UOL Notícias Internacional
 

21/07/2008

Em Dubai, a época de crescimento parece interminável

The New York Times
Landon Thomas Jr.
Em Dubai, Emirados Árabes Unidos
Banhado pela luz brilhante dos demais arranha-céus, o principal prédio do centro financeiro de Dubai parece espelhar as grandes ambições dos banqueiros estrangeiros de investimentos que correm para se estabelecer por aqui.

"Essa é a nova Wall Street - é o centro de gravidade", disse Fares Noujaim, novo presidente de negócios do Merril Lynch no Oriente Médio e Norte da África, ao apontar para o prédio principal do Centro Financeiro Internacional de Dubai, que encobria o céu sobre sua cabeça.

Chamado de Gate, o prédio mais parece uma obra gigante de arte moderna do que um prédio de escritórios.

O boom de Dubai está cavalgando sobre a alta do petróleo há anos. Seus arranha-céus ultramodernos, que praticamente não existiam há pouco mais de uma década, tornaram-se um símbolo proeminente da transformação deste antes pobre emirado da costa oeste do Golfo Pérsico no principal centro financeiro, comercial e turístico do Oriente Médio.

Mas à medida que a mordida cada vez mais profunda da crise do crédito vai se espalhando a partir de Wall Street e tomando proporções globais - torpedeando mercados antes estáveis desde Xangai, China, até Estocolmo - o Gate vai se transformando num poderoso farol que atrai uma revoada de homens de negócios em busca da sua fatia em um dos últimos mercados em alta do mundo.

Os números são impressionantes. O crescimento econômico de Dubai está em cerca de 11% ao ano e o governo espera que continue nesse ritmo. Os preços dos imóveis cresceram 42% no primeiro trimestre do ano.

Apesar de ter pouco petróleo próprio, o clima acolhedor da sociedade e dos investimentos em Dubai, juntamente com as zonas especiais de legislação independente, transformou o país em um entreposto comercial anabolizado, muito além do que foi Beirute nos anos 70 e Hong Kong nos anos 80.

Os economistas alertam para o crescimento desgovernado, enquanto a inflação em alta, o enfraquecimento da moeda e a construção rampante alimentam os temores de que uma reviravolta severa esteja para acontecer.

Mas para Noujaim, essas preocupações são para outro dia.

"Bolha? Que bolha?" Perguntou Noujaim, defendendo seu ponto de vista de que a demanda global por petróleo, apesar da queda recente do preço do barril, fará com que o preço do produto aumente ainda mais. "Aqui será a próxima Cingapura ou Hong Kong."

Noujaim está hospedado em um hotel próximo enquanto luta para encontrar um lugar para morar no supersaturado mercado imobiliário de Dubai. Seu novo escritório acabou de entrar em operação.

Mas isso não importa, seu BlackBerry está tocando e ele tem euforia de sobra, numa época de maré baixa para o ânimo dos banqueiros de investimentos.

Há uma semelhança atemporal entre os banqueiros de investimentos quando são carregados por um mercado em alta. Eles falam mais rápido, o dia de trabalho é mais longo e seu olhar se torna mais intenso - basicamente, o resto dos problemas do mundo parece estar longe, bem longe.

Dubai e as economias movidas a petróleo da região, a quem o país abastece, tornaram-se um ponto estratégico.

E como numa verdadeira corrida do ouro, essa situação está impregnada de uma veia competitiva que atinge em cheio as equipes dos presidentes-executivos.

No começo da década, as viagens para a China eram uma tarefa obrigatória para os presidentes-executivos de Wall Street que buscavam negociações lucrativas no exterior.

Agora é a vez do Oriente Médio: John J. Mack do Morgan Stanley e Lloyd C. Blankfein do Goldman Sachs já estiveram aqui diversas vezes desde que a última explosão de crescimento aconteceu há alguns anos atrás. Richard S. Fuld Jr. do Lehman Brothers veio uma vez, e John A. Thain, que assumiu o Merril no ano passado, deve chegar aqui nesse outono.

O Morgan Stanley enfatiza o fato de ter 42 banqueiros de investimento em Dubai e um escritório próspero em Riad, Arábia Saudita; o Citigroup transferiu recentemente um de seus chefes de investimentos, Alberto Verme, para a região; o Deutsche Bank e o UBS estão mandando banqueiros aos bandos; e o Goldman Sachs enviou um aliado de Blankfein do alto escalão com salário fixo para fincar a bandeira da companhia.

E, justamente nessa semana, o setor de administração de valores do Barclay's, Global Investors, estabeleceu um escritório no centro financeiro daqui.

O boom pode estar acontecendo, mas ainda não está claro se o volume de negócios e de oportunidades nesses rasos mercados de capital e altamente regulados será suficiente para sustentar a expansão agressiva dos bancos.

E para os executivos corporativos da região, atacados por uma onda de telefonemas de apresentação, pedidos de reunião e ofertas de cartões de visita, a questão é: será que Merrill, Morgan e Goldman estarão aqui quando a inevitável queda acontecer?

