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15/07/2008

Krugman: o socorro a duas firmas de hipoteca e você

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
E agora chegamos à próxima etapa de nossa aparentemente interminável crise financeira. Desta vez Fannie Mae e Freddie Mac ocupam as manchetes, com terríveis advertências de colapso iminente. Até onde devemos nos preocupar?

Bem, vou assumir uma posição do contra: a tempestade sobre esses credores em particular é exagerada. Fannie e Freddie provavelmente vão precisar de uma ajuda do governo. Mas, como já está claro que o socorro virá, seus problemas não vão derrubar a economia.

Além disso, embora Fannie e Freddie sejam instituições problemáticas, não são responsáveis pela confusão em que nos encontramos.

Aqui está a história: Fannie Mae - a Associação Nacional Federal de Hipotecas - foi criada na década de 1930 para facilitar a compra de residências adquirindo hipotecas dos bancos, liberando dinheiro que poderia ser usado para fazer novos empréstimos. Fannie e Freddie Mac, que faz mais ou menos a mesma coisa, hoje financiam a maior parte dos empréstimos residenciais feitos nos EUA.

O caso contra Fannie e Freddie começa com sua situação peculiar: embora sejam empresas privadas, com acionistas e lucros, são "empresas patrocinadas pelo governo" estabelecidas por lei federal, o que significa que recebem privilégios especiais.

O mais importante desses privilégios está implícito: é a crença dos investidores de que se Fannie e Freddie forem ameaçados de falência o governo federal virá socorrê-las.

Essa garantia implícita significa que os lucros são privatizados, mas os prejuízos, socializados. Se Fannie e Freddie se saem bem, seus acionistas colhem os benefícios, mas se as coisas dão errado Washington paga a conta. É cara, eles ganham; coroa, nós perdemos.

Essas apostas de mão única podem incentivar a assumir riscos ruins, porque o lado negativo é problema dos outros. O exemplo clássico de como isso pode acontecer é a crise de poupanças e empréstimos (Savings & Loans) da década de 1980: os donos de S&L ofereceram taxas de juros mais altas para atrair muitos depósitos com garantia federal, depois essencialmente jogaram com o dinheiro. Quando muitas de suas apostas deram errado os federais acabaram segurando o tranco. A limpeza acabou custando aos contribuintes mais de US$ 100 bilhões.

Mas aqui está o negócio: Fannie e Freddie não tiveram nada a ver com a explosão dos empréstimos de alto risco (subprime) alguns anos atrás, uma explosão que reduziu o fiasco do S&L. Na verdade, Fannie e Freddie, depois de crescer rapidamente nos anos 1990, praticamente desapareceram de cena no auge da bolha imobiliária.

Isso aconteceu em parte porque os reguladores, reagindo a escândalos de contabilidade nas empresas, impuseram restrições temporárias aos empréstimos de Fannie e Freddie exatamente quando os preços dos imóveis estavam decolando. E também eles não fizeram nenhum empréstimo subprime, porque não podem: a definição de um empréstimo subprime é exatamente um empréstimo que não cumpre a exigência imposta pela lei de que Fannie e Freddie só comprem hipotecas emitidas para mutuários que deram entradas substanciais e documentaram cuidadosamente sua renda.

Por isso, quaisquer maus incentivos criados pela garantia federal implícita foram superados pelo fato de que Fannie e Freddie eram e são rigidamente regulamentados em relação aos riscos que podem assumir. Você poderia dizer que a experiência Fannie-Freddie mostra que a regulamentação funciona.

Nesse caso, porém, como eles acabaram em dificuldades?

Parte da resposta é a mera escala da bolha imobiliária, e o tamanho da queda de preços que ocorre agora que a bolha estourou. Em Los Angeles, Miami e outros lugares, qualquer pessoa que tenha feito empréstimos para comprar uma casa no pico do mercado provavelmente tem capital negativo nesta altura, mesmo que ele ou ela tenha pago originalmente 20%. O resultado é um aumento do índice de inadimplência mesmo em empréstimos que cumprem as diretrizes de Fannie e Freddie.

Além disso, enquanto Fannie e Freddie eram rigidamente regulamentados em termos de empréstimos, não tiveram de colocar capital suficiente - isto é, dinheiro levantado pela venda de ações e não por empréstimo. Isso significa que mesmo uma pequena queda no valor de seus ativos pode deixá-los embaixo d'água, devendo mais do que possuem.

E sim, existe um verdadeiro escândalo político aqui: houve diversas advertências de que a magra capitalização de Fannie e Freddie representava riscos para os contribuintes, mas a diretoria das companhias anulou o processo político contratando sistematicamente figuras influentes dos dois partidos. Embora tenham sido feias as maquinações políticas de Fannie e Freddie, porém, não tiveram um papel significativo na causa de nossos atuais problemas.

Ainda assim, não é chocante que os contribuintes possam acabar tendo de resgatar essas instituições? Na verdade não. Estamos passando por uma grande crise financeira - e essas crises quase sempre terminam com algum tipo de socorro do contribuinte ao sistema bancário.

E sejamos claros: não se pode deixar Fannie e Freddie falirem. Com o colapso dos empréstimos subprime, hoje eles são mais importantes que nunca para o mercado habitacional e para a economia em geral. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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