não terão um referendum para decidir sobre o complicado Tratado de Lisboa, que busca reorganizar os trabalhos da União expandida, composta por 27 nações. A França, como a maioria dos países, acredita que é mais seguro ratificar o acordo no Parlamento.

Mas os irlandeses puderam votar num referendum, e votaram "não". Muitos aqui concordam com eles. A França é vista como o coração pulsante da visão européia, mas quando os franceses votaram numa versão anterior do tratado, em 2005, também votaram "não" - e as pesquisas dizem que os franceses rejeitariam novamente o tratado da forma como ele é hoje.

O voto irlandês levantou críticas e preocupações com o "déficit democrático" das instituições burocráticas européias, que têm pouca conexão com os eleitores. Mas os irlandeses não estão sozinhos em suas dúvidas sobre como fazer a Europa funcionar de uma forma efetiva e democrática.

O "não" irlandês também foi um golpe duro para o governo da França, que irá assumir a presidência da União Européia por seis meses nesta terça-feira. O presidente Nicolas Sarkozy está cheio de idéias sobre como impulsionar a Europa, e está usando isso como uma maneira de restaurar parte de sua credibilidade perdida aqui. Mas a rejeição irlandesa significa que a França vai gastar muito mais tempo tentando administrar a crise interna européia.

"Sou uma européia convicta, mas tenho alguns problemas em relação a isso", disse Amarane. "Não há um rumo claro - nenhuma identidade real como europeus. Precisamos de mais tempo."

Mas chega de Europa, disse ela. "Quero falar de Collobrieres, o vilarejo mais bonito do mundo."

A padeira Lepeltier comanda a associação local de comerciantes e artesãos, e teve a idéia de aceitar os francos depois de ouvir sobre a experiência de uma outra pequena cidade, Le Blanc. Lá, também, as pessoas resgataram suas notas de francos, encontradas em pilhas dentro de velhas gavetas ou "debaixo do colchão" - alguns franceses não confiam nos bancos - e passaram a gastá-las.

A princípio considerada uma piada, a troca de francos foi boa para o comércio. O vilarejo aceitou 120 mil francos, cerca de 18.300 euros (US$ 28.900) a uma taxa de câmbio fixada por lei.

Um homem veio aqui depois de encontrar 20 mil francos em uma velha jaqueta e mais 40 mil no fundo de uma gaveta. "Ele gastou tudo", disse Lepeltier. "Ele disse que preferia gastar o dinheiro do que trocá-lo" - provavelmente, imagina ela, para evitar o questionamento da fiscalização tributária.

O banco central francês, Banco da França, vai trocar as últimas notas de franco de todos os valores até 17 de fevereiro de 2012. Mas as moedas de francos e notas mais antigas já não têm mais nenhum valor, então as pessoas aceitam apenas os francos que podem trocar. "Nós somos comerciantes, não instituições de caridade", disse Lepeltier.

Na praça central - chamada Praça da Libertação, é claro - os fregueses do Bar de la Mairie, em frente à prefeitura, estavam mais confusos do que revoltados em relação à Europa.

Aurelien Autran, 29, não se importa com o franco. "Os mais velhos, talvez", disse, descrevendo como sua avó pensa sobre os francos velhos - de antes de 1960, quando a moeda foi revalorizada - e então os converte em francos novos e depois, lentamente, em euros. Ele gosta do euro porque pode ir para a Espanha e comprar cigarros baratos e álcool. Quanto aos irlandeses, ele diz: "Eles nem mesmo sabem o que está no tratado, então é claro que votaram não."

Se eles estavam certos? Autran responde diretamente: "Bem, eu também não sei o que está no tratado, então não posso responder."

De uma mesa próxima, um jovem diz: "O que é essa história de Lisboa?" Outro responde: "É aquela coisa de Sarkozy, a tal União do Mediterrâneo". Quando foi informado de que Lisboa era algo diferente, coçou a cabeça. "Maastricht?" perguntou, referindo-se a um tratado europeu anterior.

O dono do bar, Frederic de Kersauson, 42, parou de aceitar francos em maio, e está cansado do assunto. "As pessoas vinham aqui com 500 francos e pediam um café", diz ele. "Isso não valia a pena. O franco está morto." Eloise De Vylder

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