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28/07/2008

Dança erótica vira exercício da moda na China

The New York Times
Jimmy Wang
Em Pequim
Vestida com botas de couro na altura dos joelhos, shorts justos e um sutiã esportivo, Xiao Yan fez uma pose a meio metro do chão, com o rosto brilhando de suor e os braços contraídos conforme ela se pendurava no poste vertical.

Shiho Fukada/The New York Times 
Como atividade esportiva, dança erótica ganha cada vez mais adeptas na China

"Ficar agarrada é a parte mais difícil", disse. "É muito fácil escorregar para baixo."

Xiao, 26, que trabalha como gerente de um supermercado, é uma das inúmeras mulheres que estão experimentando a mais nova e controversa atividade esportiva da China: a dança de poste.

"Eu fazia aulas de aeróbica comum, mas era chato e monótono", disse Xiao. "Então resolvi tentar a dança de poste. É uma atividade social.
Conheci muitas garotas aqui que agora são minhas amigas íntimas. E gosto do fato de que faz com que eu me sinta sexy."

Atividade comum nos clubes noturnos, realizada principalmente pelas strippers nos Estados Unidos, a dança de poste - nesse caso, com roupas - está ganhando espaço no mercado de exercícios físicos da China, com um número cada vez maior de academias e escolas de dança oferecendo aulas da modalidade.

A mulher que diz ter levado a dança de poste para a China, Luo Lan, 39, é de Yichun, uma pequena cidade na província de Jiangxi, no sudeste da China. Seus pais são professores universitários de física.
"Eu não sou boa com a ciência como meus pais; sou a ovelha negra da família nesse aspecto", diz ela.

Luo diz que trabalhou em 20 ocupações diferentes - entre elas secretária, vendedora, dona de restaurante e tradutora - antes de decidir parar um pouco. Ela viajou para Paris em 2006 durante as férias. Foi lá que ela conheceu a dança de poste. "Entrei em um bar, e havia uma mulher dançando no palco", disse. "Achei aquilo bonito."

Luo, que logo descobriu que as aulas de dança de poste eram populares nos Estados Unidos como atividade física, percebeu que ela podia eliminar os aspectos sombrios da dança erótica e transformá-la em uma atividade mais aceitável para as mulheres comuns da China. Sua iniciativa pode ser uma verdadeira revolução chinesa das academias.
Trata-se de uma atividade que permite às mulheres permanecerem em forma e expressarem sua sexualidade com um grau de abertura e liberdade sem precedentes.

Mas ela está bem consciente dos desafios em uma sociedade onde os valores tradicionais dizem que as mulheres devem ser leais, fiéis e vestirem-se com modéstia.

Quando voltou a Pequim, Luo investiu pouco menos de US$ 3 mil de suas economias para abrir a Escola de Dança de Poste Lolan. Ela colocou anúncios em um jornal sobre estilo de vida e pediu aos amigos para ajudarem no boca-a-boca.

Aos poucos, as mulheres foram ver do que se tratava.

"As pessoas aqui nunca viram uma dança de poste, e por esse motivo, não a associam com o striptease ou com mulheres de má reputação", disse Luo. "Eu sabia que se conseguisse dar às pessoas uma primeira impressão positiva de uma atividade limpa, divertida e social, elas não iriam apenas aceitá-la, mas sim adotá-la."

Não demorou muito para Luo ser contatada por várias revistas. Em março de 2008, a TV Hunan, uma rede de televisão nacional, convidou-a junto com um grupo de alunas para se apresentarem num programa de auditório.

"A maior parte do público não tinha idéia do que se tratava", disse Hu Jing, 24, instrutora na Escola Lolan. "Eles só acharam divertido e aplaudiram no final."

Desde a exibição do programa, a dança de poste como exercício físico se espalhou pela China. A escola agora tem cinco estúdios com planos de abrir o sexto esse ano. Uma escola de dança de poste rival, Hua Ling, abriu seis meses depois da Escola Lolan.

A transição da dança de poste para o cenário das academias foi, no entanto, tumultuada. Muitos chineses que desaprovam os movimentos sensuais da atividade, consideram-na indisciplinada e imoral.

"Há cinco anos, isso não teria sido permitido", diz Zhang Jian, 30, gerente de uma empresa de decoração. "Acho que isso é apenas uma moda passageira, que na minha opinião não é apropriada para as mulheres."

Luo disse que recebeu vários trotes e muitas críticas. "Fui contatada por muitas pessoas que não gostam do que nós estamos fazendo", disse.

Mas as mulheres que adotam a dança de poste como exercício são uma amostra da juventude urbana, com valores diferentes dos de seus pais.

Apesar de a China não ter uma religião nacional, o estudo do confucionismo e do taoísmo, duas filosofias conflitantes que permeiam o pensamento moderno chinês, é obrigatório no sistema educacional chinês. Enquanto o confucionismo enfatiza os ganhos e a prosperidade, o taoísmo enaltece o poder invisível da humildade e, em alguns casos, de ser uma pessoa mediana aos olhos dos outros.

Apesar da aluna de dança de poste Jiang Li, 23, estudar ambas as filosofias na escola, ela diz que não conseguiu adotar nenhuma.

"Muitas pessoas esperam que as mulheres chinesas sejam submissas e fiéis, que devemos nos casar cedo e tomar conta dos filhos", diz. "Mas eu não penso assim - quero ser independente. Estudo dança tradicional chinesa há muitos anos, mas isso é totalmente diferente. Sinto-me no controle quando pratico. Se eu aprender bem, acho que posso ser uma grande estrela. E eu quero ser uma estrela." Eloise De Vylder

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