UOL Notícias Internacional
 

08/07/2008

Lula assume silenciosamente a liderança na América Latina

The New York Times
Simon Romero e Alexei Barrionuevo
Em Caracas
O presidente Hugo Chávez, da Venezuela, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, deram-se as mãos aqui, em uma reunião de cúpula no final do mês passado, enquanto funcionários da estatal de petróleo venezuelana erguiam os pulsos e gritavam lemas socialistas inspirados em Cuba diante das câmeras.

A imagem de solidariedade certa vez poderia ter alarmado Washington, que viu sua posição ser gradativamente erodida por uma mudança na região na última década na direção de líderes populistas de esquerda.

Contudo, o evento cuidadosamente orquestrado escondia uma tendência mais recente na América Latina, que apresenta novas oportunidades para os Estados Unidos: Lula vem se afastando do líder venezuelano e o suplantando silenciosamente enquanto promove o Brasil como potência regional.

Juan Barreto/AFP - 27.jun.2008 
Os presidentes Lula e Chávez conversam durante encontro na PDVSA, em Caracas

Hoje, os dois líderes, freqüentemente parceiros mas algumas vezes rivais, oferecem caminhos drasticamente diferentes para o desenvolvimento, e é a abordagem mais leve e pragmática do Brasil que parece estar em alta. Em meio ao declínio da influência norte-americana na região, o presidente brasileiro está discretamente superando Chávez em quase todas as vertentes na luta pela liderança da América do Sul.

Chávez vem nacionalizando empresas estrangeiras e tentando reunir um bloco de nações antiamericanas. Contudo, suas credenciais regionais sofreram na semana passada quando seu rival ideológico, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, organizou um resgate dramático de 15 reféns mantidos na floresta por rebeldes colombianos.

Lula diversificou a base industrial do Brasil, que já era forte, e criou uma coalizão política ampla com quase uma dúzia de vizinhos. Enormes descobertas de petróleo em águas brasileiras permitiram que ele neutralizasse os esforços da Venezuela de usar sua abundância em petróleo para ganhar influência. A economia da Venezuela vem tropeçando, e sua dependência do comércio com o Brasil intensificou-se.

A chave do sucesso brasileiro foi uma sorte na confluência de tendências econômicas globais, como o aumento da demanda por commodities como soja e álcool, mas também se deveu à liderança silenciosa de Lula, ex-operário de fábrica. Ele elevou o perfil do Brasil na região, em parte adotando uma estratégia de atrair Chávez, diferente da abordagem de confronto dos EUA.

Em vez de publicamente discordar de Chávez, mesmo quando este ameaça interesses brasileiros, Lula usa a fraternidade da esquerda e o elogia eloqüentemente. O presidente do Brasil chegou a descrever Chávez recentemente na revista alemã Der Spiegel (leia a entrevista na íntegra) como "o melhor presidente da Venezuela em um século".

"O lado pragmático de Lula, do líder sindicalista que sempre foi negociador, deu resultados", disse Kenneth Maxwell, historiador da Universidade de Harvard e colunista do jornal brasileiro "Folha de S.Paulo".

"Enquanto Chávez se agarra nas manchetes, o debate se o Brasil está se tornando uma potência regional é discreto", disse ele. "O Brasil de fato chegou nesse nível, mas de uma forma pouco bombástica."

Enquanto a alta do petróleo reforçou a teatralidade das políticas de Chávez, a influência mais forte da Venezuela continua limitada à meia dúzia dos países mais pobres da região -Bolívia, Cuba, Dominica e Nicarágua- membros da Alba, uma aliança comercial liderada por Chávez. O outro aliado de Chávez, o Equador, não é membro. Enquanto isso, a adoção inesperada por Lula de idéias de mercado iniciadas por seu predecessor, Fernando Henrique Cardoso, enfatizou como o pensamento político se tornou heterogêneo na América Latina, mesmo na esquerda.

Publicamente, o presidente brasileiro foi rápido em defender Chávez, mesmo que privadamente ele tenha procurado temperar as observações algumas vezes inflamatórias do presidente venezuelano.

Em uma entrevista em setembro, Lula disse que a retórica "funcionava com a realidade da política venezuelana" e que o antiamericanismo de Chávez tinha raiz na crença inabalável do líder venezuelano que o governo Bush estava por trás de uma tentativa de golpe de 2002. "Ele tem suas razões", disse Lula.

Enquanto Chávez virou ainda mais para a esquerda depois de sua breve deposição em 2002, Lula aproximou-se do centro quando chegou ao poder, surpreendendo muitos céticos. Seu toque mais leve azeitou o caminho para o Brasil em países tão variados quanto Cuba, o bastião socialista ao qual a Venezuela fornece petróleo subsidiado, e Colômbia, forte aliado militar americano cujas relações com a Venezuela têm sido glaciais nos últimos meses.

Em junho, o ministro de relações exteriores do Brasil, Celso Amorim, declarou durante uma visita a Havana que o Brasil queria abrir uma linha de crédito para Cuba importar produtos agrícolas brasileiros, na esperança de ultrapassar a Venezuela como principal parceiro de Cuba.

Na Colômbia, investidores brasileiros recentemente assumiram o controle da Avianca, maior empresa aérea do país. As autoridades colombianas se inspiraram na Petrobras, gigante de energia brasileira controlada pelo Estado, ao reformar sua empresa de petróleo estatal de forma a expô-la a mais forças de mercado.

