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21/07/2008

Portugal reluta contra leilão de cartas de Fernando Pessoa

The New York Times
Michael Kimmelman
Em Lisboa, Portugal
A disputa mais recente por causa de um patrimônio cultural está acontecendo aqui em Portugal - e não se tratam de vasos roubados ou relíquias preciosas de guerra, mas sim da correspondência de um poeta. As cartas, quase sempre, são janelas capazes de revelar mais sobre a vida de uma figura nacional. Os herdeiros mais velhos do consagrado escritor português Fernando Pessoa planejam leiloar neste outono a correspondência do poeta com Aleister Crowley, o místico, montanhista, escritor e praticante de magia negra inglês do início do século 20. O ministro da Cultura de Portugal está entre os que mais se mostraram preocupados recentemente com a idéia de que as cartas deixem o país.

Os herdeiros já venderam vários cadernos de Pessoa, que a Biblioteca Nacional de Portugal comprou no ano passado. Uma vez que a maior parte do trabalho de Pessoa ainda não foi publicada, os estudiosos temem que dispersar os papéis (ele deixou cerca de 30 mil escritos em baús em sua casa) torne mais difícil a tarefa de decifrar o que restou de um dos legados mais volumosos e intrincados deixados pelos grandes escritores modernos.

Pessoa e Crowley começaram a se corresponder em 1930. Pessoa era o tímido, provavelmente celibatário, e na época praticamente desconhecido poeta português que viveu através de vários pseudônimos literários. Crowley era uma figura espetacular e impressionante. Seu biógrafo recente sentiu-se obrigado a dizer que Crowley "não fazia - repito, não fazia - nem defendia os sacrifícios humanos". Pessoa, que assim como Crowley era astrólogo, escreveu a princípio para corrigir alguns erros que ele havia encontrado nos cálculos de Crowley. Este respondeu, amavelmente, em cartas para Pessoa em que assinava "666".

Recentemente, durante um fórum de debates realizado na última residência de Pessoa, onde hoje funciona o centro cultural Casa de Fernando Pessoa, administrado pela prefeitura, o ministro da Cultura de Portugal, José Antonio Pinto Ribeiro, educadamente deixou claro que o Estado tem o poder de guardar tudo aquilo que decidir que é patrimônio nacional no país. Manuela Nogueira, sobrinha de Pessoa, respondeu que um contrato já havia sido assinado com a casa de leilões, mas disse que não havia motivo para preocupação, porque, independentemente de onde irão parar os originais, todos os escritos foram fotografados para que as cópias fiquem disponíveis para estudiosos.

O nacionalismo está em alta na Europa. A maior parte dos papéis de Pessoa pertence à Biblioteca Nacional; o restante, cerca de 2.700, a seus herdeiros. Nesse caso, os originais contêm todo tipo de anotações e outros detalhes que podem ser perdidos até mesmo com boas fotocópias. A maioria dos portugueses, na verdade, não se preocupa muito com o destino dos escritos de Pessoa, mas ele ainda é um dos mais notáveis tesouros do país.

Eduardo Lourenço talvez seja o crítico literário mais renomado de Portugal. Segundo ele, Pessoa é "uma exceção, um grande escritor". "Mas ele tinha um jeito de ser que era distintamente português". E fez uma pausa para encontrar as palavras certas. "Tem a ver com tudo e com nada - com o fato de que nós, portugueses, podemos ter tudo, mas mesmo assim sentimos que não temos nada."

Portugal, explicou ele, descobriu metade do mundo no século 16, mas ainda se sente fracassado por não ter descoberto o resto. A atitude mental do país, disse Lourenço, é "uma combinação de megalomania e humildade."

"Além disso, Pessoa era um solitário", continuou, "um dos grandes poetas capazes de expressar a solidão absoluta - alguns de seus poemas são tão tristes que são difíceis de ler, o que é muito português. Basta ouvir um fado." Referindo-se à música típica portuguesa que representa a "saudade", palavra quase impossível de ser traduzida para o inglês e que significa não só a falta de casa, mas de algo mais, de alguma coisa como o paraíso perdido, sugere o crítico.

Pessoa, é claro, representava muito mais do que isso. Criado na África do Sul e trilíngüe, escreveu em inglês e francês, assim como em português. Ele personificava a reserva de um cavalheiro inglês, ao mesmo tempo em que inventava heterônimos ou imaginava personagens através dos quais fazia a si mesmo desaparecer.

