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19/07/2008

Krugman: crise norte-americana não vai acabar antes de 2010

The New York Times
Paul Krugman
Colunista do The New York Times
Os preços das residências estão em queda livre. O desemprego está em alta. E a confiança do consumidor despencou para níveis que não eram vistos desde 1980. Quando é que isso tudo vai acabar?

Provavelmente não antes de 2010. No mínimo. Barack Obama, preste atenção.

É verdade que alguns analistas ainda esperam uma recuperação "em forma de 'V'" na qual a economia experimentaria um aquecimento após a crise.

Segundo este ponto de vista, a qualquer momento o sol voltará a brilhar para os Estados Unidos.

Mas, caso a experiência dos últimos 20 anos funcione como guia, a perspectiva para a economia não tem formato de "V" e sim de "L". Em vez de presenciarmos uma prosperidade súbita, veremos um período prolongado de estagnação, ou, na melhor das hipóteses, de um desempenho que melhorará lentamente.

Comecemos pela questão imobiliária.

Segundo o bastante utilizado índice Case-Shiller, o preço médio das habitações nos Estados Unidos caiu 17% nos últimos 12 meses. Mas estamos em meio a um processo de deflação de uma grande bolha imobiliária, e os preços das moradias provavelmente ainda cairão bastante.

Ou, falando de forma mais específica, os preços reais das habitações, ou seja, os preços ajustados de acordo com a inflação do resto da economia, subiram mais de 70% de 2000 a 2006. Desde então eles caíram - mas ainda estão 30% mais elevados do que o nível de 2000.

Será que deveríamos ter a expectativa de que os preços caíssem até aquele nível? Bem, no final da década de 1980, Los Angeles experimentou uma grande bolha imobiliária localizada: os preços reais das residências subiram cerca de 50% antes que a bolha estourasse. A seguir, os preços das casas caíram 25%, um fato que, aliado à inflação, fez com que os preços dos imóveis retornassem ao patamar anterior à bolha.

E eis aqui um ponto importante: esse processo levou mais de cinco anos. Os preços das residências de Los Angeles só voltaram ao patamar original em meados da década de 1990. Caso a atual crise imobiliária siga o mesmo roteiro, não veremos uma recuperação até no mínimo 2011.

E quanto à economia mais ampla? Podemos nos sentir tentados a sentir otimismo pelo fato de as duas últimas recessões, em 1990-1991 e em 2001, terem sido bastante curtas. Mas, em cada um destes casos, ao fim da recessão seguiu-se a um longo período de lento crescimento econômico e aumento do desemprego que, para a maioria dos norte-americanos, pareceu ser a continuidade da recessão.

Assim, a recessão de 1990 terminou oficialmente em março de 1991, mas o desemprego continuou subindo até grande parte do ano de 1992, possibilitando que Bill Clinton vencesse as eleições com base na economia. A recessão seguinte começou oficialmente em março de 2001 e terminou em novembro daquele ano, mas o desemprego continuou aumentando até junho de 2003.

Esses prolongados episódios de recessão provavelmente refletem a natureza mutante do ciclo dos negócios. As recessões anteriores foram mais ou menos projetadas deliberadamente pelo Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que aumentou as taxas de juros para controlar a inflação. Já as crises modernas são como ressacas após surtos de exuberância irracional - a crise das poupanças e empréstimos para todos da década de 1980, a bolha de tecnologia da década de 1990, e, agora, a bolha imobiliária.

Acabar com aquelas recessões de estilo antigo foi fácil porque tudo que o Fed tinha que fazer era agir de forma mais branda. Porém, extinguir as crises modernas é mais difícil porque a economia precisa encontrar algo para substituir a bolha estourada.

O Fed, em especial, tem tido muita dificuldade para agir nas recessões modernas. Em 2002, havia uma forte sensação de que o Fed estava agindo.

Ele continuou reduzindo as taxas de juros, mas ninguém quis tomar dinheiro emprestado até que a bolha imobiliária alçasse vôo. Agora isso está ocorrendo novamente. A revista satírica "The Onion" como sempre acertou na mosca com a sua recente manchete: "Nação infernizada pela recessão exige uma nova bolha para nela investir".

Mas provavelmente não acharemos uma outra bolha - pelo menos não encontraremos uma bolha grande o suficiente para alimentar uma recuperação rápida. E isso tem, entre outras coisas, profundas implicações políticas.

Tendo em vista o estado da economia, é difícil enxergar como Obama poderia perder a eleição de 2008. Um pequeno incidente ocorrido nesta semana: um motorista que passava gritou para uma multidão que aguardava em frente a uma agência do banco falido IndyMac, "A economia de Bush não funcionou! Eles são todos ladrões republicanos direitistas!". A multidão aplaudiu.

Mas aquilo que a economia dá, ela também pode tirar. Caso a atual crise siga o padrão moderno típico, a economia permanecerá deprimida até pelo menos 2010. Isso significa que haverá muito tempo para que se comece a responsabilizar o próximo presidente e para que ele seja punido nas eleições congressuais.

Para evitar tal destino, Obama - caso ele venha a ser de fato o próximo presidente - terá que se movimentar de forma rápida e enérgica para fazer frente ao descontentamento econômico dos Estados Unidos. Isso significa um outro plano de estímulo, maior, melhor e mais sustentado do que aquele que o congresso aprovou no início deste ano. E também significa a adoção de medidas de longo prazo no sentido de reduzir a ansiedade econômica - acima de tudo, a criação de um serviço de saúde universal.

Caso alguém me perguntasse, eu diria que não há muito suspense na eleição deste ano: a não ser que cometa erros extraordinários, Obama vencerá. Assumindo que ele vença, a questão real é o que fará com a sua vitória. UOL

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