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26/07/2008

Iraque leva uma disputa com o Qatar à Justiça

The New York Times
Joshua Robinson e Ali Al Shouk
Em junho, apenas sete semanas após se tornar um cidadão do Qatar, um meio-campista brasileiro ajudou seu país adotivo a derrotar, e eliminar, o Iraque em uma partida das eliminatórias da Copa do Mundo.

Agora, quatro meses depois, sua participação naquele jogo continua a incomodar a federação nacional de futebol do Iraque, porque ele não poderia ter jogado. A federação iraquiana, citando as regras da federação internacional de futebol, acredita que o Qatar deve ser desclassificado e que o Iraque deve ser autorizado a avançar nas eliminatórias.

O jogador é conhecido como Emerson -apesar de não ser o Emerson que jogou pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo. A irregularidade de sua situação foi exposta em maio pela Associação Chinesa de Futebol, que denunciou à federação internacional, a Fifa, que ele já tinha, entre outras violações, representado o Brasil na categoria sub-20 em competições internacionais, o que o impedia de jogar pelo Qatar.

E, segundo as regras da Fifa, "qualquer equipe considerada culpada de colocar em campo um jogador irregular, deve ser desclassificada da partida em questão. A vitória e os três pontos resultantes serão concedidos à equipe adversária".

Mas a Fifa, apesar de reconhecer que Emerson não poderia ter jogado a partida contra o Iraque, se recusou duas vezes a mudar o resultado do jogo, ao determinar que o Qatar não foi cúmplice.

"O Comitê Disciplinar da Fifa examinou o caso e determinou que a Associação de Futebol do Qatar não foi responsável", disse um porta-voz da Fifa em uma mensagem por e-mail.

A Associação Iraquiana de Futebol planejava uma nova apelação nesta semana e levar o caso ao Tribunal Arbitral do Esporte, um painel internacional que tem a palavra final sobre assuntos legais no esporte. O tribunal disse na quinta-feira que recebeu um documento de apelação incompleto por parte da federação iraquiana e que espera receber a apelação completa na segunda-feira.

"É injusto e agora eles terão que decidir se nos classificaremos ou não", disse Hussain Saeed, o chefe da federação iraquiana. A federação de futebol do Qatar não pode ser contatada para comentários.

Nos últimos anos, a seleção iraquiana tem sido uma das histórias internacionais inspiradoras do futebol, servindo como um raro símbolo de unidade em um país profundamente dividido. Um ano após o país ser invadido, com o sistema esportivo deixado em pedaços pelo regime de Saddam Hussein, a seleção terminou em quarto lugar nos Jogos Olímpicos de 2004, em Atenas. Em 2007, o Iraque foi o surpreendente vencedor da Copa Asiática.

Mas 2008 não foi tão gentil. A federação iraquiana foi brevemente suspensa pela Fifa em maio, quando o governo do primeiro-ministro Nouri Al Maliki afastou os membros do comitê olímpico e de outras federações esportivas. Três dias depois, após o governo do Iraque abrandar sua posição, a suspensão foi retirada. Agora, o Iraque enfrenta uma batalha legal para reconquistar seu lugar no torneio classificatório para a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

"O futebol se tornou a única alegria para nós em nossa situação ruim, e aqueles 11 jogadores nos uniram de novo, nos fizeram rir e acreditar de novo que há uma luz no fim do túnel", disse Mohammad Nasir, um torcedor iraquiano de 27 anos de Bagdá. "Nós estamos rezando para que o Qatar seja desclassificado e possamos realizar nosso sonho de chegar à Copa do Mundo."

Mas a Fifa diz que a federação iraquiana não tem um caso, principalmente por não ter seguido o procedimento de apelação apropriado.

Em um fax datado de 2 de julho, a Fifa rejeitou a primeira apelação do Iraque porque os protestos em relação a irregularidades de jogadores nas eliminatórias devem ser impetrados 24 horas antes da partida em questão; o protesto do Iraque foi impetrado em 17 de junho.

"O argumento apresentado pela Associação Iraquiana de Futebol de que não tinha conhecimento prévio da situação irregular do jogador Emerson não é válido e deve ser rejeitado", a Fifa disse em um fax. "As regras são claras e não deixam qualquer espaço para interpretação ou arbítrio neste sentido."

A segunda rejeição ocorreu após o Iraque não ter pago a taxa de apelação de 3 mil francos suíços dentro do prazo exigido de 10 dias, enquanto cartas enviadas de um lado a outro disputavam o direito do Iraque de apelar. "Como em qualquer procedimento de apelação, as exigências formais devem ser atendidas para a que apelação seja admissível", disse um porta-voz da Fifa em uma mensagem por e-mail.

Entremeada na disputa está a carreira cigana de Emerson no futebol. Um dos mercenários do mundo do futebol, ele já jogou na América do Sul, Europa, Japão e Oriente Médio, com controvérsia sempre pairando sobre ele.

Como um adolescente promissor em uma terra cheia deles, Márcio Emerson Passos surgiu nas categorias de base do São Paulo Futebol Clube e, no final dos anos 90, subiu para a equipe principal. Em 1999, ele foi convocado para jogar pelo Brasil em torneios sul-americanos sub-20. Na época, seu passaporte listava sua data de nascimento como sendo 6 de setembro de 1981. Quando ele foi detido pela polícia brasileira em um aeroporto do Rio de Janeiro em 2006, o passaporte, juntamente com sua certidão de nascimento e até mesmo se nome, foram apontados como falsos.

Márcio Emerson Passos, nascido em 1981, também era Márcio Passos de Albuquerque, nascido em 1978. Qual é sua verdadeira identidade ainda não se sabe. Mas se realmente for Márcio Passos de Albuquerque, isto significaria que tecnicamente não poderia ter jogado pela seleção sub-20 do Brasil em 1999, já que teria 21 anos na época.

Em 2000, sob o nome de Márcio Emerson Passos, ele jogou pelo Sapporo FC, da segunda divisão japonesa, e em 2001 jogou pelo Kawasaki Frontale. Posteriormente naquela temporada, ele subiu para a primeira divisão com o Urawa Reds, onde permaneceu, com sucesso, até julho de 2005. A caminho do Qatar em 2006, onde estava jogando há um ano pelo Al Sadd FC, a polícia o pegou. Não se sabe qual foi o resultado final da investigação, mas Emerson foi autorizado a voltar ao Qatar.

Como alguns de seus vizinhos no Golfo, o Qatar passou muitos anos tentando desenvolver o futebol doméstico com jogadores veteranos e dinheiro do petróleo. Entre aqueles que jogaram profissionalmente no Qatar estão o atacante argentino Gabriel Batistuta, os campeões mundiais franceses Marcel Desailly e Franck Leboeuf, e Romário, a lenda brasileira.

Não é raro brasileiros aparecerem nas escalações das seleções de outros países. A seleção japonesa tem Alex, de Maringá; a Espanha tem Marcos Senna, de São Paulo; Portugal tem Deco, de São Bernardo do Campo; o México tem Zinha, de São Paulo; e a Tunísia tem Francileudo dos Santos, de Zé Doca. O presidente da Fifa, Joseph S. Blatter, tem criticado abertamente a questão da presença de estrangeiros nas seleções.

"A Fifa leva este assunto muito a sério", disse um porta-voz da Fifa.

O Qatar também. Segundo a Fifa, a federação do país impetrou uma ação contra Emerson. George El Khouri Andolfato

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