UOL Notícias Internacional
 

23/07/2008

Reconstruindo a tradição holandesa dos moinhos

The New York Times
John Tagliabue
Em Roterdã, Holanda
Os holandeses estão construindo moinhos de vento de novo.

Em toda a costa, em cidades portuárias como Roterdã, pode-se ver os moinhos: brancos, altos e finos como lápis, com suas três lâminas delgadas girando preguiçosamente à brisa do Mar do Norte.

Dirk-Jan Visser/The New York Times 
O moinho De Distilleerketel foi restaurado em Roterdã e usado para moer grãos

Esses moinhos geram eletricidade, é claro, em vez de moer grãos. O governo já construiu uma fazenda de moinhos enorme longe da costa, onde eles são inofensivos aos turistas, e há planos para a construção de uma segunda. Além disso eles estão construindo, e reformando, os moinhos atarracados, caseiros, que sempre adornaram o interior do país, e são tão sinônimos de sua identidade quanto as tulipas e o queijo Gouda.

"Pode ser que a nostalgia seja grande demais", diz Leo Endedijk, diretor do Dutch Mills, um grupo que apóia a restauração dos moinhos. No ano passado, o governo, preocupado com o fato de que um dos principais símbolos do país estivesse desaparecendo ou sendo negligenciado, aprovou um programa de US$ 80 milhões para restaurar 120 moinhos, dos cerca de 1.040 que ainda estão de pé. Isso criou uma demanda de trabalho para os restauradores de moinho que até então estavam tendo prejuízos.

"Temos empresas só para isso, fabricantes e restauradores de moinhos bastante especializados", disse Endedijk, num escritório sob a sombra do De Gooyer, um alto moinho do século 18 que hoje abriga uma destilaria famosa. "Eles não teriam a capacidade de restaurar 120 moinhos."

A necessidade de encontrar fontes renováveis de energia está levando os holandeses a construírem moinhos modernos, que Endedijk insiste que sejam chamados de turbinas, e não de moinhos. "Como organização, nós não trabalhamos com as modernas turbinas de vento", e respirou fundo, acrescentando, como se quisesse ressaltar a diferença entre o tradicional e o contemporâneo, que enquanto as quatro lâminas dos moinhos tradicionais giram contra o relógio, as três das turbinas de vento modernas giram no sentido horário.

Mas o rápido ritmo das mudanças na Holanda moderna está reavivando o interesse nos antigos moinhos. Conforme a imigração muda a face das cidades holandesas e a globalização espalha seu véu de uniformidade sobre a vida no país, muitos holandeses estão buscando suas raízes. "É um pouco de orgulho nacional", diz Lukas Verbij, cuja companhia, Verbij Hoogmade, é uma das líderes na construção e restauração de moinhos.

Parte do interesse renovado nos moinhos é impulsionado pela busca de alimentos e bebidas tradicionais. Patrick Langkruis, cuja padaria, Het Bammetje, tem 28 tipos diferentes de pão e 35 de roscas, usa apenas farinha moída por um moinho tradicional. "O sabor é mais encorpado, há mais sabor", disse. "Isso acontece também porque os grãos são moídos mais lentamente."

Seu fornecedor é Karel Streumer, que vêm moendo grãos normais e exóticos durante os últimos oito anos em seu moinho, De Distilleerketel, ou pote de destilar, em Delfshaven, em Roterdã. Ele usa uma tecnologia - pedras de moer gigantes e engrenagens de madeira enormes que fazem com que os visitantes se sintam dentro de um relógio imenso e ancestral - que não mudou nada desde que o moinho foi construído em 1727.

Streumer, 54, com sua cabeleira branca encaracolada sempre empoeirada com farinha, é um dos inúmeros empresários que estão assumindo moinhos reformados ou reconstruídos. Além do trigo, diz ele, contando seus produtos na mão enfarinhada, ele enumera grãos familiares como o milho, centeio e aveia, e alguns desconhecidos, como o sorgo, ou milo, e espelta (um tipo de trigo). Um dos seus clientes vem uma vez por mês desde Frankfurt para buscar 25 quilos de mashela, ou painço, que é bastante usado na cozinha africana.

Curiosamente, apesar de o 'revival' dos moinhos ser um retorno às raízes, muitos consumidores são nativos de vários outros países, disse Streumer, incluindo a Etiópia, Marrocos e Turquia. "80% dos meus fregueses não são nativos da Holanda", diz ele.

Um deles é Samson Tesfai, cujo restaurante, o Gosto da África, é especializado em pratos de sua nativa Eritréia, de onde ele fugiu em 1986 por causa da luta entre o país e a Etiópia. Toda semana, diz ele, compra painço, sorgo, milho moído e farinha de trigo de Streumer para usar nos pratos étnicos que ele prepara. "Não conseguimos achar isso em nenhum outro lugar", diz Tesfai, 43. "Mas aqui é um bom endereço, com um bom produto, então porque procurar outro?"

Entretanto, nem o aumento dos restaurantes étnicos, com o crescimento da imigração, nem o retorno aos costumes tradicionais por parte dos holandeses são suficientes para manter moleiros como Streumer no negócio. Sem uma multidão de voluntários que nos ajudam nos fins de semana, diz ele, o moinho não seria lucrativo. "É difícil fazer dinheiro suficiente para manter o moinho em bom estado e também para pagar funcionários", afirma. "Nós não somos profissionais."

Assim os moinhos continuam sendo uma questão afetiva, em vez de lucrativa. Exceto, é claro, para construtores como Verbij, 48. Ele representa a quarta geração de sua família a dirigir a companhia, que foi fundada em 1868 e emprega cerca de 20 trabalhadores de madeira e metais.

"Uma nova onda de construção vai chegar", disse Verbij, quando o governo liberar sua última rodada de subsídios. "Todos os donos de moinhos poderão concorrer", acrescentou. "É um tipo de loteria."

Ele acabou de terminar um projeto de US$ 1,9 milhão para reconstruir, com a tecnologia tradicional, um moinho na cidade de Soest que havia sido destruído em 1930. Os moradores da cidade eram tão ligados ao moinho, disse, que uma mulher doou o dinheiro da venda de sua casa.

Não apenas os holandeses, mas o mundo inteiro parece adorar um moinho de vento. Verbij construiu quatro no Japão, começando com um em Osaka, em 1989. E apesar do trabalho esmagador na Holanda, ele consegue encontrar tempo para trabalhar em três moinhos nos Estados Unidos, incluindo a restauração do gigante Moinho Murphy, no Parque Golden Gate, em San Francisco, um dos maiores moinhos do mundo, que foi construído em 1905 e está bastante deteriorado.

"É o nosso maior projeto", disse Verbij. "É gratificante ver todas essas pessoas felizes ao verem um moinho de vento." Eloise De Vylder

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