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21/07/2008

O que temos à frente: alguns anos difíceis ou uma década ruim?

The New York Times
Peter S. Goodman
Você ficou sabendo que Fannie e Freddie, a despeito de seus meigos nomes, podem arruinar o sistema financeiro se não receberem uma grande injeção de dinheiro dos contribuintes. Você percebe que os empregos estão desaparecendo, o preço das casas despencando e os salários encolhendo efetivamente com a grande alta nos preços de alimentos e energia. Você notou a perturbadora conversa de uma crise pairando sobre Wall Street.

Alguma coisa certamente deu errado na economia. Mas até que ponto, realmente, as coisas vão mal? E quanto elas poderão piorar antes que voltem os dias melhores?

Mesmo para muitos economistas que até há pouco tempo pensavam que o desânimo era exagerado, a situação parece soturna. A economia atravessa um período bastante difícil. O pior provavelmente ainda está para chegar.

É provável que as perdas de empregos se acelerem este ano e em 2009, e o mercado de trabalho poderá ficar fraco durante um período ainda maior. O preço das moradias provavelmente continuará caindo, depreciando a riqueza das famílias e reduzindo o poder de compra.

"A questão em aberto é saber se teremos uns dois ou três anos ruins ou uma década má," disse Kenneth S. Rogoff, ex-principal economista no Fundo Monetário Internacional, agora professor de Harvard.

Esta é uma recessão?
Oficialmente, não. A economia só estará em recessão depois que um painel na instituição privada denominada National Bureau of Economic Research (Departamento Nacional de Pesquisas Econômicas) disser que está. Não oficialmente, muitos economistas acreditam que a recessão começou há seis ou sete meses, mesmo que a economia tenha continuado a se expandir -embora em um ritmo moderado.

Muitos acreditam que se a economia se expandir de qualquer forma, então, não existe uma recessão, mas isso não é verdade. O departamento define a recessão como "um significativo declínio na atividade econômica que se espalhe por toda a economia e que dure mais de alguns meses". Se um número razoável de pessoas perde seus empregos, fábricas deixam de produzir coisas, as lojas param de vender e menos dinheiro vai para o bolso das pessoas, trata-se provavelmente de uma recessão.

Seja qual for o nome pelo qual é chamada, trata-se de uma época dolorosa para dezenas de milhões de pessoas. Na verdade, este pode acabar sendo o mais sofrido declínio econômico desde as duas recessões ocorridas no início da década de 1980: quase certamente pior que a recessão que acabou com a bolha da tecnologia no início dessa década; talvez pior mesmo que o declínio do início da década de 1990 que acompanhou a última queda nos preços de imóveis.

Mas, apesar do que proclamam alguns alarmistas, esta não é a Grande Depressão, quando o desemprego saltou para 25% e milhões de pessoas que antes eram trabalhadores, viram-se de uma hora para outra em favelas. Não, de forma alguma, mesmo se seus vizinhos façam elaboradas observações sobre o uso das lições herdadas de avós, tais sobre como transformar uma lata de feijões em uma refeição para a família.

Até que ponto as coisas vão mal no setor imobiliário?
Mal em muitos mercados, horrorosas em alguns e ainda bem em vários.

O declínio da economia tem suas raízes no frenesi que transformou isoladas fazendas em Nevada em subúrbios com casas de fazenda e pantanais da Flórida em condomínios. Os especuladores levaram os preços de moradias para um nível acima de qualquer conexão histórica com as rendas. A gravidade fez o restante. Depois de quase duplicar em valor de 2000 a 2005, os preços das moradias caíram cerca de 17% -algo mais próximo dos 25% ajustados à inflação- segundo o índice Case-Shiller, um dos mais seguidos.

Mesmo assim, a maior parte dos economistas acredita que os preços de moradias devem cair mais 10% a 15% para voltar à realidade. Uma medida útil é a relação entre os custos de compra e de aluguel de uma casa. De 1985 a 2002, a casa média americana era vendida por uma média de 14 vezes o aluguel anual cobrado por uma casa igual, segundo a Moody's Economy.com. No início de 2006, o preço das moradias inchou para cerca de 20 -ainda bem acima da norma histórica.

