UOL Notícias Internacional
 

25/07/2008

Captura de Karadzic serve de pouco consolo em Srebrenica

The New York Times
Dan Bilefsky
Em Srebrenica, Bósnia-Herzegóvina
Fadila Efendik teve pouco tempo para se regozijar nesta semana com a captura de Radovan Karadzic, o homem que ela culpa pela morte de seu único filho: ela estava ocupada demais à procura das partes espalhadas e que faltavam do corpo dele.

Johan Spanner/The New York Times 
Sahbaz Mujcinovic e seus filhos visitam túmulo de parentes mortos em Srebrenica

A prisão na segunda-feira de Karadzic, o líder dos sérvio-bósnios no tempo da guerra que é acusado de ser o mentor do pior massacre desde a Segunda Guerra Mundial, trouxe pouco conforto para Efendik, ela disse.

Ela brincava nervosamente com seu lenço de cabeça e soluçava enquanto revirava inúmeras fileiras de lápides brancas aqui na quarta-feira, em uma área onde as forças paramilitares sérvias sob comando de Karadzic separavam homens e meninos que posteriormente seriam mortos em um frenesi que custou 8 mil vidas.

"Eu me sinto amarga porque demorou muito para encontrarem Karadzic", ela disse. "Restavam apenas duas semanas para o 20º aniversário do meu filho. Eu ainda não consegui encontrar o corpo dele. Eu encontrei alguns ossos do meu marido, mas não o suficiente para enterrá-lo inteiro. Karadzic pode ter sido encontrado, mas agora estou sozinha no mundo."

Quando foi divulgada na segunda-feira a notícia da prisão de Karadzic por crimes de guerra, centenas de muçulmanos foram às ruas chuvosas de Sarajevo, a capital bósnia. A cidade ainda carrega as cicatrizes do cerco brutal de três anos e meio, durante o qual Karadzic é acusado de ter autorizado que civis fossem mortos.

Alguns dançaram e cantaram "Esta é a Bósnia!" - a resposta desafiadora à meta de Karadzic de "limpeza étnica" dos muçulmanos bósnios do país e torná-lo parte da Grande Sérvia. Mais de 10 mil bósnios morreram em Sarajevo durante a guerra.

Mas aqui em Srebrenica, onde ocorreu o massacre, os moradores locais disseram ter pouca fé no processo legal que transcorrerá no tribunal da ONU em Haia, 13 anos após o início da caçada a Karadzic. Alguns temiam que a tragédia da qual é acusado de ajudar a orquestrar estava sendo ofuscada pela triste novela narrada nas primeiras páginas de todo o mundo, detalhando sua fuga como especialista em medicina alternativa, com uma amante, uma falsa família americana e um disfarce elaborado.

Karadzic foi indiciado por genocídio, juntamente com o comandante militar sérvio-bósnio, o general Ratko Mladic, pela mortes durante o cerco a Sarajevo e o massacre em Srebrenica, onde homens e garotos muçulmanos bósnios eram colocados em fila, mortos e enterrados em valas comuns. Mladic ainda está foragido.

Efendik disse que ainda há revolta contra a inação do Ocidente. Em particular, ela apontou para os 300 holandeses da força de paz no enclave protegido pela ONU, onde 40 mil buscaram refúgio antes as mortes. Ela disse que eles deviam ter feito mais para proteger os muçulmanos bósnios da ação das forças sérvias, que em alguns casos roubavam os capacetes e veículos dos soldados da força de paz para atrair e capturar as vítimas que tentavam fugir. Governos holandeses anteriores disseram que a responsabilidade pelo massacre era dos assassinos, não das tropas da ONU.

"A ONU não pôde nos salvar naquele momento. O que fará agora?" disse Efendik.

Ela recordou do dia em que as mortes começaram, quando as forças paramilitares sérvias separaram os homens das mulheres, colocaram as mulheres em caminhões abertos e as levaram para território controlado por muçulmanos. Efendik disse que o caminhão em que ela viajava foi parado ao longo da rota, onde as mulheres foram forçadas a assistir e fazer a saudação nacionalista sérvia de três dedos enquanto as forças sérvias matavam seus pais, irmãos e filhos diante dos seus olhos.

Apenas uns poucos dos 8 mil homens e meninos sobreviveram, alguns fingindo estar mortos e se escondendo sob os cadáveres. Testemunhas disseram que aqueles que restaram foram conduzidos para matas, campos de futebol, depósitos ou campinas, onde foram mortos. Muitos corpos foram posteriormente encontrados em valas comuns com suas mãos atadas às costas.

Hatidza Mehmedovic, presidente das Mães de Srebrenica, um grupo de apoio às vítimas, e que perdeu dois filhos, seu marido, seu pai e dois irmãos durante o massacre, disse que só poderá descansar quando o Ocidente levar à justiça Mladic, que ainda está foragido.

"Karadzic deu as ordens para Srebrenica, mas foi Mladic que as executou", ela disse. "Eu tenho satisfação com a prisão de Karadzic, mas não muda o fato de que Srebrenica continua a ser um espelho para a vergonha do mundo e sua inação. Todos aqueles que podiam ter impedido isto deveriam ver as sepulturas, para que isto nunca mais aconteça de novo."

Mehmedovic disse que tudo o que restou de seus dois filhos, Almir e Azmir, 19 e 21 anos na época de suas mortes, foi uma árvore que Almir plantou no quintal da frente dela e um caderno escolar que Azmir deixou em sua mesa. "Nós esperávamos pelo casamento de nossos filhos, o nascimento de nossos netos, mas agora tudo o que temos são sepulturas vazias."

Ela disse que a prisão de Karadzic era pouco consolo para milhares de famílias como a dela, que não puderam enterrar seus entes queridos porque os peritos só puderam recuperar parte de seus restos mortais. No ano passado, disse, ela encontrou o corpo mutilado de um de seus filhos, mas não soube identificar de qual era. Ela encontrou os ossos de seu marido, mas não o suficiente para enterrá-lo.

Avdo Suljic, 35 anos, um muçulmano bósnio desempregado que perdeu 200 parentes em Srebrenica, com idades variando de 16 a 85 anos, disse que retornou apenas recentemente, por temor de confrontar tantos fantasmas. Ele lembrou de ter conseguido escapar caminhando sete dias pelas montanhas, bebendo água da chuva e se escondendo. "Karadzic é um velho. A prisão dele não mudou nada para mim. Eu não tenho emprego e pouco futuro."

Suljic, que lutou contra as forças bósnias durante a guerra, disse que esta foi economicamente devastadora para a cidade. Ele contou que passava seus dias jogando e bebendo e apontou os dois pontos altos desde que retornou a Srebrenica há dois anos. "Eu encontrei as pernas de meu pai há dois anos, e há duas semanas encontrei sua cabeça". George El Khouri Andolfato

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