UOL Notícias Internacional
 

21/07/2008

Dentro de Nairóbi, a próxima Palo Alto?

The New York Times
G. Pascal Zachary*
Na república da inovação, a vida é injusta. Em um número relativamente pequeno de lugares -todos em países ricos ou na China e na Índia- é criado quase todo o avanço tecnológico importante.

Outros locais precisam contentar-se com tecnologias feitas por outros. E, no entanto as pessoas desses lugares sonham com mais.

Tomemos como exemplo Wilfred Mworia, um estudante de engenharia de 22 anos e programador independente em Nairóbi, Quênia. Nas quatro semanas que prepararam o lançamento do lançamento muito aguardado do novo iPhone da Apple, Mworia criou um aplicativo para o telefone que mostra onde estão acontecendo os eventos em Nairóbi e permite que as pessoas acrescentem detalhes sobre eles.

O desejo de Mworia de desenvolver um aplicativo para o iPhone não é incomum: muitos designers em todo mundo estão escrevendo programas para o aparelho. Mas sua localização impunha obstáculos desanimadores; o iPhone não funciona em Nairóbi e Mworia sequer possui um. Escreveu o programa em um simulador de iPhone.

"Mesmo que eu não tenha um iPhone," diz Mworia em tom de desafio, "ainda posso ter um mercado mundial para o meu trabalho."

Os desafios em Nairóbi são muitos. O uso da Internet é relativamente caro e lento. As quedas de energia são comuns. A cidade também não tem uma universidade de tecnologia de categoria mundial. Os professores de Mworia não dão aulas sobre as mais novas linguagens de computador; ele precisa aprendê-las sozinho.

A instabilidade política também pode ser um problema. No começo do ano, o Quênia sofreu com a violência generalizada depois da disputada eleição nacional. Durante semanas, o trabalho em Nairóbi ficou suspenso.

"Se alguém tiver uma idéia brilhante em Nairóbi, simplesmente não se pode deixar para lá" diz Laura Frederick, uma norte-americana que trabalha em um sistema de pagamento online na cidade.

Ainda assim, Nairóbi é a sede de uma efervescência digital que convida ao otimismo quanto às suas chances de criação de inovações extraordinárias. A cidade tem relativamente poucas linhas telefônicas ou computadores operando em rede, portanto os telefones celulares são uma ferramenta digital essencial. É quatro vezes maior o número de pessoas que os tem do que os que têm conta em banco. As mensagens de texto são muito mais populares que e-mail. A Safaricom, a principal provedora de serviço de telefonia móvel oferece um serviço chamado M-pesa que permite ao cliente enviar dinheiro com mensagens de texto. A Nokia vende telefones novos por US$ 33.

Enquanto engenheiros nos Estados Unidos se derramam em atenções para caros telefones que apresentam características de laptops, no Quênia há 10 milhões de telefones dos mais baratos. Outros milhões são utilizados no restante da África. Os aperfeiçoamentos em tais celulares básicos podem ser testados de forma barata em Nairóbi, e porque os projetistas, familiarizados com conexão de baixa velocidade, estão à vontade para redigir programas compactos adequados a equipamentos limitados.

"Os aplicativos são pesados nos Estados Unidos," diz Michael Wakahe, um "code writer" de Nairóbi. "Aqui nós precisamos torná-los leves," porque um hardware mais simples exige programas menores. Isso pode ter suas vantagens em sistemas wireless.

A experiência digital característica de Nairóbi inspira confiança em sua vigorosa comunidade de programadores, blogueiros e entusiastas da Internet. No ano passado, cerca de 600 pessoas em Nairóbi -a maioria com menos de 25 anos- reuniu-se em um grupo denominado Skunk Works (em inglês, um meio não-convencional de organizar pessoas para desenvolver temas específicos) compartilhando idéias e incentivando novos empreendimentos. Em junho, foi realizado um workshop de um dia que incluiu sessões com o uso do sistema operacional aberto para celular Android do Google, desenvolvendo aplicativos para mapas digitais e a criação de conteúdo para telefones celulares.

"As possibilidades estão se abrindo para nós," disse Josiah Mugambi, um dos organizadores do grupo.

A perspectiva de casar celulares de baixo custo com a internet fez com que Nairóbi ficasse conhecida por pessoas de fora, que se indagam se a cidade poderá emergir como uma plataforma para tecnologias do futuro. Uma possibilidade intrigante é a transmissão de programas locais de televisão por telefones celulares.

A confirmação da importância de Nairóbi veio com a alardeada abertura de um escritório de desenvolvimento do Google em setembro passado. "A África é um imenso mercado para nós no longo prazo," disse Eric E. Schmidt, principal executivo do Google, por e-mail. "Precisamos começar ajudando as pessoas a estarem online, e a criatividade das pessoas fará o restante."

O Google contratou sete estudantes universitários recém-formados, que mapearam digitalmente as ruas e edificações de Nairóbi para o Google Maps. A empresa agora está fazendo o mesmo para outras cidades africanas. Uma das principais emissoras de televisão de Nairóbi, a NTV, firmou um acordo para apresentar episódios completos de seus programas pelo YouTube, de propriedade do Google.

O Google pretende contratar mais pessoas em Nairóbi e está recrutando pessoas em meia dúzia de outras cidades africanas. Em Nairóbi, o Google escolheu um veterano do setor de acesso à Internet da cidade para comandar seu escritório. A empresa enviou dois norte-americanos para lá; como o candidato presidencial Barack Obama, são filhos de quenianos e norte-americanos.

A presença da empresa desperta ambições. "Quando entrevistei pessoas para empregos no escritório," explica Cris Kiagiri, funcionário de tecnologia do Google em Nairóbi, "eu perguntei: 'O que você gostaria que o Google fizesse neste mercado que ainda não se tentou fazer em nenhum outro lugar do mundo? '"

"Muitas pessoas acreditam que o Google está tentando replicar na África o que já foi feito em outras partes," acrescenta Kiagiri, que se transferiu no ano passado do escritório central do Google na Califórnia. "Claro, queremos trazer os produtos existentes para esse mercado. Mas também queremos organizar informações localmente de uma forma que não tenha sido feita em outros lugares."

Ser realmente criativo em um ambiente tecnológico menos avançado é derrotar a geografia. Mesmo uma força tecnológica poderosa como o Google pode não ter sucesso. Mas sonhando com a grandeza, os quenianos estão pressionando o Google a se expandir em áreas completamente novas.

Um programador local, Timothy Mbugua, quer que o Google aperfeiçoe seu backbone de comunicação para que ele possa usá-lo na construção de um serviço de transferência de dinheiro que cobraria tarifas mais reduzidas do que os serviços existentes. Embora isso pareça desanimador, Mbugua explica; "Só estou dizendo ao Google, 'Isso é o que eu preciso de vocês para pôr em prática a minha idéia. '"

G. Pascal Zachary é professor de jornalismo em Stanford e escreve sobre tecnologia e desenvolvimento econômico Nairóbi é a sede de uma efervescência digital que convida ao otimismo quanto às suas chances de criações inovadoras Claudia Dall'Antonia

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