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28/07/2008

Museu oferece à desolada Gaza uma visão de seu fascinante passado

The New York Times
Ethan Broner
Da Cidade de Gaza (Faixa de Gaza)
Poderia parecer um ato condescendente de um homem abastado que foge da miséria que existe em torno dele. Mas quando Jawdat N. Khoudary inaugurar o primeiro museu de arqueologia em Gaza este verão, será uma forma de patriotismo palestino, mostrando o quanto essa faixa costeira, cada vez mais empobrecida e isolada sob o domínio dos islamitas do Hamas chegou a ser um próspero e importante ponto multicultural.

A mostra está em um impressionante muro feito em parte de pedras de casas antigas, dormentes descartados de uma antiga ferrovia e luminárias de bronze e colunas de mármore descobertas por pescadores de Gaza e operários de construção.

E embora possa trazer coisas bastante comuns em qualquer outra parte - pontas de flechas, âncoras romanas, vasos da Era do Bronze e colunas bizantinas - a vida hoje em dia está tão soturna em Gaza que o museu, com seus lampejos da rica história que se vê quando se olha para o passado, parece de certa forma fascinante.

"A idéia é mostrar nossas profundas raízes em muitas culturas em Gaza," disse Khoudary, sentando no viçoso jardim lotado de antiguidades de sua casa na Cidade de Gaza, a poucos quilômetros do museu. "É importante que as pessoas percebam que tivemos uma boa civilização no passado. Israel tem legitimidade de sua história. Nos tempos, também."

O mais antigo sítio arqueológico de Gaza data de meados do quarto milênio A.C., quando a região fazia parte da rota de caravanas que ligava a Península Arábica ao Chifre da África via Mar Vermelho, em direção ao Mediterrâneo.

A história oferece não só legitimidade, claro, mas também um modelo para lidar com o presente. O local está sob cerco israelense e internacional destinado a enfraquecer o Hamas, visto no Ocidente como um grupo terrorista. Mas essa não é a primeira vez que seus habitantes enfrentam situações difíceis.

"Gaza sofreu mais que a maioria das cidades," observa Khoudary. "Houve o cerco de Alexandre, o Grande, dos persas e dos britânicos. No fim das contas, este cerco acabará sendo uma nota de pé de página."

Sua coleção inclui milhares de itens. Alguns dos mais extraordinários, porém, não serão expostos agora. Incluindo uma estátua de Afrodite com grandes seios usando uma roupa diáfana, imagens de outras deidades antigas e lamparinas de óleo com aparência de menorás (candelabro com sete braços).

Indagado por que, Khoudary observa o domínio do Hamas e a devoção conservadora da população e diz, simplesmente, "quero que meu projeto tenha sucesso".

Ele levou, no entanto, um ministro do governo do Hamas para ver a exposição recentemente e apontou para dois crucifixos em colunas bizantinas para garantir que não tinha objeções. A lacuna entre o que ele chama de provincianismo da Gaza de hoje em dia e a mentalidade cosmopolita de seu passado é o que mais o entristece, afirma.

Proprietário de uma importante construtora, Khoudary, 48, é um defensor da coexistência e da cultura global e colecionador há 22 anos, quando se deparou com uma moeda islâmica de vidro e se encantou com sua ligação a uma era anterior. Desde então, ele pede a todos os seus operários nas construções que preservem tudo que encontrarem nas escavações, para poder buscar seus tesouros. Pescadores locais sabem que qualquer coisa antiga ou que surja nas praias conseguirão um preço decente de Khoudary.

Em 2005, ele convenceu Mahamoud Abbas, o presidente palestino, a deixá-lo instalar um museu arqueológico com ajuda suíça. Um local foi escolhido e a exposição foi apresentada no Museu de Arte e História de Genebra. Atraiu grandes multidões.

Depois, em junho de 2007, mais de um ano depois que o Hamas conquistou a maioria parlamentar, a organização e o partido Fatah, de Abbas, tiveram batalhas de rua que acabaram na expulsão dos dois últimos de Gaza.

Então, com o projeto em suspenso e a cidade isolada por Israel, Khoudary decidiu seguir por conta própria. Construiu um restaurante e café (com espaço para hotel) e na mesma propriedade, acrescentou o museu. Chamou o complexo, no litoral próximo ao campo norte de refugiados Shati, de Cidade de Gaza El Mat'haf, que em árabe quer dizer museu. "As pessoas daqui não ouvem essa palavra", diz ele. "Quero que ela faça parte do vocabulário".

Com muito pouco para se fazer na região - as fábricas estão fechadas e a economia está estagnada - é provável que El Mat'haf atraia multidões.
O Museu de Israel em Jerusalém acaba de publicar um catálogo sobre a escavação em Gaza de uma equipe de Israel nas décadas de 1970 e 1980. Liderada pela grande dama da arqueologia israelense, Trude Dothan, a escavação em Deir Al-Balah realizou-se sob guarda armada e foram encontradas jóias de ouro, vasos de alabastro e, mais importante, caixões de antropóides, todos os quais estão agora no museu. Parte dos artefatos ficou sob posse de Moshe Dayan, o ministro da Defesa da época, que era um devoto da arqueologia e usou o seu cargo para preservar as peças. Sua coleção agora também está no Museu de Israel.

Ao saber de El Mat'haf, Dothan disse que há muito desejava que houvesse um museu em Gaza para o qual ela pudesse fazer escavações. Khoudary disse que visitou o museu em Jerusalém e que esperava que parte da coleção de Gaza pudesse voltar "depois que tivermos um governo qualificado e a capacidade de proteger nossa herança". Ele disse que "Dothan nos fez um favor porque hoje tudo estaria desaparecido ou destruído."

James S. Snyder, diretor do Museu de Israel, disse que se houver um estado de natureza pacífica na Faixa de Gaza e um museu lá, "não vejo razão para que não se possa arranjar um empréstimo de longo prazo."

Tais conversações cordiais entre israelenses e cidadãos de Gaza são raras hoje em dia. Segundo Snyder, sob o atual fechamento de Gaza pelos israelenses, que impede a saída de todos, menos em casos de emergência humanitária, "existe a perversidade de que os cidadãos hoje não podem ver sua própria herança em nosso museu". Claudia Dall'Antonia

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