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28/07/2008

Amor Moderno - Rompimentos que ficaram na epiderme

The New York Times
Kerry Cohen
No início dos meus vinte anos eu fazia uma tatuagem cada vez que terminava um namoro. A primeira foi depois do fim de meu amor da faculdade, com o único, entre muitos rapazes, com o qual fiquei. Ele era a pessoa com a qual achei que me casaria, simplesmente porque não imaginava que alguém finalmente iria me amar e depois me abandonar. Eu era ainda virginal no que se referia a rompimentos.

Quando o nosso relacionamento terminou, deitei-me na minha cama, vazia e magoada, incapaz de chorar, revisando o namoro na companhia dos amigos. Disse a eles todas as coisas nas quais se acredita ao ser abandonado: ficarei assim para sempre, não sou digna de que alguém me ame e ninguém vai me amar de novo.

Até que uma amiga, exausta com o meu interminável sofrimento, sugeriu que nós nos tatuássemos. O irmão de um amigo, ela explicou, estava iniciando uma empresa de tatuagens no seu quarto no dormitório.

Talvez algumas garotas temessem a reação de seus pais a um ato desses, mas, no caso, minha mãe já havia trilhado essa estrada antes de mim e feito uma tatuagem uma atrás, quando eu estava com 10 anos.

Na verdade, ela me levou com ela. Fiquei olhando um corpulento barbudo usando uma limpa camiseta branca pressionar a agulha que zumbia em suas costas. Fiquei estudando o rosto dele, preocupado com os estremecimentos dela. Depois ele mostrou a tatuagem para mim: uma íris cor de alfazema, a flor favorita dela. Era uma coisa delicada, em um local onde só ela e o seu amado poderiam ver.

Eu sabia que meu pai a estava abandonando. Ele tinha um caso fazia anos, e a tatuagem - percebi já naquela época - era a forma encontrada por minha mãe de infligir algo a si mesma que era tanto doloroso como atraente, e todo dela.

Minha mãe e eu compartilhamos muitas inseguranças e desejos. Mas ao mesmo tempo em que ela tem uma tendência a ser reservada, retraindo-se - dos homens, de mim - eu passei minha juventude sempre indo para a linha de frente, procurando as pessoas, os homens e tentando torná-los meus.

É por isso que não queria que a minha tatuagem ficasse escondida como a de minha mãe, e sim exposta para que todos vissem. No meu entender, uma tatuagem é sexy porque todos podem ver que você optou pela dor. Uma tatuagem é imponente e poderosa; significa que você feriu a si mesma antes que qualquer outra pessoa a ferisse.

Na semana antes que eu e a minha amiga fizéssemos as tatuagens, submeti-me ao que chamei de "terapia de dor". Enquanto ela pesquisava imagens para sua tatuagem, eu usei um aparelhinho para arrancar os pelos das minhas pernas, para ver o quanto de dor poderia suportar. Descobri que agüentava um bocado.

Nós dirigimos da nossa cidade em Massachusetts até o local onde ficava a universidade do artista, em Rhode Island. Foi onde ele me aplicou no ombro uma imagem de amador de um enorme pássaro azul: o "thunderbird", um estereotipado símbolo indígena americano que eu havia escolhido descuidadamente.

Certo, eu havia estudado literatura indígena norte-americana, e gostei da aparência, um azul luminoso e vistoso. Mas na verdade eu era apenas uma garota judia privilegiada de Nova Jersey, sem qualquer conexão que fosse com aquele símbolo. Uma vez que aquilo não doeu muito, nem mesmo tanto quanto arrancar os pelos, então, pronto, tudo bem.

Era verão, e enquanto andava pelo campus, com minhas camisetas de alcinhas e o pássaro azul bem visível, senti que a vida voltava para mim. Eu passava pelos rapazes - e não é que havia mais rapazes! Como eu podia ter esquecido? Sorria sedutora, esperando que eles enxergassem a tatuagem. E logo estava recuperada, em busca do próximo rapaz que poderia me fazer sentir completa.

Fiz a segunda tatuagem quando meu relacionamento seguinte terminou; outro rapaz que amei - um músico cuja mente estava sempre nas composições e improvisos, e que se sentava com a guitarra no colo como se fosse um escudo. Nós ficamos juntos em um acesso de sensualidade; depois, para minha surpresa, eu queria mais de nosso relacionamento e ele, previsivelmente, queria menos.

Mesmo assim, ficamos juntos e, depois da faculdade, nós nos mudamos para cantos opostos do país. Entediada, triste e insatisfeita, eu o traí. Quando rompemos, rastejei de volta para a cama e não consegui sair durante dias. O vazio se parecia com veneno.

A mesma amiga com a qual eu fizera aquela primeira tatuagem horrorosa, que também havia mudado para outro lado do país, rapidamente sugeriu que nós fizéssemos outra. Ansiando por alívio, fui com ela até um sujeito chamado Diamond.

Dessa vez eu fiz uma no tornozelo. Escolhi a estampa na loja de Diamond. Era um belo desenho que mais tarde fiquei sabendo ser celta e, como o pássaro azul, não tinha nada a ver comigo. Eu ficava contente em saber que os homens olhariam para ela acima das minhas sandálias.

