UOL Notícias Internacional
 

23/07/2008

Novos avisos antifumo são quase visíveis em meio à névoa chinesa

The New York Times
Andrew Jacobs
Em Pequim
Um homem bem-vestido carregava um cigarro aceso no elevador de um prédio de apartamentos de luxo de Pequim, em uma manhã recente, e algo notável aconteceu. Uma outra passageira, uma mulher de meia-idade com um cão maltês preso ao pulso, acenou a mão em frente ao seu rosto e tossiu educadamente, o que teve o efeito desejado: o homem apagou o cigarro e pediu desculpas.

Shiho Fukada/The New York Time 
Duas mulheres chinesas fumam enquanto conversam em um restaurante de Pequim

Em um país onde uma entre quatro pessoas fuma, e onde os médicos acendem cigarros nos corredores dos hospitais e ministros da saúde dão baforadas durante reuniões, foi um sinal importante de que uma década de campanhas públicas sem entusiasmo contra o tabaco, elas parecem finalmente estar ganhando impulso.

Em maio passado, o governo municipal proibiu cigarros nas escolas, estações de trem, prédios da prefeitura e outros espaços públicos. Os atletas chineses não são mais autorizados a aceitar patrocínio de empresas de tabaco. A propaganda de cigarro em outdoors será restringida durante os Jogos Olímpicos. O primeiro-ministro Wen Jiabao declarou que os jogos serão "livres de cigarro".

Apesar das novas leis e proclamações, o impacto poderá passar desapercebido para visitantes não-fumantes que chegarem à capital no próximo mês. A maioria dos restaurantes permanece envolto em fumaça, o ar nos bares e clubes pode ser asfixiante e um ano de proibição de fumar nos táxis de Pequim teve pouco efeito. "Se eu apontar para o aviso de proibido fumar, o passageiro simplesmente rirá e continuará fumando", disse Hui Guo, um motorista de táxi que não fuma.

Autoridades do governo disseram que 100 mil fiscais foram enviados para multar os infratores, mas a multa de US$ 1,40 não oferece muita dissuasão, especialmente para os empreendedores novos ricos que ostentam orgulhosamente a marca Chunghua de filtro dourado, que custa US$ 10 o maço.

Li Baojun, o gerente de um restaurante popular na rua Ghost, explicou por que não ousa dizer aos clientes para pararem de fumar durante as refeições. "Meus clientes prefeririam passar fome do que não fumar, e meu restaurante fecharia", ele disse, com uma nuvem espessa pairando sobre os clientes. "Na China, você não pode beber, comer ou socializar sem um cigarro."

Cerca de 350 milhões dos 1,3 bilhão de habitantes da China são fumantes regulares, mais que toda a população dos Estados Unidos, e apesar de 1,2 milhão de pessoas morrerem a cada ano de doenças relacionadas ao fumo, há uma ampla crença de que os cigarros trazem alguns benefícios para a saúde. Um cigarro pela manhã é energizante, declararão muitos fumantes, e mesmo confrontados com argumentos científicos, eles citarão Deng Xiaoping, um fumante inveterado que viveu até os 92 anos, e Mao Tse-tung, que viveu até os 82 anos.

Os funcionários de saúde não são exatamente os melhores modelos: mais da metade de todos os profissionais de medicina chineses fuma, e uma pesquisa do governo de 2004, envolvendo 3.600 médicos, apontou que 30% não sabiam que o fumo podia levar a doenças cardíacas e problemas circulatórios. (Diferentemente dos cigarros em grande parte do mundo, as marcas chinesas não apresentam alertas de saúde nos maços, apesar disto estar previsto para mudar em 2011.)

Fumando com uma mão e empunhando um par de pauzinhos com a outra, Li Na, uma secretária de 26 anos, não sentia nenhuma culpa enquanto seu filho de 2 anos permanecia sentado ao lado dela no restaurante, envolto em uma nuvem azulada. "Se proteger em excesso seus filhos, eles não desenvolverão imunidade", ela explicou. "Respirar um pouco de fumaça quando são pequenos os deixa mais fortes."

Nas festas de casamento, a noiva freqüentemente distribui cigarros da marca Double Happiness (felicidade dobrada) para os convidados, uma tradição que visa aumentar sua fertilidade. Nos funerais, os chineses fumam abundantemente, e um punhado de cigarros é queimado no túmulo para atender ao desejo de fumar dos mortos.

Quando a polícia pára um motorista por infração de trânsito, um maço de cigarros, e não documentos, é a primeira coisa que sai do porta-luvas. E durante duras negociações, uma pausa para fumar é um lubrificante valioso para desemperrar um impasse.

"Os cigarros têm um valor extra na China, pois ajudam a melhorar muitas interações sociais", disse Tang Weichang, um pesquisador do Museu Chinês do Tabaco, em Xangai, uma instituição pró-fumo financiada pela indústria do tabaco chinesa.

Fumar aqui é principalmente um passatempo masculino - mais de 60% de todos os homens fumam em comparação a 3% das mulheres - e recusar um cigarro às vezes é considerado um insulto. Guo Fei, um não-fumante cujo restaurante da família permite fumar, disse que freqüentemente aceita um cigarro oferecido e depois o joga fora. "Rejeitar um cigarro os ofenderia", ele disse.

Os esforços sem entusiasmo do país para coibir o fumo são complicados pelo controle da indústria do tabaco pelo governo, que gera cerca de US$ 31 bilhões em impostos a cada ano, cerca de 8% da receita do governo.

A China produz um terço do tabaco do mundo, como mais de 400 marcas domésticas oferecidas nas onipresentes tabacarias de Pequim. Durante um debate sobre medidas antifumo no ano passado, Zhang Baozhen, um vice-diretor da Administração do Monopólio Estatal do Tabaco, alertou que "sem cigarros, a estabilidade do país seria afetada".

No início deste ano, as autoridades de Pequim anunciaram uma proibição do fumo em bares, restaurantes, casas de karaokê e de massagem, mas a proposta, que enfrentou oposição dos interesses empresariais, morreu rapidamente. A nova lei apenas encoraja bares e restaurantes a destinar áreas para não-fumantes, mas poucos restaurantes atendem.

Não ajuda o fato dos cigarros serem extremamente baratos. Algumas das marcas mais populares, como Big Harvest (grande colheita), Little Panda (pequeno panda) e Yellow Pagoda (pagode amarelo), custam menos de 50 centavos o maço. Com menos de 5% do mercado, marcas estrangeiras como Marlboro e Camel têm pouca penetração.

No Block 8, um clube noturno da moda em Pequim, cigarros ficam pendurados nos lábios de metade dos freqüentadores. (A outra metade parece estar dando uma pausa no fumo, com seus maços de cigarros de prontidão diante deles.) Emma Cheung, 32 anos, uma editora de revista de moda, disse que fumar a deixou magra e alimentou sua criatividade. Ela disse que apoiaria a proibição do fumo em recintos fechados, mas que não deixaria de fumar até que seus colegas de trabalho façam o mesmo. "Sim, sou viciada, assim como todos na redação", ela disse. "Se não fumássemos, eu não sei como conseguiríamos fazer as coisas." George El Khouri Andolfato

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