Seu trabalho em prosa mais famoso, "O Livro do Desassossego", foi escrito sob o pseudônimo de Bernardo Soares. Foi reunido postumamente por estudiosos que varreram as milhares de páginas avulsas de fragmentos literários do escritor. (Dizem que Pessoa, que morreu de cirrose em 1935, aos 47 anos, interpretou os astros erroneamente, acreditando que ainda tinha dois anos de vida, durante os quais ele planejava organizar seus papéis - mesmo que, em certo sentido, seus escritos jamais pudessem ser reduzidos a uma única ordem. Assim, sua obra permaneceu aberta e para sempre impalpável, como uma sala de espelhos, e, portanto, essencialmente moderna.)

Pessoa também escreveu sob os heterônimos de Alexander Search, um engenheiro escocês, Alberto Caeiro (personagem inventado ao qual Pessoa se referia como "meu mestre"), Ricardo Reis e Álvaro de Campos, um engenheiro naval aposentado, bissexual e melancólico, viciado em drogas.

"O que aconteceu, você quer saber?" - escreveu Pessoa em 1920 para a mulher que foi sua única namorada, explicando por que estava terminando com ela. "Fui trocado por Álvaro de Campos."

Como Álvaro de Campos, ele também escreveu: "Fernando Pessoa, na verdade, não existe." Em "A História do Cerco de Lisboa", o escritor contemporâneo e ganhador do prêmio Nobel José Saramago imagina um revisor chamado Raimundo Silva, um homem não muito diferente de Pessoa que, ao colocar um simples "não" em um livro, muda a história de Portugal.

"Raimundo Silva", escreve Saramago, "pensou consigo mesmo, se eu fumasse, assim como Fernando Pessoa, deveria agora acender um cigarro, olhando o rio, pensando em como tudo é vago e incerto, mas, como não fumo, eu deveria simplesmente pensar que tudo é mesmo vago e incerto, sem um cigarro, e mesmo o cigarro, se eu fumasse, expressaria por si só o que há de vago e incerto nas coisas, assim como a própria fumaça, se eu fumasse."

Pessoa, não por coincidência, cultivava o hábito de fumar 80 cigarros por dia.

Jeronimo Pizarro é o jovem estudioso de Pessoa a quem os herdeiros do poeta permitiram fotografar seus escritos. "Pessoa é como uma sombra, um homem invisível", disse. "Ele escreveu sobre ser o centro de um centro onde não há nada."

Pizarro resistiu em rotular Pessoa como um ícone português. (O próprio Pizarro é colombiano.) Mas a diretora da Casa de Pessoa, Inês Pedrosa, que é portuguesa, insiste que Pessoa capturava um traço distinto da mentalidade congênita da nação. Quando Antonio Salazar se tornou o ditador do país em 1932, ela disse: "A idéia era não ter de que preocupar com a próxima refeição, mas tampouco não sonhar muito. Não gostamos de pessoas que se destacam demais em Portugal. Tenho um amigo que foi para os Estados Unidos trabalhar numa grande agência de publicidade e teve de escrever uma auto-avaliação de seu portfólio. Em relação às coisas que ele achou que fez muito bem, escreveu 'bom', em relação ao que achou que era bom, escreveu 'razoável'. As pessoas da empresa disseram que ele tinha um problema psicológico."

"Mas não era um problema psicológico, e sim um problema cultural", disse Pedrosa. "Ele estava simplesmente sendo português, e Pessoa escreveu brilhantemente sobre essa condição ridícula."

No porão da Casa de Pessoa, ela tirou das prateleiras dos antigos armários de madeira do escritor alguns dos livros que ele guardava e nos quais fazia anotações. (Ela contou que apenas recentemente um poema de Caeiro foi descoberto na contracapa de um dos livros.) Em "Pequena História do Cristianismo", por John M. Robertson, de 1902, Pessoa escreveu com uma letra miúda na margem de uma página, "excelente", em inglês, ao lado de uma passagem que declarava: "o refinamento material da civilização" criou nas cidades modernas "uma nova neurose". Pessoa sublinhou essas três últimas palavras.

"Para Portugal, não são apenas as sobras de algo sem importância, é Pessoa", disse Lourenço a respeito da correspondência com Crowley. Uma expressão de saudade passando por seu rosto. "Um pintor faz um quadro com a idéia de vendê-lo; um poeta não escreve com a idéia de vender seus papéis, muito menos Pessoa."

"Todas as grandes questões da filosofia, religião e política estão presentes em seu trabalho da forma mais radical", continuou, "e também de uma forma fragmentada que reflete o homem e o criador, 'Porque Deus se não tem unidade, por que eu hei de ter?' perguntou Pessoa."

Lourenço resumiu seus pensamentos mais uma vez. "Ele é o mais trágico dos poetas portugueses", disse. "O prazer da infelicidade é algo particularmente português." Eloise De Vylder

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