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25/07/2008

Europa ouve Barack Obama com atenção

The New York Times
Steven Erlanger
Do The New York Times
Em Paris
Para o senador Barack Obama, que só foi à Europa uma vez nos últimos quatro anos, ao fazer uma escala em Londres quando estava a caminho da Rússia, a resposta de muitos europeus à sua potencial presidência foi gratificante - emotiva, positiva, repleta daquela sensação de esperança que ele procura criar em relação a um Estados Unidos mais flexível e menos ideológico.

EFE 
Barack Obama discursa para cerca de 200 mil pessoas em Berlim

Já os governos e os políticos da Europa não estão tão certos quanto a isso.

Na noite da quinta-feira (24), em uma Berlim cintilante, Obama fez um discurso poético sobre os ideais europeus e a os pontos históricos em comum entre Estados Unidos e Europa.

Mas ele foi vago a respeito de questões cruciais como comércio, defesa e política externa, que atualmente provocam uma divisão entre Washington e a Europa, e que provavelmente continuarão dividindo os dois blocos, mesmo que Obama torne-se presidente - questões que vão da Rússia, Turquia, Irã e Afeganistão aos novos aviões de reabastecimento aéreo e aos "frangos clorados" norte-americanos, um problema que determinou uma proibição européia de 11 anos das importações de frangos dos Estados Unidos.

Os europeus admiram as habilidades políticas de Obama, e gostam da sua aparente disposição para respeitar pontos de vista opostos. Para muitos europeus, isso gera a perspectiva de uma ruptura drástica com as políticas do governo Bush, especialmente as de primeiro mandato, quando os Estados Unidos optaram por ignorar as Convenções de Genebra na Baía de Guantánamo, em Cuba, rejeitaram o acordo de Kyoto sobre o aquecimento global e invadiram o Iraque, iniciando uma guerra à qual alguns aliados europeus dos norte-americanos se opunham.

"Será que nós reconheceremos que não existe nenhum exemplo mais forte do que aquele que cada uma das nossas nações projeta para o mundo?", questionou Obama no seu discurso. E, a seguir, ele acrescentou: "Vamos rejeitar a tortura e defender o império da lei?". A grande multidão aplaudiu e agitou bandeiras norte-americanas.

"O fato positivo é que podemos esperar um indivíduo cujo raciocínio esteja em sintonia com o dos europeus", afirmou após o discurso Pierre Rousselin, editor de notícias internacionais do jornal francês "Le Figaro". "Porém, no que se refere às questões climáticas, à economia e à política mundial, ainda há dúvidas. Haverá uma diferença, mas Obama se deparará muito rapidamente com questões concretas, como o Afeganistão".

Eberhard Sandschneider, do Conselho Alemão de Relações Internacionais, afirmou: "O Obama que discursou hoje à noite não colocou todas as suas cartas sobre a mesa. Ele tentou usar o simbolismo de Berlim para indicar que, como presidente, irá se aproximar da Europa. Mas nas entrelinhas ele disse bem claramente que a Europa precisa fazer mais, especialmente quanto ao Afeganistão e ao Iraque".

Os europeus estão cautelosos em relação ao pedido de Obama por mais dinheiro para a defesa e mais soldados europeus para a luta contra o Taleban no Afeganistão. Eles temem que Obama não alterem aquilo que eles acreditam ser uma tendência ferrenha de Bush em favor de Israel.

E, apesar daquilo que parece ser a sensibilidade dele para com as preocupações européias, os europeus vêem Obama como uma pessoa não muito interessada pela Europa, ainda que ele seja o presidente do Subcomitê de Relações Exteriores do Senado, que é responsável pela região. Conforme observou o jornal "Le Monde" na quinta-feira, Obama em nenhum momento solicitou um encontro com o embaixador da União Européia em Washington.

Mas os líderes europeus estão particularmente preocupados com as posições de Obama quanto ao comércio internacional, que foram expressas durante a agressiva campanha pela indicação democrata contra a senadora Hillary Rodham Clinton, e que para muitos deram a impressão de apontarem para o protecionismo.

O comissário de Comércio da Europa, Peter Mandelson, pediu no mês passado a Obama e ao seu rival republicano, o senador John McCain, que rejeitem "os falsos confortos do populismo" e abandonem "o protecionismo e a retórica anti-comercial" que dominaram as primárias.

