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13/07/2008

Passado doloroso é relembrado por sobrevivente das Olimpíadas de 72

The New York Times
Neil Amdur
Mesmo com o convite das Olimpíadas de Pequim que começam no mês que vem, com uma cidade anfitriã exótica e a promessa de performances incomparáveis, o fantasma de Munique nunca desaparece por completo.

As ameaças de ataques terroristas, que se concretizaram pela primeira vez no massacre de 11 atletas israelenses em 1972, hoje pairam de uma forma não verbalizada nos inúmeros preparativos de segurança em Pequim. A morte no mês passado do comentarista esportivo Jim McKay, que personificou a voz e a consciência americanas durante a tragédia de Munique, acrescentou mais uma camada ao clima de tristeza. A publicação, em agosto passado, da tradução do livro "King of the Road" ["Rei da Estrada"] (editora Gefen), autobiografia do atleta israelense de marcha atlética Shaul Ladany, irá certamente ligar os pontos entre o passado e o presente.

Ladany, 72, é por excelência um sobrevivente. Não somente de Munique, onde conseguiu escapar dos terroristas durante o ataque à vila Olímpica. Ladany também passou meses em um campo de concentração nazista (Bergen-Belsen), teve surtos recorrentes de câncer de pele e linfoma, e passou por batalhas legais e administrativas que acabariam com qualquer mortal. Em 4 de julho, o vôo charter que ele tomou para Berlim perdeu um de seus dois motores por 90 minutos no ar, voltou e fez um pouso de emergência com sucesso em Tel Aviv.

Mas por outro lado, Ladany sempre esteve na frente. Ele fala nove línguas e é professor de engenharia industrial com oito patentes, 110 textos científicos, 13 livros e "mais alguns guardados na manga."

Quantos atletas, para se pouparem do treino sob o sol escaldante do deserto, fariam uma pista de corrida em sua própria casa, enrolando os tapetes e andando em círculos, mudando de direção a cada 15 minutos durante horas a fio - com a mulher, uma filha e dois cachorros sob o mesmo teto?

"Quando eles me vêem andando, ficam olhando para mim e talvez imaginando que sou louco", disse Ladany recentemente, durante uma entrevista por telefone em Israel. "Então eu tive que treiná-los para que eles não deitassem no meu caminho."

Ladany disse que diminuiu o ritmo desde que atingiu o recorde de longa distância e venceu um campeonato mundial de 100 quilômetros. Mas ele foi determinado o suficiente para terminar a caminhada de quatro dias e 300 quilômetros de Paris a Bruxelas em maio; participou recentemente de outra de sete dias e 300 quilômetros de Schleswig, na Alemanha, até Viborg, na Dinamarca; e vai nadar 3,5 quilômetros no Mar de Galiléia pela 48ª vez nesse outono, no maior evento do esporte amador em Israel. Há dois anos, durante um período sabático na universidade, ele tornou-se o primeiro homem de 70 anos de idade a andar 100 milhas (160 quilômetros) em 24 horas ou menos (terminando o percurso em Ashtabula, Ohio, em 21 horas, 45 minutos e 34 segundos).

"Ele é impressionante", diz Ron Laird, quatro vezes campeão olímpico de marcha atlética, que ajudou a montar a pista para Ladany em Ohio.

Laird lembra-se de quando visitou Ladany em Israel e andou 32 quilômetros com ele até a cidade bíblica de Masada.

"Eu voltei de ônibus para a casa de Shaul", disse Laid durante uma entrevista recente por telefone. "Shaul voltou a pé."

No mundo dos esportes de corrida, os atletas de marcha atlética são uma espécie à parte por causa de seu estilo mecânico distinto e dedicação quase fervorosa, e Ladany era ainda mais reconhecido por causa de seus óculos de armação preta.

Ladany, que também competiu nas Olimpíadas da Cidade do México em 1968, sempre esteve em conflito com os relatos publicados sobre a tragédia de Munique. Ele dedicou 21 páginas de seu livro ao ataque terrorista, começando com a descrição de quando foi acordado "de um sono profundo e pesado" na vila olímpica e culminando com o relato de seu processo judicial contra o autor e editor do livro "The Blood of Israel" ["O Sangue de Israel"] por ter sido retratado como um homem "fugindo e pulando como um bode" na tentativa de escapar do ataque.

Na verdade, Ladany escreveu, ele e outros dois atletas israelenses "saíram na varanda, e com a coluna ereta e passos confiantes cruzaram o gramado e deixaram o prédio para trás."

Citando dezenas de erros no livro "The Blood of Israel", Ladany diz: "Acho que o livro denegriu meu personagem."

Ladany também é critico em relação à segurança alemã e às tentativas desastradas de salvar os reféns israelenses num campo aéreo militar isolado.

"A operação foi conduzida de uma forma medíocre e amadora", escreveu, listando a má comunicação com os atiradores e a relutância de alguns soldados alemães que estavam num avião vazio em enfrentar os terroristas.

"Ele ficou muito amargurado com a equipe olímpica israelense que voltou para casa", disse Elliot Denman, ex-atleta olímpico de marcha atlética, jornalista e amigo de Ladany, no mês passado. "Ele queria que a equipe ficasse. Ele sentiu que essa atitude equivalia a ceder aos terroristas."

A biografia de Ladany foi publicada pela primeira vez em hebraico em 1997. Explicando os motivos para realizar a atual tradução, Ilan Greenfeld, editor da Gefen e corredor de longa distância, escreveu em uma mensagem de e-mail que o livro "pode ser inspirador e pode motivar as pessoas, mostrando que em qualquer ponto de suas vidas elas podem chegar a grandes realizações através da perseverança, do trabalho duro e da persistência".

Ladany tem uma visão negativa dos oficiais e organizações amadoras dos esportes. E hoje ainda se lembra vividamente de sua chegada ao campo de Bergen-Belsen.

"Lembro-me de cada dia daqueles seis meses - a fome, a chuva, o frio, as chamadas em fila que nunca terminavam, as cercas de arame farpado ao lado da cerca de alta voltagem, as torres de guarda, os oficiais da SS sempre gritando conosco, principalmente um com lábio leporino, e os prisioneiros holandeses sem roupa nos campos vizinhos", escreveu. "Essas cenas vistas por um menino de oito anos estão tão claras na minha memória que 50 anos depois, numa visita a um museu, apontei para um mapa impresso do campo e informei ao diretor que a cerca estava representada no lugar errado. Como ele não quis confiar nas minhas recordações da infância, checou um mapa aéreo britânico e descobriu, para sua surpresa, que eu estava certo."

Desde que completou 50 anos, Ladany comemora seus aniversários andando um quilômetro para cada ano de vida. No ano passado, aos 71, num circuito de cinco quilômetros, Ladany não se conteve.

"Não consegui completar o evento como tinha planejado inicialmente", escreveu no posfácio de seu livro. "Os freios das minhas pernas não funcionaram direito, e eu só consegui parar depois de 75 quilômetros. Por quanto tempo serei capaz de continuar essa tradição? Não sei dizer. Eu não tenho uma bola de cristal." Eloise De Vylder

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