Com a dificuldade em se conseguir hipotecas agora e a especulação deixando de ser atraente, a aritmética substituiu o impulso como a força de orientação para os preços de moradias. A equação fundamental aponta para baixo: mesmo com a construção desacelerando, ainda existem mais casas no mercado do que pessoas para comprá-las, e ainda mais a caminho, uma vez que um número maior de proprietários cai na execução de hipotecas.

Pelas contas da Economy.com, existem casas suficientes para atender à demanda no mercado para os próximos dois anos e meio, sem que se construa uma única residência nova.

O tempo que se leva para vender uma casa nova completamente pronta ampliou-se de uma média de quatro meses em 2005 para cerca de nove meses, segundo análise de Dean Baker, co-diretor do Center for Economic and Policy Research (Centro para Pesquisa Econômica e Política).

E muitas das vendas estão deixando de ser feitas -mais de 30% em algumas partes da Califórnia e da Flórida- pois os compradores não conseguem financiamento, o que amplia o excesso de oferta moradias, disse Baker.

Em Los Angeles, São Francisco, Phoenix e Las Vegas, os preços das casas declinaram, nos últimos meses, em taxas anuais de mais de 33%.

Quando os bancos vão se recuperar?
Até agora, eles deram baixa contábil em mais de US$ 300 bilhões em empréstimos. Muitos especialistas prevêem que a contagem chegará a US$1 trilhão ou mais -uma soma desconcertante que poderá deixar muitas instituições incapacitadas durante anos.

No tempo em que os preços das moradias se multiplicavam, os bancos despejaram oceanos de dinheiro tomado por empréstimo em empréstimos para o setor imobiliário. Ao contrário das companhias ponto.com no centro da última bolha de investimento especulativo, a nova corrida do ouro estava centrada em algo que parecia ser incontestavelmente sólido -a casa americana.

Mas tudo funcionou apenas enquanto os preços do setor habitacional subiam. A queda nos preços despencou como uma bomba. Os proprietários atrasaram o pagamento de seus empréstimos e não se qualificavam para obter novos: não havia valor sobrando em sua casa para valer como garantia para novo empréstimo. Enquanto milhões de pessoas entravam em inadimplência, os bancos viram-se à frente de enormes prejuízos em um sangrento período de prestação de contas.

Em março, o Federal Reserve ajudou a orquestrar o acordo para que o JPMorgan Chase comprasse o problemático banco de investimentos Bear Stearns. Muitos imaginaram que o pior havia passado. Mas, este mês, o revés tornado público de Fannie Mae e Freddie Mac -duas instituições imensas, patrocinadas pelo governo que em conjunto possuem ou garante cerca de metade dos US$ 12 trilhões em hipotecas a pagar -sinalizaram que surpresas piores poderiam vir à frente.

Para acalmar os mercados, o governo apressadamente reuniu um pacote de ajuda no último fim-de-semana para Fannie e Freddie que, se for usado, pode custar cerca de US$ 300 bilhões. A necessidade urgente de socorro -junto de outra rodada de baixas contábeis de bilhões de dólares em Wall Street- deixou perturbados economistas e investidores.

"Eu estava relativamente otimista, mas certamente tornei-me mais pessimista," disse Alan S. Blinder, economista de Princeton, e ex-vice-presidente do Conselho de governadores do Federal Reserve. "O sistema financeiro parece estar substancialmente pior agora que há um mês. Se fracassar a ajuda a Freddie e Fannie, pode ficar muito, mas muito pior. Se tivermos mais falências de bancos, existe a possibilidade de ver mais daquelas imagens de pessoas em fila para sacar seu dinheiro. Isso pode realmente apavorar os consumidores."

De certa forma, acrescentou Blinder, isso se parece com a Grande Depressão. "Não vimos esse tipo de sofrimento nos mercados financeiros desde a década de 1930," afirmou.

