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19/07/2008

No Brasil, uma onda de investimentos está em andamento no futebol

The New York Times
Andrew Downie
Em São Paulo
Alguns colegas de trabalho estavam sentados no escritório aqui, em uma recente tarde de segunda-feira, dissecando as partidas de futebol do fim de semana e escolhendo seus melhores jogadores.

Um dos homens gostou de um zagueiro com talento. Outro quer um jogador que está marcando gols regularmente para um importante time da segunda divisão. E o chefe está disposto a contratar um defensor adolescente cujo contrato expirará em breve.

Poderia ser uma escalação para uma partida de "Fantasy Football" em qualquer escritório americano - só que estas negociações são reais. Este é o escritório da Traffic, uma das principais empresas brasileiras de uma nova, e controversa, onda de investimento no futebol brasileiro.

Armada com R$ 20 milhões de dinheiro próprio e R$ 20 milhões que espera obter junto a investidores, a Traffic está comprando contratos de jovens jogadores de futebol por todo o Brasil. Ela então empresta os jogadores para as equipes, que pagam a eles um salário e também permitem que exibam seu talento. Se forem contratados por um grande clube europeu, a Traffic e seus parceiros colhem a maior parcela da taxa de transferência. (O jogador, como de costume, recebe um bônus pela assinatura do contrato e, freqüentemente, um alto salário.)

"Em vez de investir em ações ou em imóveis", disse Júlio Mariz, o presidente da Traffic, "estas pessoas estão investindo na compra dos direitos econômicos dos jogadores de futebol".

Esforços semelhantes para investimento em atletas individuais foram discutidos recentemente no beisebol dos Estados Unidos e no futebol do Reino Unido, mas nenhum destes esforços decolou como no Brasil.

Os acordos são questionáveis; a Fifa proibiu o envolvimento de terceiros em transferências. Mas sem um investimento de fora, muitos clubes brasileiros quebrariam financeiramente.

Vários fundos, como o da Traffic, surgiram ao longo do último ano e algumas grandes empresas brasileiras - incluindo redes de supermercados - estão criando departamentos de futebol para investir em jovens jogadores, na esperança de que eles algum dia farão os clubes europeus sacarem seus talões de cheque.

"Nós estamos investindo US$ 10 milhões por ano, mas isto está crescendo rapidamente porque há grandes lucros a serem realizados", disse Thiago Ferro, um parceiro no departamento de investimento em futebol do Grupo Sonda. "Nós estamos obtendo retornos de 150% ao ano."

No futebol, os clubes antes eram proprietários dos direitos econômicos de um jogador sob seu contrato. Se outra equipe quisesse contratar o jogador, ela tinha de pagar ao seu clube uma taxa de transferência, além de acertar os termos com o jogador.

Mas nos últimos anos, empresários livres tomaram conta do mundo do futebol. E apesar dos contratos dos jogadores ainda serem mantidos pelas equipes, como estipulam as regras internacionais, os investidores estão se envolvendo.

O novo modelo é atraente para os investidores, porque uma grande venda pode garantir estes retornos espetaculares. A Traffic prevê lucros de 30% ao ano, disse Mariz. O Grupo Sonda espera retornos ainda maiores, porque busca poucos grandes negócios em vez de um grande número de jogadores medianos como a Traffic. Os retornos projetados pelo Grupo Sonda são maiores porque a estratégia é mais arriscada. A Traffic paga dividendos a cada seis meses, obtidos pelos negócios envolvendo jogadores. Quando um jogador é negociado, os investidores dividem a taxa de transferência com os clubes, segundo seus percentuais de propriedade.

Os clubes brasileiros abraçaram o novo modelo de investimento porque precisam levantar dinheiro sem precisar negociar jogadores tão depressa ou com freqüência excessiva. E quando negociam inevitavelmente os jogadores, as grandes somas, de até US$ 50 milhões, garantem a sobrevivência do clube.

"Se quisermos um time decente, nós precisamos de ajuda financeira", disse Carlos Augusto Montenegro, vice-presidente de futebol do Botafogo, um clube do Rio de Janeiro que possui pelo menos seis jogadores emprestados por fundos ou investidores individuais.

"Nós sabemos que eles estão nos usando como vitrine, mas é bom para o jogador, é bom para o agente e é bom para o Botafogo", ele disse. "Se houvesse outra alternativa nós a estudaríamos, mas é o que temos atualmente e funciona."

