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10/07/2008

Inteligência dos EUA diz que Paquistão está atraindo mais insurgentes estrangeiros

The New York Times
Eric Schmitt
Em Washington
Oficiais militares e de inteligência dos Estados Unidos dizem que nos últimos meses houve um aumento do número de combatentes estrangeiros que viajaram para as áreas tribais do Paquistão a fim de se juntarem aos militantes que nelas se encontram.

De acordo com os oficiais, esse fluxo pode ser o reflexo de uma mudança que está transformando o Paquistão, e não o Iraque, no destino preferido de alguns extremistas sunitas do Oriente Médio, do Norte da África e da Ásia Central que procuram pegar em armas para combater o Ocidente.

Essa movimentação, que pode envolver dezenas de militantes ou mais, revela um fortalecimento da posição das forças da Al Qaeda nas áreas tribais, cada vez mais vistas como uma base importante de apoio ao Taleban, cujas forças no Afeganistão tornaram-se mais agressivas na sua campanha contra as tropas lideradas pelos norte-americanos.

Segundo os oficiais dos Estados Unidos, muitos dos combatentes que se dirigem para as áreas tribais são uzbeques, indivíduos de países do norte da África e árabes dos Estados do Golfo Pérsico. Os oficiais de inteligência norte-americanos afirmam que alguns websites de jihadistas têm encorajado os militantes estrangeiros a seguirem para o Paquistão e o Afeganistão, que é considerado uma "luta que está sendo vencida" quando comparada à insurgência no Iraque, que sofreu grandes revezes nos últimos meses. O número de combatentes estrangeiros que entram no Iraque caiu de 110 por mês, há um ano, para os menos de 40 registrados atualmente, segundo informou na quarta-feira (9) um porta-voz das forças armadas em Bagdá.

"Atualmente a característica de refúgio das áreas tribais do Paquistão e da Província Fronteiriça do Noroeste preocupa mais do que antes", afirmou em uma entrevista por telefone o general David D. McKiernan, o novo comandante da Organização do Tratado do Atlântico Norte no Afeganistão. "As bordas porosas proporcionam aos grupos militantes insurgentes uma maior liberdade de movimentação pela fronteira, e mais condições para se reabastecerem, além de permitirem que as suas lideranças mantenham abrigos mais fortes e forneçam combatentes capazes de cruzar a fronteira".

O ataque suicida a bomba nos portões da Embaixada da Índia em Cabul na última segunda-feira reforça o temor cada vez maior das autoridades norte-americanas e afegãs de que os insurgentes do Taleban estejam atuando em conjunto com agentes operacionais de inteligência paquistaneses que podem ter utilizado o atentado para dar continuidade à longa luta entre Paquistão e Índia.

A Al Qaeda e outros grupos militantes têm usado redutos nas acidentadas montanhas do Paquistão como refúgios nos últimos anos. Mas especialmente desde que o novo governo paquistanês reduziu drasticamente as operações de segurança nas áreas tribais em março, e começou a negociar com os líderes tribais para que estes contenham os militantes, o número de combatentes estrangeiros ingressando nas áreas tribais passou "de um conta-gotas a uma correnteza", afirmou uma autoridade do Departamento de Defesa que acompanha de perto a situação no Paquistão, e que pediu que o seu nome não fosse divulgado devido à natureza sensível da informação.

Alguns dos combatentes estrangeiros embarcam em vôos comerciais para o Paquistão e chegam às áreas tribais de carro ou de ônibus, embora um número menor e indeterminado esteja chegando por terra, passando pelo Irã e, a seguir, pelo Baluquistão, afirmou a autoridade do Departamento de Defesa. "Atualmente há mais combatentes que não falam a língua pashtum do que havia neste mesmo período no ano passado", disse McKiernan.

Porém, alguns oficiais de inteligência dos Estados Unidos observam que esse aumento é ainda relativamente pequeno, talvez na casa de algumas dezenas - analistas militares e independentes calculam que entre 150 e 500 combatentes do núcleo da Al Qaeda estejam operando na área tribal - e que a Al Qaeda ainda está recrutando combatentes e homens-bomba tanto no Afeganistão quanto no Iraque.

Com o número de ataques no leste do Afeganistão 40% maior do que um ano atrás, autoridades graduadas do governo Bush têm expressado uma preocupação cada vez maior quanto ao poderio crescente dos militantes que utilizam refúgios no Paquistão.

"A capacidade do Taleban e de outros insurgentes de cruzar a fronteira sem sofrer pressão do lado paquistanês é sem dúvida nenhuma um motivo para preocupação", disse há duas semanas o secretário da Defesa, Robert M. Gates, em um dos seus comentários mais específicos até o momento sobre a situação. "Aquela é a área que precisa ser discutida com o governo do Paquistão".

