UOL Notícias Internacional
 

22/07/2008

Friedman: desperdiçando duas crises

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
Bush está prestes a desperdiçar uma segunda crise, desta vez em relação ao vício em energia.

Me foi dito de forma crível por um funcionário do governo Bush de que há um velho ditado no Texas, que é mais ou menos assim: "Se tudo o que você fizer for tudo o que tiver feito, então tudo o que você terá é tudo o que já teve".

Alguém poderia possivelmente conceber uma melhor descrição da política energética do presidente Bush? Os Estados Unidos estão no meio de sua pior crise energética em anos e qual é a grande decisão decidida por nosso Decisor? Rufar de tambores, por favor: nosso Decisor decidiu suspender as ordens executivas que proíbem a exploração de petróleo e gás natural além da costa do país - apesar de saber que este é um gesto insignificante porque a moratória legislativa à exploração, aprovada em 1981, continua em vigor.

O economista Paul Romer certa vez me disse que "uma crise é uma coisa terrível de se desperdiçar". O presidente Bush esta a caminho de ser lembrado como o líder que desperdiçou não uma, mas duas crises: a do 11/9 e do 4/11. O preço médio da gasolina nos Estados Unidos na semana passada, segundo a Administração de Informação de Energia, era de US$ 4,11.

Após o 11 de Setembro, Bush teve a chance de convocar o país para um grande projeto de construção do país, concentrado em vencer nosso vício em petróleo. Em vez disso, ele nos mandou ir às compras. Após os preços da gasolina atingirem US$ 4,11 na semana passada, ele teve a chance de convocar o país para um grande projeto de construção do país, concentrado em energia limpa. Em vez disso, ele nos disse para explorarmos petróleo.

Nem compras e nem exploração são a solução para nossos problemas.

O que o pessoal de Bush não entende? É isto: nós não temos um "problema de preço da gasolina". Nós temos um problema de vício. Nós somos viciados em combustíveis fósseis sujos e este vício está promovendo uma série de tendências tóxicas, que estão prejudicando nosso país e o mundo de muitas formas diferentes. Ele está intensificando o aquecimento global, criando uma demanda global descontrolada por petróleo e gás, enfraquecendo nossa moeda ao transferir quantidades imensas de dólares para o exterior para compra de petróleo importado, aumentando a "pobreza de energia" na África, destruindo fauna e flora em taxas recordes e promovendo petroditaduras cada vez mais fortes no Irã, Rússia e Venezuela.

Quando uma pessoa é viciada em crack, seu problema não é a alta do preço do crack. Seu problema é o que o vício em crack está causando a seu corpo. A cura não é crack mais barato, o que apenas perpetuaria o vício e todo o problema que está criando. A cura é vencer o vício.

O mesmo vale para nós. Nossa cura não é gasolina mais barata, mas um sistema de energia limpa. E a chave para obter isso é manter o preço da gasolina e do carvão - nosso crack - elevado, não mais barato, para que os consumidores sejam estimulados a vencer seu vício nestes combustíveis sujos e os investidores sejam estimulados a criar alternativas limpas.

Eu entendo por que os consumidores pensam que temos um problema de preço da gasolina - porque são imediatamente prejudicados pelos preços mais altos dela e a bomba no posto é onde a maioria das pessoas toca em nosso sistema de energia. Elas tendem a não ver o quadro maior. Mas este é o motivo para termos um presidente: para explicar isso e apresentar uma resposta.

A propósito, nós temos um presidente e um vice-presidente que negam que a mudança climática esteja prejudicando nosso corpo ambiental, que se recusam a ver a ligação entre os dólares que estamos enviando ao exterior e a ascensão dos petroditadores, que não se importam com a perda da biodiversidade e que aparentemente não se incomodam com a alta desvalorização do dólar, em parte por causa de todo o dinheiro que estamos gastando em petróleo importado. Assim, eles optaram por definir esta como uma "crise do preço da gasolina" - não uma crise "vício em um combustível que está nos prejudicando seriamente como nação".

Se você quiser saber qual seria uma estratégia alternativa, leia o discurso feito por Al Gore na quinta-feira para a bipartidária Aliança para a Proteção do Clima. Gore, o presidente da aliança, pediu por um plano de 10 anos - o mesmo prazo estabelecido por John F. Kennedy para nos levar à Lua - para transferir todo o país para "fontes de energia renovável e realmente limpas, livres de carbono" para atender nossos lares, fábricas e até mesmo os transportes.

Gore propôs melhorar dramaticamente nossa rede elétrica nacional e a eficiência em energia, ao mesmo tempo investimento em peso em energia solar, eólica e geotérmica limpas, assim como em tecnologias para seqüestro do carbono do carvão que sabemos que podem funcionar, mas precisam apenas crescer em escala. Para promover a mudança, ele pediu por um imposto sobre o carbono e pela compensação disso reduzindo os impostos retidos na fonte: "Vamos taxar o que queimamos, não o que ganhamos", ele disse.

Independente de você concordar ou não com o plano de Gore, pelo menos ele tem um plano para lidar com o verdadeiro problema que enfrentamos -um problema energético/ambiental/geopolítico multifacetado, de várias gerações.

Este momento - US$ 4,11 - representa a última chance de um legado para Bush. Me surpreende quão inadequada sua resposta tem sido. Ao pressionar a nação a simplesmente explorar mais petróleo, ele subestimou profundamente o problema que enfrentamos, interpretou mal a escala das soluções necessárias, menosprezou a disposição do povo americano em se sacrificar caso lhe fosse apresentado um plano real, e ignorou a grandeza que resultaria ao nosso país caso liderássemos o mundo em energia limpa. George El Khouri Andolfato

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