A própria Venezuela tornou-se mais economicamente dependente do Brasil. No mês passado, empresas de agronegócios brasileiras fecharam contratos para exportar mais alimentos para a Venezuela, explorando as carências persistentes da economia venezuelana causadas por má administração e controles de preços.

As empresas brasileiras venceram contratos na Venezuela, como a expansão do metrô de Caracas e a construção de uma ponte sobre o rio Orinoco. Recentemente, o Brasil superou a Colômbia e se tornou o maior parceiro comercial da Venezuela após os EUA.

Em alguns países onde a Venezuela e o Brasil emergiram como rivais, como a Bolívia, Chávez ainda tem maior influência. O principal fornecedor de gás natural do Brasil chocou o país em 2006 nacionalizando a indústria de energia, com a ajuda da Venezuela. Em dezembro, Lula tentou melhorar a situação do Brasil na Bolívia, o país mais pobre da América do Sul, estendendo uma linha de crédito de US$ 600 milhões (em torno de R$ 1,2 bilhão) para projetos de infra-estrutura.

Enquanto isso, o superávit comercial do Brasil com os 11 outros países que formam a Associação Latino-Americana de Integração subiu de US$ 1,7 bilhão (em torno de R$ 3,4 bilhoes) em 2002 para US$ 16 bilhões (em torno de R$ 32 bilhões) em 2007, com essas nações comprando cerca de um quarto de tudo o que o Brasil vende no exterior.

As tentativas da Venezuela de criar uma aliança de países continuam limitadas ao seu bloco comercial Alba. O Brasil, contudo, reuniu os líderes de 12 nações sul-americanas em maio para criar o Unasur, uma união continental com base no modelo da União Européia que une os dois principais blocos comerciais da região, Mercosul e Comunidade Andina.

O Brasil elogiou pública e freqüentemente os esforços de Chávez de unificar a América do Sul, enquanto sutilmente fortalecia as instituições que servem para limitar as ambições da Venezuela, como um gasoduto cruzando o continente ou o Banco do Sul, um banco de desenvolvimento concebido para competir com o Banco Mundial.

O Banco do Sul continua sendo apenas uma idéia grandiosa. Em dezembro, nove dias após Chávez anunciar a formação do banco, ao qual o Brasil deveria se unir, Lula participou de um evento discreto no Uruguai para inaugurar uma filial do banco de desenvolvimento do Brasil, BNDES.

O Banco do Sul teria dificuldades de acompanhar o BNDES, que financiou US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 8,4 bilhões) de investimentos no mundo no ano passado, inclusive empréstimos para a expansão do metrô de Caracas.

As descobertas de energia do Brasil também desafiaram o poder da Venezuela. Chávez pareceu particularmente abalado em novembro com a descoberta da Petrobras de um enorme campo de petróleo na costa sudeste do Brasil, conhecido como campo Tupi, gentilmente censurando com Lula por se tornar um "barão do petróleo".

Hoje, o Brasil está em vias de se unir aos poderes globais de petróleo, e a descoberta de Tupi levou a Lula a anunciar planos de entrar para a Opep em alguns anos. A Venezuela há muito é o principal representante da América Latina na organização.

A Petrobras está estabelecendo recordes de produção, furando poços de petróleo na África e nos EUA assim como no Brasil. A empresa nacional venezuelana de petróleo, por outro lado, há muito é sufocada pela produção estagnada desde que Chávez extirpou os executivos da empresa os quais considerava desleais, há vários anos.

Enquanto alguns anúncios apontam para maior cooperação entre os dois países, como um acordo no mês passado para considerar o envio de gás natural líquido da Venezuela para o Brasil, eles também marcam a capacidade do Brasil de frustrar projetos politizados, como o do gasoduto de 8.000 km de Chávez.

"Ninguém sabe se os carregamentos de gás da Venezuela jamais chegarão ao Brasil, quando os brasileiros podem ter gás de fontes mais confiáveis como Trinidad. Delicadamente, o Brasil prega mais um prego no caixão do plano de gasoduto de Chávez", disse Petro Pitts, analista de petróleo que publica a revista LatinPetroleum.

No âmbito da segurança, Chávez foi superado na quarta-feira quando os militares colombianos executaram um resgate elaborado de 15 reféns, entre eles três americanos e Ingrid Betancourt, ex-candidata presidencial colombiana que era considerada maior peça de barganha do grupo rebelde conhecido como Farc.

O líder venezuelano negociou com sucesso com as Farc pela liberação de seis reféns desde janeiro. Mas seus laços com o grupo passaram a ser tão questionados que ele se viu pedindo às Farc que desistissem de sua luta armada.

Lula pareceu roubar os holofotes de Chávez em março quando o Brasil propôs a criação de um Conselho de Defesa da América do Sul que funcionaria como uma versão da Otan. Chávez elogiou o esforço, apesar de sua própria proposta em 1999 de criar tal aliança ter encontrado ouvidos surdos.

A secretária de Estado Condoleezza Rice expressou apoio à idéia durante recente passagem pelo Brasil, dizendo que confiava na liderança do Brasil para executar o projeto. O Brasil também lidera a principal missão da ONU na região, no Haiti, onde tem 1.200 soldados.

Apesar das realizações do Brasil na frente da Venezuela na América Latina, Lula evitou ser chamado de líder da região.

"Não estamos tentando encontrar um líder na América Latina", disse ele em entrevista em setembro. "Não precisamos de um líder. Não estou preocupado em ser o líder da nada. O que eu quero é governar bem meu país..." Deborah Weinberg

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