Mandelson observou que Obama prometeu renegociar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e se opôs a um novo acordo comercial com a Colômbia. "Uma crise da confiança norte-americana na globalização poderia fazer com que todo o processo perdesse o rumo", advertiu Mandelson.

No seu discurso Obama falou sobre a necessidade de que europeus e norte-americanos reconheçam os desafios comuns em um mundo pelo qual é muito fácil viajar, e que enfrenta os problemas do islamismo radical, da proliferação nuclear, das emissões de carbono, da violência, da pobreza e do genocídio.

Mas ele ofereceu um apoio menos entusiasmado ao livre comércio, em um momento no qual negociadores em Genebra, incluindo Mandelson, tentam romper um impasse que há sete anos não se consegue resolver por meio de negociações globais. Obama afirmou que deseja "construir a riqueza que os mercados abertos criaram", mas só se os acordos comerciais forem "livres e justos para todos", uma frase que indica fidelidade à posição de uma ala do Partido Democrata que mostra-se desconfiada em relação ao livre comércio.

Os europeus estão irritados com uma recente decisão do Pentágono de ordenar uma nova licitação para um contrato de US$ 35 bilhões para a aquisição de aviões-tanques de reabastecimento aéreo. Um consórcio liderado por europeus ganhou este lucrativo contrato, derrotando a Boeing, no início deste ano. Mas a Boeing e os parlamentares federais que apóiam a empresa conseguiram fazer com que a licitação fosse reavaliada e, finalmente, cancelada.

Além disso, os europeus estão insatisfeitos com uma legislação agrícola de cinco anos, no valor de US$ 289 bilhões, que mantém grandes subsídios para os produtores rurais norte-americanos, ainda que os europeus tenham se comprometido a rever os seus próprios subsídios como forma de estimular as negociação comerciais. Washington reclama de que a proibição européia da importação de frangos norte-americanos causou um prejuízo anual de US$ 200 milhões aos produtores dos Estados Unidos. Os europeus não gostam do banho de cloro utilizado pelos norte-americanos para desinfetar os seus frangos, um argumento que diz mais respeito ao paladar do que à segurança.

Obama ofereceu um maior apoio à grande experiência da Europa com o compartilhamento da soberania, a União Européia, que atualmente inclui 27 nações. "Neste século, precisamos de uma União Européia forte que intensifique a segurança e a prosperidade deste continente, e que ao mesmo tempo estenda uma mão para o exterior", disse ele, em uma alusão às grandes verbas para assistência estrangeira fornecidas pelos europeus.

Ele referiu-se várias vezes ao povo e aos valores "europeus", em um contraste com o governo Bush, que procura com freqüência recrutar países europeus individuais, como o Reino Unido e a Polônia, para apoiarem as suas políticas, sem se empenhar em cultivar laços com o conjunto mais amplo de nações que é a União Européia. Washington vê a União Européia como uma organização dominada pela França e pela Alemanha, e que não está muito disposta a seguir a política externa dos Estados Unidos.

Mas Obama também pediu uma Europa mais agressiva, que aja junto com os Estados Unidos na defesa comum. Isso é uma questão politicamente delicada por aqui, e que provavelmente irritará muita gente, independentemente de quem ganhe a eleição.

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, enviou mais tropas ao Afeganistão, mas enfrentou fortes críticas por ter feito isso. Os alemães continuam negando-se a transferir as suas tropas das províncias do norte do Afeganistão, que são mais seguras, para o sul do país, onde o Taleban está ressurgindo.

Hubert Vedrine, ex-ministro das Relações Exteriores da França, afirmou: "Não creio que a Europa seja uma questão de grande importância para Obama. O que importa para ele é o apoio que os europeus podem dar às políticas dele".

"Obama apelou para uma dose de demagogia pró-germânica sobre armas nucleares com o objetivo de se aplaudido", disse Vedrine. "Mas a solicitação feita por ele de mais envolvimento europeu no Afeganistão não será tão bem recebida".

Até mesmo com relação ao Irã, onde até o momento Washington e as principais nações européias têm cooperado no sentido de evitar que Teerã desenvolva uma arma nuclear, Obama recusa-se a descartar uma opção militar - uma posição que, segundo o "Le Monde", "é tida como improdutiva pela maioria dos europeus".

Mesmo assim, a disposição de Obama de engajar-se em algum tipo de negociação preparada com o Irã sintoniza-se bem mais com a posição européia do que as atitudes de Bush.

Nicholas Kulish, em Berlim, e Katrin Bennhold, em Paris, contribuíram para esta matéria. UOL

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