UOL Notícias Internacional
 

08/07/2008

Proibição de briga de galo ameaça tradição

The New York Times
Adam B. Ellick
Em Chaparral, Novo México
Depois de duas semanas de preparação, 150 oficiais, com a cobertura de um helicóptero, chegaram de surpresa nessa sonolenta cidade deserta. O foco deles não era a imigração ilegal ou o tráfico de drogas, mas um crime menos premente: a briga de galo.

Mas quando entraram no lugar em que aconteceria um Concurso de Briga de Galos de Natal em dezembro, esperando encontrar 300 espectadores, encontraram menos de uma dúzia de pessoas. Os apostadores haviam recebido a dica da operação, disse a polícia, e os oficiais multaram apenas algumas infrações antes de confiscarem 12 galos barulhentos.

No ano passado, o Novo México foi o 49º Estado norte-americano a tornar a briga de galos ilegal. (Louisiana será o último quando a proibição começar a valer por lá em agosto.) O Estado dedicou vastos recursos para terminar com o esporte, mas com apenas uma prisão por infração até agora, as brigas de galo continuam acontecendo na ilegalidade, dizem participantes e autoridades.

E as penalidades leves - a primeira infração não é considerada grave - não apenas falharam em parar com as brigas, como atraíram espectadores de quatro dos cinco Estados vizinhos ao Novo México, onde o esporte é um crime grave.

"Parece que eles estão sempre um passo à frente", diz Robyn Gojkovich, que em maio se tornou a primeira investigadora de controle de animais em tempo integral do Estado.

Ed Lowry, 51, um criador de galos barrigudo de Chaparral, concorda.

"Eles não estão fechando nada", disse Lowry, que não recebeu nenhuma acusação apesar de seu caminhão e computadores terem sido confiscados na blitz de dezembro.

Lowry, que ainda tem seus puro-sangue premiados, contou que constantemente recusa convites para lutas. Como diretor da Associação de Briga de Galo do Novo México, um grupo sem fins lucrativos para defesa das brigas de galo, ele decidiu lutar nos tribunais, mas os apelos que alegavam a soberania tribal, religiosa e cultural da tradição não conseguiram nenhuma isenção da lei.

"Para mim, uma briga de galo mostra como deve ser um americano", disse. "Defendendo-se até a morte."

Para evitar a polícia, dizem os oficiais, os organizadores deixaram de fazer as brigas em grandes arenas para realizá-las em locais clandestinos em um número cada vez maior de propriedades. Observadores ficam em guarda sobre as chapadas empoeiradas, e os alto-falantes, que no passado tocavam música mariachi tradicional, agora sintonizam a freqüência dos alertas da polícia.

Mas os policiais não desistem. Eles insistem que sua operação agressiva - com as blitze, um investigador em tempo integral e uma força-tarefa especial para a briga de galo - está passando a mensagem numa guerra de estresse.

Em todo o país, parece que os defensores dos direitos animais estão vencendo essa guerra, e eles têm sido ajudados por um caso famoso. A prisão do astro de futebol Michael Vick, em uma operação contra a briga de cães em 2007, levou os casos de crueldade animal para o centro das atenções.

A circulação da maior revista de briga de galos do país, The Gamecock ("A Briga de Galo"), caiu de 14 para 8 mil exemplares na última década à medida que os Estados tornaram mais duras as penalidades para os crimes contra animais. E a ampla comunidade de briga de galo, indústria que já valeu US$ 80 milhões no Estado, está sofrendo. No Novo México, os lucros das lojas de ração e hotéis nas vizinhanças dos locais onde aconteciam as brigas caíram em mais de 70%, dizem os proprietários.

Alguns policiais do Estado dizem que a pressão do lobby pelos direitos dos animais para o aumento da fiscalização foi tão intensa que os recursos estão sendo desviados de crimes mais sérios, como dirigir embriagado e abusar de anfetaminas.