Alguns meses mais tarde, depois de uma nova série de casos de pequena duração, depois de mais desejos ardentes e entrega com todos os rapazes que eu convidei para minha cama, fiz minha terceira tatuagem.

Eu tinha certeza agora, de que era a única pessoa a pensar como eu, certa de que era a única moça que considerava cada rompimento como prova de sua falta de capacidade de ser amada, certa de que era a única com a qual nenhum rapaz jamais iria querer ficar.

A vergonha era imensa e eu sabia que os outros podiam ver isso naquela primeira tatuagem nas minhas costas, em sua forma apressada e feita sem cuidado. Ela era tão feia, tão constrangedoramente desconectada de mim, uma terrível e abjeta lembrança do meu desespero. Então decidi voltar ao Diamond e obrigá-lo a desenhar um corvo sobre o pássaro azul (os corvos são negros e eu precisava de algo negro para cobrir o azul do primeiro pássaro). Não deu certo por completo. Podia-se ver ainda que havia algo sob o corvo, mas pelo menos não dava para saber o que.

Fiz a quarta e última tatuagem depois do meu último rompimento, um rapaz que eu na verdade não amava, mas com o qual ficava por me identificar com a melancolia dele. Dessa vez fui eu que finalmente consegui terminar.
E agora fazer uma tatuagem tinha-se tornado um hábito. Não me fazia mais sentir que eu era sensual ou tinha o controle. Era simplesmente o que fazia, era parte da minha tríade de rompimento: cortar o cabelo, dormir com uma nova pessoa, fazer uma tatuagem.

Talvez porque estivesse agindo tão autenticamente, essa tatuagem foi ainda mais feia e estúpida: um urso no meu ombro. Eu ainda queria que as pessoas o vissem, ainda queria freneticamente que acreditassem que o urso me representava: sábia, forte, poderosa e feminina. Mas a imagem parecia terna e afetuosa, como um surrado ursinho da infância.

Muitos anos mais tarde, depois de mais autopunição em relacionamentos com homens, mais entregas de meu corpo, finalmente comecei a mudar, um processo tão dolorosamente lento que os amigos faziam de tudo tentando acelerar o amadurecimento: "Controle-se", eles apelavam. "Não se entregue tão facilmente. Faça com que ele a conquiste".

Eu olhava para as minhas tatuagens no espelho todas as noites ao me vestir para outra noitada na cidade. Eram tão feias; 1acabei me acostumando com elas, porém. Faziam parte de mim, desbotadas agora, não tão vistosas e atraentes, mas ainda lá, uma história.

Finalmente, encontrei o homem com o qual me casaria. Era um bom homem, gentil e divertido. E fomos amigos antes, o que significa que a paixão, quando chegou, foi tranqüila e serena, muito diferente das paixões dilacerantes do meu passado.

Durante o noivado, fui a um especialista para tentar remover o urso. Eu queria me livrar de todas as minhas tatuagens, mas isso era extremamente caro (mais de US$ 100 por sessão) e, como logo fiquei sabendo, extremamente doloroso, então me contentei em remover só o urso.

O procedimento foi o seguinte: a simpática mulher colocou seus óculos protetores, deu-me um par de óculos para proteger os meus olhos, depois empunhou um laser contra o urso, mirou e puxou o gatilho, como se estivesse em um stand de tiro. Cada som de clique parecia um golpe com uma faca coberta de molho picante.

Eu cerrei os dentes durante os dois minutos, tentando não gritar, e depois sai com uma receita de antibiótico para ajudar a tratar o local. Um mês mais tarde a pele sarou, mas a imagem permanecia: esmaecida, fantasmagórica. E ficaria assim, porque depois de quatro sessões, meu dinheiro acabou.

Meu noivo faz piada, dizendo que mal se vê o urso.

Mas afinal, é importante que não tenha conseguido me livrar delas? Talvez eu não me importe. Talvez as tatuagens devessem ser uma parte permanente do meu todo, algo que supostamente aprendi a aceitar, exatamente como estava aprendendo a aceitar o meu passado, um processo que sabia ser prolongado e que pode jamais ter fim.

De qualquer forma, eu segui adiante. Meu marido e eu estamos casados há sete anos e temos dois meninos, de cinco e dois anos. Outro dia, depois de sair do chuveiro, enrolada em uma toalha, meu filho mais novo entrou, empurrando a porta.

"Olá mamãe", ele disse.

"Ei, meu macaquinho", eu respondi.

Ele se aproximou, com um olhar estranho. Depois de um momento vi para onde ele estava olhando.

"O que é isso?", ele indagou, apontando para o corvo no meu ombro.

"É o pássaro da mamãe", falei.

Ele ficou olhando mais um pouco. "E que é isso?", repetiu, evidentemente insatisfeito com a minha resposta.

"É a tatuagem de um pássaro," disse. "A mamãe fez isso quando era jovem e não escolhia as melhores coisas para fazer," eu poderia ter continuado, mas parei lembrando-me de que ele tinha apenas dois anos.

"O que o passarinho está fazendo?" - ele perguntou, sorrindo.

"Só está parado aí", disse, "pousado no ombro da mamãe".

Ele inclinou a cabeça. "OK, mamãe".

OK. Claudia Dall'Antonia

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