Há mais de dois anos, Mouriel Roubini, economista na Faculdade de Administração Stern na New York University, vem dizendo que a bolha no setor habitacional geraria uma crise financeira e uma recessão. Sua opinião foi minimizada como se ele fosse o "galinho Chicken Little" em busca de atenção. Agora, Roubini diz que o pior ainda não chegou, porque o acerto de contas até agora ficou confinado às hipotecas não pagas, deixando de fora outras áreas -cartões de crédito, empréstimos para compra de carros e dívidas corporativas e municipais.

Roubini diz que o custo dos prejuízos do sistema financeiro pode chegar a US$ 2 trilhões. "Mesmo se estiver mais próximo de US$ 1 trilhão, acrescenta, ainda não percorremos nem um terço do caminho".

Onde os bancos vão captar as gigantescas somas necessárias para repor o capital que eles aparentemente perderam? E o que acontecerá se não conseguirem?

Não se sabe quais são as respostas a essas perguntas, um vácuo perturbador que mantém grande parte da economia em um compasso de espera.

"Estamos em um ponto perigoso," afirmou Andrew Tilton, economista do Goldman Sachs. "A grande ameaça está em maiores perdas de capital."

Os bancos são uma parte crucial do sistema arterial da economia, desviando capital para onde ele é necessário a fim de abastecer os gastos e o poder de crescimento. No momento, eles estão se apegando fortemente aos seus dólares, privando empresas de empréstimos que estas poderiam usar para se expandir, e deixando de fornecer às famílias o dinheiro que poderia ser empregado na compra de casas e para enchê-las de móveis e utilidades domésticas.

De junho do ano passado até este junho, os empréstimos da parte dos bancos comerciais declinaram em mais de 9%, segundo uma análise de dados do Federal Reserve, feita pelo Goldman Sachs.

"Temos outra onda de ansiedade, outro aperto de crédito", disse Robert Barbera, principal economista na ITG, empresa de pesquisa e negociações. "A idéia de que teremos uma recuperação no segundo semestre do ano se desmanchou no ar".

O meu emprego está seguro?
As desacelerações na economia representam perda de empregos. O desemprego já subiu, e quase certamente aumentará mais.

Os primeiros sinais de ansiedade vieram à tona com o mercado imobiliário. As construtoras, imobiliárias, corretoras de hipotecas e bancos começaram a demitir. Em seguida, os empregos começaram a ser cortados em fábricas que fazem produtos relacionados ao mercado de habitação, de carpetes e móveis a iluminação e assoalhos.

Mas quando a quebra no setor imobiliário espalhou-se para a economia mais ampla, reduzindo o valor da riqueza familiar, os impactos foram repassados aos varejistas, salões de beleza, escritórios de advocacia e transportadoras, provocando cortes em toda a economia, exceto nos setores de saúde, agricultura e energia. Nos seis últimos meses, a economia perdeu 485.000 empregos no setor privado, segundo o Departamento do Trabalho. Muitas pessoas tiveram redução em sua jornada de trabalho.

A taxa de desemprego ainda permanece baixa, de acordo com padrões históricos, em 5,5%. E até agora, a perda de empregos -cerca de 65.000 por mês este ano- não se aproxima da magnitude de outras, vistas em declínios econômicos anteriores, particularmente na recessão dupla no início da década de 1980, quando a economia cortou mais de 140.000 empregos por mês e a taxa de desemprego superou os 10%.

Mas o Goldman Sachs calcula que a taxa de desemprego chegará a 6,5% até o final de 2009, o que se traduz em mais várias centenas de milhares de americanos sem trabalho.

Tais perdas chegam justo no momento do que foi considerado, pela maior parte dos americanos, em um período notavelmente fraco de expansão. De 1992 a 2000 -enquanto o boom da tecnologia catalisava os gastos e contratações- a economia acrescentou mais de 22 milhões de empregos no setor privado. Nos últimos oito anos, apenas cinco milhões de novos empregos foram acrescentados.

A perda do emprego está atingindo os americanos junto de uma variedade de problemas -o preço da gasolina acima dos US$ 4 o galão, inflação geral de cerca de 5% e salário sem queda.

