UOL Notícias Internacional
 

12/07/2008

Krugman: Ted Kennedy retorna ao Senado de forma triunfal nos EUA

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Foi o pior dos dias, foi o melhor dos dias. Na quarta-feira (9), os senadores democratas capitularam ao governo Bush na interceptação de comunicações - com Barack Obama se juntando à coalizão dos covardes.

Posteriormente naquele dia, entretanto, os mesmos senadores democratas conquistaram uma grande vitória no Medicare (o seguro médico federal americano).

Os noticiários destacaram a qualidade cinematográfica do evento: Ted Kennedy, que está enfrentando um tumor no cérebro, fez uma aparição dramática no plenário do Senado, dando o voto decisivo em meio a aplausos de seus colegas. (Apenas um senador estava ausente: John McCain.)

Mas a votação foi maior que a teatralidade. Foi a primeira grande vitória na área de saúde que os democratas conseguiram em muito tempo. E foi enormemente encorajadora para os defensores do atendimento universal de saúde.

De forma ostensiva, a votação de quarta-feira tratava da eliminação das reduções no pagamento dos honorários aos médicos pelo Medicare. Mas na verdade se tratava de uma luta contra o avanço da privatização. Os democratas finalmente assumiram uma posição - e, graças a Kennedy, parecem ter prevalecido.

A história realmente começa em 2003, quando o governo Bush conseguiu passar a força a Lei de Modernização do Medicare pelo Congresso, literalmente na calada da noite. Aquele projeto de lei estabelecia grandes subsídios de fato para os planos Medicare Advantage - planos nos quais recursos do Medicare eram canalizados aos planos de saúde privados, em vez de pagarem diretamente pelo atendimento.

Desde então, o cadastramento nestes planos tem crescido rapidamente. Isto teve um efeito destrutivo sobre as finanças do Medicare. O tipo de plano Medicare Advantage que mais cresce, o pagamento para serviço privado, custa aos contribuintes 17% mais por beneficiário do que o Medicare sem intermediário. Ele também ameaça minar a universalidade do Medicare, o transformando em um sistema no qual os planos de saúde escolhem a dedo os americanos mais velhos, mais ricos e mais saudáveis, deixando os mais doentes e mais pobres de lado.

O que isto tem a ver com as reduções nos honorários dos médicos? Bem, a legislação aprovada há uma década torna estas reduções automáticas sempre que o crescimento nas despesas do Medicare ultrapassam uma meta irrealisticamente baixa. Neste ano, as reduções automáticas reduziriam os honorários aos médicos em mais de 10%, um corte tão grande que muitos médicos provavelmente deixariam de atender pacientes do Medicare.

Em anos anteriores, os pagamentos aos médicos eram mantidos por meio de um artifício bipartidário: políticos de ambos os partidos se reuniam para driblar as regras. Na prática, o Congresso manteve o Medicare funcionando por meio da expansão do déficit orçamentário federal.

Neste ano, a liderança democrata decidiu casar o "remendo para os médicos" à luta contra a privatização e apresentou um projeto de lei mantendo os honorários dos médicos, ao mesmo tempo em que refreava aqueles caros planos de pagamento para serviço privado. No mês passado, o Senado pegou este projeto de lei - mas os democratas fracassaram por um voto em superar a obstrução republicana. E parecia que acabaria assim: logo após aquela votação, os senadores Max Baucus e Charles Grassley tinham outro remendo bipartidário pronto para ser votado.

Mas então os líderes democratas decidiram agir de forma temerária. Eles permitiram que as reduções nos honorários dos médicos permanecessem até o feriado de 4 de Julho, desafiando os republicanos a colocarem em risco o atendimento médico básico de milhões de americanos em vez de abrir mão dos subsídios aos planos de saúde. Durante o período de recesso, houve uma guerra intensa de lobby entre os planos de saúde e os médicos.

E quando o Senado retomou as atividades, o resultado foi que os médicos - e os democratas - tinham vencido. Kennedy estava lá para dar o voto extra necessário para superar a obstrução, vários republicanos mudaram de lado e o projeto foi aprovado com uma maioria à prova de veto.

Se os democratas puderem conquistar vitórias como esta a partir de agora, eles poderão colocar um fim definitivo à privatização do Medicare no próximo ano, quando virtualmente terão uma maioria ainda maior no Congresso e provavelmente ocuparão a Casa Branca.

Mais do que isso, defensores do atendimento universal de saúde, como o Health Care for America Now, o novo grupo comandado por Elizabeth Edwards, devem ter se sentido altamente encorajados pelos eventos desta semana.

Eis como as coisas se desenrolarão, se tudo correr bem: no início do próximo ano, o presidente Obama enviará seu plano de atendimento de saúde ao Congresso. O plano enfrentará uma oposição feroz do setor de planos de saúde - mas a votação do Medicare sugere que desta vez, diferente de 1993, os democratas se manterão unidos.

A menos que os democratas vençam de uma forma maior que a esperada, eles não terão os 60 votos necessários no Senado para derrubar uma obstrução. O que a luta do Medicare mostra é que os democratas ainda assim podem prevalecer, ao levarem seu caso a público, desafiando seus oponentes a ficarem no caminho do atendimento de saúde - de forma que no final conseguirão fazer com que alguns republicanos mudem de lado e com isso a aprovação da legislação.

Muita coisa pode dar errado nesta visão. Mas as chances de obtenção de um atendimento universal de saúde, em breve, parecem muito melhores do que há apenas duas semanas. George El Khouri Andolfato

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,22
    3,142
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    0,67
    70.477,63
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host