Durante anos o governador do Estado, o democrata Bill Richardson, evitou o assunto. Em 2006, Jay Leno o ridicularizou no "Tonight Show", por ele ter dito que havia fortes argumentos de ambos os lados da questão. Na época, o esporte já era considerado crime em 33 Estados. Mas em março de 2007, Richardson assinou a medida que tornava o esporte ilegal. Ele foi amplamente criticado. Disseram que ele estava apenas seguindo a legislação porque estava concorrendo à presidência.

"Você não pode ir para o cenário nacional e deixar que as pessoas descubram que você não tem nenhum problema com um esporte sangrento", disse o delegado Darren White de Bernalillo County, onde os policiais enviaram à justiça duas acusações por crime de briga de galo durante uma blitz em 21 de junho.

O gabinete de Richardson disse que ele não estava disponível para discutir o assunto.

White, republicano que está concorrendo a uma vaga no Congresso, disse que a proibição transformou a opinião pública em relação ao tema da crueldade contra os animais. Os defensores dos direitos dos animais concordam.

"O Novo México está prestes a ter uma cultura moderna", disse Heather Ferguson, diretora legislativa da Proteção Animal do Novo México, um grupo de lobby pelos direitos dos animais. Ferguson disse que uma nova linha telefônica para denunciar a crueldade contra animais recebe cerca de 90 ligações a cada duas semanas.

À medida que o apoio do público aumenta, também aumentam os custos. A blitz de Chaparral custou mais de US$ 25 mil aos quatro municípios envolvidos, dizem as autoridades. E vários policiais de alto escalão, que pediram para não ser identificados porque não têm autorização para falar com a imprensa, disseram que apesar de serem contra as brigas de galo, sentem-se frustrados por causa da forma como os políticos têm dado uma ênfase desproporcional ao crime.

"Nós nem mesmo investigamos infrações de outros crimes", disse um oficial.

"Nós damos risada dessas investigações". Sobre uma das blitze contra a briga de galo, ele disse: "gastamos US$ 10 mil em uma simples infração. Eu preferia usar esse dinheiro para fazer uma operação para tirar 20 motoristas embriagados das estradas em três horas e salvar vidas humanas em vez de galinhas. Eu me sinto bem ao salvar as galinhas, mas alto lá, por uma infração leve?"

Outros defendem as blitze, citando os laços que existem entre as brigas de galo e outras atividades criminais, como o jogo ilegal.

"Você não vai desmantelar um círculo de briga de galo com apenas duas ou três pessoas", disse White. "Isso não é um jogo de cartas amigável. Há muito mais coisa envolvida."

Ferguson diz que ela gostaria de ver mais ações legais em relação ao assunto. Ela está buscando mais US$ 200 mil do Estado para financiar postos de trabalho como o de um promotor em tempo integral para casos de crueldade contra animais. Além disso, ela está trabalhando para tornar a briga de galo um crime grave no Novo México. No ano que vem, a Proteção Animal do Novo México irá fazer um lobby para conseguir cerca de US$ 1,1 milhão para construir três centros de custódia para animais que devem ser concluídos em 2010.

Durante 16 anos, Richard e Louisa Lopez operaram uma arena de briga de galo com 310 lugares em sua fazenda em Luis Lopez, Novo México. Os US$ 30 mil que eles ganhavam anualmente com a operação ajudavam a pagar as despesas da fazenda e a mandar seus filhos para a faculdade. No mês passado, eles usaram a arena para uma reunião familiar e para um chá de bebê.

"Não temos dinheiro para comprar diesel às vezes", disse Richard Lopez. "E esse lugar é o que fazia minha fazenda continuar em pé."

Em janeiro, os tribunais recusaram uma causa da Associação de Briga de Galo do Novo México que alegava devastação econômica. Gojkovich, a investigadora de controle de animais, não mostrou nenhuma simpatia com eles.

"Vá procurar um emprego no Wal-Mart", disse ela. Eloise De Vylder

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