No ano passado, o Bayern de Munique desembolsou US$ 19 milhões por Breno (formalmente Breno Vinicius Borges, mas poucos no Brasil o conhecem pelo nome de batismo), um zagueiro de 18 anos que jogou apenas 22 partidas pelo São Paulo. O Milan da Itália pagou um valor semelhante pelo atacante de 17 anos do Internacional, Alexandre Pato.

Não são apenas os gigantes das primeiras divisões da Inglaterra, Alemanha, Itália e Espanha que querem brasileiros. No ano passado, 1.085 jogadores brasileiros foram transferidos para lugares tão diversos quanto Vietnã, Qatar e ilhas Faroë, segundo a Confederação Brasileira de Futebol.

Foram estes números que estimularam a Traffic a entrar em ação, disse Mariz. A empresa com sede em São Paulo nasceu nos anos 80, vendendo espaço publicitário nos estádios de futebol. Ela então ingressou no marketing esportivo e na administração de competições, e agora é dona de direitos de transmissão de muitas das principais competições de futebol da América do Sul.

Ela recentemente deslocou seu foco para um investimento mais pesado dentro de campo.

Além de comprar duas equipes, no ano passado a Traffic criou um fundo chamado Cedro Participações, usando US$ 12 milhões em dinheiro da própria empresa. De lá para cá, 18 indivíduos compraram uma ou mais participações de US$ 120 mil, elevando o total do fundo até o momento para mais de US$ 20 milhões.

O fundo visa operar por três anos, a mesma duração da média dos contratos, e a Traffic sempre detém uma participação de mais de 50%, disse Mariz.

Até o momento, o fundo comprou total ou parcialmente os contratos de 36 jogadores, e 12 deles foram para o Palmeiras, um dos maiores clubes do Brasil e o principal parceiro da Traffic no empreendimento.

Os executivos da Traffic se reúnem com os diretores do Palmeiras pelo menos uma vez por mês para discutir o elenco do clube. A Traffic dá listas de jogadores disponíveis ao Palmeiras. O Palmeiras também pode pedir ajuda da Traffic para garantir um astro em particular.

Mas também há aspectos negativos potenciais, especialmente para os torcedores. Os investidores podem se sentir tentados a vender um jogador tão logo seu valor aumente, retirando da equipe uma figura chave em um momento vital. Se fundos controlam jogadores em times adversários, há a aparência de conflito de interesse. E muitos torcedores temem que pessoas sem nenhum vínculo emocional ao clube possam exercer controle demais.

Gilberto Cipullo, o vice-presidente de futebol do Palmeiras, disse que a Traffic não pode vender jogadores durante certos períodos-chave da temporada e apontou que quando o valor de um jogador sobe demais, então de qualquer forma ele acaba vendido.

Ainda assim, o envolvimento de terceiros é controverso. Um escândalo na Europa em torno de quem era proprietário de dois jogadores argentinos transferidos do clube brasileiro Corinthians para a Inglaterra, em 2006, levou a entidade que governa o futebol, a Fifa, a proibir a propriedade de terceiros em janeiro.

A Traffic contorna esta regra ao contratar todos os jogadores para seu próprio clube pequeno, o Desportivo Brasil, e emprestá-los a times parceiros como o Palmeiras, disse Mariz. O Grupo Sonda transfere todos os direitos, exceto aqueles ligados a futuros ganhos financeiros, ao clube participante, disse Ferro.

Um porta-voz da Fifa disse que a federação não investigou o sistema brasileiro porque nenhum "caso formal foi apresentado" a ela.

"Está claro que eles supostamente não deveriam fazer isso e que vai contra as regras", disse o porta-voz da Fifa, citando a regra de janeiro, que declara: "Nenhum clube entrará em contrato que permita que outra parte ou uma terceira parte adquira a capacidade de influenciar, em assuntos relacionados à atividade ou transferência, sua independência, suas políticas ou o desempenho de suas equipes".

Os administradores de fundos no Brasil dizem que estão trabalhando dentro da lei e enfatizaram que não têm planos de interromper seus negócios. Com os clubes desesperados por dinheiro, e os investidores desesperados por lucros, a tendência aparentemente continuará.

"Há alguns indivíduos irresponsáveis que querem apenas um lucro de curto prazo", disse o presidente da Associação Brasileira de Agentes de Futebol, Léo Rabello. "Mas se feito da forma apropriada, então isso mudará o futebol. O investimento ingressará no Brasil." George El Khouri Andolfato

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