UOL Notícias Internacional
 

11/07/2008

Ingrid Betancourt fala de dor, medo e fé

The New York Times
Steven Erlanger
Em Paris
Ingrid Betancourt teme o colapso que ela sabe que está vindo.

Uma semana após o seu resgate súbito, após mais de seis anos passados em cativeiro nas profundezas da selva colombiana, Betancourt parece saudável, elegante, usando calça preta, blusa de linho branco e um relógio Cartier de ouro, que contrasta com o rosário tosco que ela própria confeccionou com botões e cordas que os guerrilheiros utilizavam para fazer as bandoleiras dos seus fuzis.

Mas ela falou sobre a sua fragilidade e a sua profunda fé católica durante uma entrevista na quinta-feira (10). Ingrid sabe com que rapidez o seu nível de adrenalina está diminuindo.

"É como o barulho de uma onda. Eu sei que ela está vindo, que está se aproximando", diz ela suavemente, em inglês. "Assim, sei que este é o momento para que eu simplesmente pare. Não quero mergulhar na depressão".

Betancourt, 46, uma colombiana que se tornou cidadã francesa por meio do seu primeiro casamento, está hospedada no Le Meurice, um dos melhores hotéis de Paris, tentando utilizar o seu momento de fama para agradecer àqueles que a ajudaram e fazer pressão pela libertação dos outros reféns - o número talvez chegue a 700 - que ainda são prisioneiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc.

Mas Betancourt também tem evitado descrever os detalhes do seu padecimento, dos anos de cativeiro na selva, durante os quais ela foi freqüentemente acorrentada, torturada e humilhada por homens furiosos e armados, cujo comportamento, segundo ela disse anteriormente, era "tão monstruoso que eu acho que até eles mesmos ficavam enojados".

Ela deseja testemunhar o que viu, "mas isso terá que acontecer no momento certo", diz Ingrid, com lágrimas nos olhos.

"Preciso de tempo", diz ela, apenas uma semana após a libertação. "Não é fácil falar sobre coisas que ainda estão doendo. Coisas que provavelmente doerão pelo resto da minha vida, não sei. A minha única decisão foi que desejo perdoar, e o perdão vem com o esquecimento. Assim, tenho que fazer duas coisas. Tenho que esquecer, para que a minha alma encontre a paz. Mas, ao mesmo tempo, preciso trazer de volta as memórias. Provavelmente elas serão filtradas pelo tempo, de forma que não virão acompanhadas de toda a dor que sinto agora".

Ingrid afirma também que provavelmente fará isso com ajuda profissional. Ela reconhece a crueldade que existe no animal humano. "Creio que temos esse animal dentro de nós, todos nós. Esta é a realidade a respeito de como somos feitos", afirma Ingrid Betancourt. "Podemos ser horríveis para com as outras pessoas". A princípio ela diz que é impossível julgar os outros, mas, depois, afirma: "Para mim foi como se tivesse entendido aquilo que antes não conseguia entender. Por exemplo, a atitude dos nazistas. Como aquilo pôde acontecer".

Ao ouvir o nome de Alan Johnston, o correspondente da BBC na Faixa de Gaza, que foi mantido como refém durante quase quatro meses no ano passado, Ingrid fala com mais animação: "Eu acompanhei o sofrimento dele todos os dias", conta ela. "A minha única fonte de informação era a BBC. E eu ouvi a entrevista que ele deu quando foi libertado. E, quando ouvia as suas palavras, eu pensava em como ele tinha passado pelo que eu estava passando. Ele sabia perfeitamente o que eu estava sentindo".

Três norte-americanos - Marc Gonçalves, Thomas Howes e Keith Stansell - eram agentes militares privados que trabalhavam para o Pentágono, contratados para uma operação anti-drogas, quando o avião em que viajavam caiu em 2003 e eles foram capturados. Eles foram soltos com Ingrid, juntamente com 11 reféns colombianos.

Ao ser questionada sobre a situação dos norte-americanos, Ingrid diz que para eles o cativeiro foi muito difícil. "Só um deles falava espanhol", conta ela. "Eles enfrentaram situações muito duras, e quando foram colocados no nosso grupo, descobriram uma maneira de compartilhar com os outros aquilo que achavam que só estava acontecendo com eles. O compartilhamento do desespero, da contagem dos dias".

Ela conta que sempre procurou manter a dignidade, encontrando consolo e sanidade em atividades diárias regulares, algumas privadas, como meditações e rezas, e outras coletivas. "Era uma forma de achar estabilidade em um mundo instável". E ela afirma que descobriu alguma nobreza em meio aos reféns e à degradação.

"Esta é a mágica que existe em todas as coisas", diz Ingrid. "Você pode se deparar com a face escura do homem, mas pode também se sintonizar com a luz, e tornar-se uma luz para os outros. Acredito que ser uma pessoa espiritual significa isso".

Ao ser perguntada sobre o seu rosário, ela diz, com humor, que o objeto é "um erro". Ela conta que lembrou-se do seu pai recitando o rosário, mas que não conseguia recordar-se de como exatamente ele funcionava, de quantas vezes deveria rezar para a Virgem Maria. "Assim, pensei comigo que, caso não fossem dez vezes, talvez fossem quinze", diz Ingrid, enquanto manuseia o rosário de 15 botões, retirado de uma jaqueta que os guerrilheiros lhe forneceram.

Ela diz que considera Deus algo pessoal. "Sei que falo com ele, e que ele me responde. As pessoas negam as coisas milagrosas, e preferem falar sobre coincidências. Mas eu acho que os milagres ocorrem a toda hora para todos".

Cansada, Betancourt ainda tem outras entrevistas para dar. Mas ela diz que o seu período de publicidade está terminando, ao referir-se aos seus filhos, Lorenzo e Melanie, que na quinta-feira estavam com a mãe.

"Sei que este é o momento de recuar, de estar com a minha família, de encontrar um espaço para a minha vida", diz ela, com a voz fraca. "Sabe como é. Eu estou aterrissando como um pára-quedas na vida dos outros. Eles têm as suas próprias vidas, as suas atividades diárias. E eu não tenho nada. Seis dias atrás eu estava acorrentada a uma árvore. E agora estou livre. Estou tentando entender como vou viver daqui por diante". UOL

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