"De qualquer ponto de vista, as pessoas estão em situação pior do que estavam", disse Roubini, economista da New York University.

Os consumidores estão exauridos?
Essa é uma grande preocupação.

O destino da economia agora repousa sobre os ombros dos consumidores norte-americanos, cujos gastos representam 70% de toda a atividade econômica.

Quando as pessoas vão aos shopping centers e compram televisores e comem fora, seu dinheiro circula por toda a economia. Quando elas apertam seus cintos, a austeridade se dissemina em ondas e sufoca o crescimento.

Durante os anos do boom no setor habitacional, os norte-americanos chegaram a tratar suas casas como se fossem caixas automáticos que jamais exigissem depósitos. Eles captaram dinheiro por meio de vendas, segundas hipotecas e linhas de crédito que davam o imóvel como garantia -uma artéria de financiamento que chegou a US$ 840 bilhões por ano de 2004 a 2006, segundo um trabalho dos economistas James Kennedy e Alan Greenspan, o ex-presidente do Federal Reserve. Isso permitiu aos americanos viverem bem acima do que traziam para casa com o trabalho.

Mas no três primeiros meses deste ano, esse fluxo restringiu-se para uma taxa anual de cerca de US$ 200 bilhões.

A média de dívida por família inchou para 120% da renda anual, acima dos 60% em 1984, segundo o Federal Reserve.

E agora os bancos estão fechando as torneiras do crédito.

"O crédito ficará apertado por um tempo que poderá ser medido em anos", disse Tilton, o economista do Goldman Sachs.

Esse é o panorama que deixa tantos economistas convencidos de que os gastos com consumo devem diminuir, impondo um aperto de vários anos sobre a economia.

"A dúvida é saber se as coisas vão ficar tão mal quanto na década de 1970?", indaga Rogoff, lembrando de uma era de grandes altas nos preços da gasolina e de uma inflação de dois dígitos.

No longo prazo, os norte-americanos poderão não ter escolha a não ser gastar menos, economizar e reduzir suas dívidas -em resumo, viver dentro de suas possibilidades.

"Estamos passando por um grande ajustamento e isso dói," diz Kristin Forbes, ex-integrante do Conselho de Consultores Econômicos do presidente George W. Bush e atualmente bolsista na Faculdade de Administração Sloam do MIT. "Mas é um ajuste que precisaremos fazer."

De quem é a culpa?
Existem muitos pontos a se considerar.

Na estimativa de muitos economistas, começa com o Federal Reserve. O banco central reduziu as taxas de juros depois do calamitoso fim da bolha de tecnologia em 2000, rebaixou-as ainda mais depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, e depois as manteve baixas, mesmo que os especuladores começassem a negociar casas como se fossem ações das empresas pontocom.

Enquanto isso, o Fed se acomodou e ficou olhando enquanto os magos financeiros de Wall Street bolavam investimentos diabolicamente complicados ligados a hipotecas, gerando enormes quantias de capital especulativo que transformaram o setor imobiliário em uma febre.

"No final do filme, fica claro que o Fed terá que cuidar dos excessos", disse Barbera.

Os preços se multiplicaram uma vez que muitos compradores de imóveis ficaram com propriedades muito maiores do que teriam condições de pagar, seduzidos pelas baixas taxas de juros iniciais que acabariam sendo reajustadas para cima, levando muitos à execução hipotecária.

Os corretores de crédito hipotecário auferiram comissões uma vez que emprestaram quase que indiscriminadamente, oferecendo termos exoticamente tolerantes -sem adiantamento em dinheiro, sem exigência de renda ou de emprego. Os bancos de Wall Street ganharam bilhões vendendo títulos incertos, associados a hipotecas em todo o mundo, ajudados pelas agências de classificação de risco que os rotulavam como sólidos.

Com tudo isso, uma grande quantidade de norte-americanos comuns tomou emprestado muito mais dinheiro do que teriam condições de reembolsar, acumulando enormes contas em cartões de crédito e levantando empréstimos sobre o valor de suas casas. Agora está chegando o dia da prestação de contas. Claudia Dall'Antonia

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