Segundo as autoridades, o governo Bush está procurando trabalhar com os governos afegão e paquistanês a fim de encontrar uma combinação efetiva de instrumentos políticos, diplomáticos e militares para ajudar a conter a insurgência cada vez mais enraizada, mas Washington tem deparado-se com dificuldades para lidar com o novo governo de coalizão do Paquistão.

"Estamos tentando mostrar aos paquistaneses como a situação está feia", disse uma autoridade graduada do governo norte-americano, que só deu entrevista sob a condição de que o seu nome não fosse divulgado, devido a questões sensíveis de ordem diplomática. "Antes podíamos recorrer a Musharraf. Mas agora trata-se mais de um acordo para divisão de poder, e a situação ficou mais difícil. Não há nenhuma solução aparente à vista. Ao que parece, os próximos seis meses serão bem parecidos com os seis meses anteriores".

Quatro oficiais militares de alta patente afirmaram que a Al Qaeda está fortalecendo os seus vínculos operacionais cada vez mais estreitos nas áreas tribais com o Taleban e diversos outros grupos militantes - financiando, treinando recrutas e facilitando ataques realizados no Afeganistão, embora ela própria não necessariamente desfeche tais ataques.

No Paquistão, as forças do Tehrik-e-Taleban do Paquistão, um grupo vinculado ao Taleban, são mais proeminentes entre os militantes. O grupo é liderado por Baitullah Mehsud, que é acusado pelo governo paquistanês de ser o responsável pelo assassinato da ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, em dezembro passado, e de orquestrar diversos ataques suicidas à bomba dos dois lados da fronteira.

Mehsud, que emergiu de uma quase obscuridade para tornar-se um poderoso aliado da Al Qaeda, realizou ousadamente em maio uma entrevista coletiva à imprensa na sua base, no Waziristão do Sul, para anunciar que ampliaria a sua luta contra as forças armadas dos Estados Unidos do outro lado da fronteira, onde o grupo possui vínculos estreitos com as forças do Taleban.

As opções norte-americanas militares e paramilitares de ataques dentro das áreas tribais são limitadas. A CIA conta com aeronaves Predator, pilotadas por controle remoto e armadas, prontas para agir caso insurgentes importantes sejam localizados. Mas uma ordem do Pentágono autorizando uma campanha cada vez mais intensa por parte das forças de Operações Especiais nas áreas tribais continua sendo examinada por autoridades graduadas do governo.

Nos últimos dias o Pentágono deslocou o porta-aviões Abraham Lincoln do Golfo Pérsico para o Mar Arábico, reduzindo o tempo que os mais de quarenta aviões de ataque FA-18 Hornet e Super Hornet precisam voar para apoiar o combate no Afeganistão.

O novo assessor de Segurança Interna do presidente Bush, Kenneth L. Wainstein, viajou para a Arábia Saudita, Iêmen, Qatar e Kuait no mês passado, e pediu aos líderes desses países que ajudem a reprimir grupos e indivíduos que estejam financiando ou fornecendo combatentes à insurgência nas áreas tribais do Paquistão. "Temos percebido que financiamento e recrutas dos países do Golfo Pérsico seguem para as áreas tribais", disse Wainstein em uma entrevista.

Os sauditas, em particular, comprometeram-se a continuar aumentando os seus esforços no sentido de impedir o financiamento e a ajuda a terroristas dentro do país, disse um porta-voz de Wainstein em uma mensagem de e-mail.

"Admitimos que não temos feito muito progresso nos últimos seis meses", disse a autoridade do governo. "Não existe um cronograma real para novas iniciativas. O que podemos fazer é tomar algumas iniciativas para o novo governo, a fim de proporcionar a ele possíveis opções".

Segundo a autoridade, essas opções incluem a continuidade do apoio ao comandante do exército paquistanês, general Ashfaq Parvez Kayani, que no final do mês passado recebeu autorização do novo governo civil para usar a força nas áreas tribais e na Província da Fronteira do Noroeste quando houver disponibilidade de "inteligência verificável".

Várias autoridades norte-americanas manifestaram grande irritação com o fato de pequenos grupos da força militar Corporações da Fronteira, do exército paquistanês e da principal agência paquistanesa de inteligência militar - a Inteligência Inter-Serviços, conhecida como ISI - estarem fazendo vistas grossas para os ataques desfechados pelos militantes através da fronteira. Isso se estes grupos não estiverem apoiando diretamente os militantes.

"Neste momento, os paquistaneses não sabem como usar os líderes tribais, as forças paramilitares das Corporações de Fronteira e o exército paquistanês para lidar com a situação", afirma um oficial militar de alta patente que serviu na região. "Para complicar a situação, as atuais relações entre os Estados Unidos e o Paquistão não são boas". UOL

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