A julgar pelo que diz Georges Makhoul, presidente-executivo de negócios do Morgan Stanley no Oriente Médio, a resposta é um sonoro sim. O Morgan Stanley chegou aqui em 2005 e tornou-se um dos primeiros bancos americanos a estabelecer sua presença.

"Este é um compromisso com um serviço completo", disse Makhoul, enquanto encaminhava um visitante pelo movimentado escritório principal. "Queremos fazer direito", disse.

Repleto de analistas, banqueiros de investimento e negociantes, o Morgan Stanley é de longe a maior presença entre os bancos de investimento americanos - e um motivo de ceticismo, ou talvez de inveja, por parte de seus competidores.

Para provar seu ponto, Makhoul imprime uma folha de papel, mostrando o Morgan Stanley como o principal banco de investimentos no Oriente Médio.

"Temos mais de 150 funcionários na região", disse. "Isso é um exemplo de como se faz as apostas certas."

Sob o escritório de Makhoul, um aglomerado de lojas chiques promete que não faltarão artigos de luxo para mimar os banqueiros de investimento. Em uma delas, um banqueiro bem barbeado observa um relógio de pulso Porsche e não pisca os olhos quando o vendedor revela o preço de US$ 11 mil. Na loja ao lado, mais banqueiros fazem fila para experimentar seus ternos ingleses feitos sob medida.

Mas esta não é apenas a marcha dos banqueiros - Dubai atrai cerca de 20 mil pessoas por mês, número que inclui uma multidão de trabalhadores, vindos do subcontinente sul asiático, que arrumam as camas dos banqueiros nos hotéis e dirigem seus confortáveis Mercedes pela cidade (cerca de 90% da população de 1,4 milhão de habitantes de Dubai é estrangeira).

"Nós também viemos para cá por causa do dinheiro", diz Mosrallah Khan, que trabalha doze horas por dia como motorista de táxi para ganhar o suficiente para enviar algum dinheiro para sua família em Peshawar, Paquistão.

Quando anoitece, as negociações continuam, ainda que a ação se transfira das salas de reunião para os muitos bares e clubes noturnos localizados nos hotéis da cidade. O Islã é a religião oficial dos emirados; e de acordo com ela a venda de álcool é limitada apenas aos hotéis - mas as restrições param por aí.

No Buddha Bar, na recém-inaugurada Grosvenor House, os árabes, resplandecentes em seus elegantes robes brancos, viram copos de whisky.

No Sochos, um sushi bar com vista para o Mar da Arábia, a festa tem um aspecto mais agitado.

"Meu Deus, como esse lugar é divertido", disse um jovem banqueiro de um dos maiores bancos de Wall Street.

Ele tinha um braço em volta de uma garota russa loira e esbelta, que usava uma saia curta e botas de couro; e na outra mão equilibrava um drinque e um BlackBerry.

Era quase uma da manhã. O trabalho começaria em algumas horas e ele parecia relutante em ir embora.

Para a maior parte dos banqueiros seniores enviados a Dubai, a rotina de trabalho é tão pesada que sobra pouco tempo para esse tipo de diversão. Além de viverem sob pressão para produzir cifras para suas empresas famintas por lucros, eles, na prática, não têm fins de semana, uma vez que, para a Arábia Saudita, a semana começa no sábado, e para o restante da região, no domingo.

Mas é uma tarefa que eles abraçam.

"Para mim, estar aqui é algo muito pessoal", disse Wassim Younan, que veio em 2005 depois de comandar a unidade de negociação de bond e commodities da empresa em Hong Kong.

O Goldman é segundo maior banco de investimentos da região e Younan faz com que o aprendizado da etiqueta local seja parte do programa de orientação para os funcionários recém-chegados ao escritório da Goldman.

"Todos nós temos grandes folhas de pagamento", disse ele, "mas tudo isso se resume à qualidade de nossos profissionais."

Younan é cristão libanês, assim como seus colegas do Merrill, Morgan Stanley e Lehman Brothers - onde Makram Azar foi recentemente apontado como chefe de fundos de soberania.

Apesar de todos estarem na casa dos quarenta anos, há pouca confraternização entre esse grupo altamente competitivo. Todos concordam, todavia, que sua familiaridade com a região e com a língua lhes confere uma vantagem.

"Isso nos dá uma margem de superioridade", diz Azar, um alto banqueiro de mídia da Lehman que mudou para cá nessa primavera.

Se os preços do petróleo continuarem acima dos US$ 100 por barril, de fato poderá existir negócios para todos. O preço atual faz com que quase US$ 2 bilhões saiam todos os dias do bolso dos consumidores de todo o mundo para os produtores dessa região.

"Olhe para todo esse crescimento", disse Noujaim, sentado imóvel num congestionamento em Riad no mês passado, cercado por arranha-céus, alguns recém-terminados, outros ainda em construção. "Aqui poderia ser os Estados Unidos há 100 anos." Eloise De Vylder

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