UOL Notícias Internacional
 

28/07/2008

Slow Food saboreia seu grande momento

The New York Times
Kim Severson
No final do verão americano, a organização gastronômica chamada Slow Food USA dará uma pequena festa para mais de 50 mil pessoas em San Francisco.

Para preparar as coisas, o prefeito deixou o grupo arar o gramado diante da Prefeitura e plantar uma horta de mil metros quadrados. Ele será o centro do festival, chamado ambiciosamente de Slow Food Nation.

Eventos ocorrerão por toda a cidade no fim de semana do Dia do Trabalho (primeira segunda-feira de setembro nos Estados Unidos). Quinze arquitetos foram voluntários para construir pavilhões elaborados dedicados a coisas como picles, café e salame. Salões de palestras foram reservados, políticos foram convidados e jantares estão sendo planejados. Quase US$ 2 milhões foram arrecadados.

E pela primeira vez em seus 10 anos de história, a organização notoriamente melindrosa aceitou parceiros corporativos como a Whole Foods, Anolon e a Food Network.

Os fiéis da Slow Food dizem que querem que o festival seja o Woodstock da comida, um evento profundo onde um grande número de pessoas verá que alimentos deliciosos, produzidos de forma sustentável, podem ser um prisma para mudanças sociais, ecológicas e políticas.

Eles também perceberam que pode ser sua melhor chance de provar que a Slow Food, como movimento, não se trata apenas de uma grande degustação de vinhos com queijos realmente difíceis de encontrar para a qual você não foi convidado.

O braço americano do movimento Slow Food, que teve início na Itália em 1986, tem uma tendência de polarizar as pessoas. Quando chegou aqui em 1998, algumas pessoas foram atraídas por sua filosofia, enquanto outras foram afastadas pelo que consideravam elitismo e senso de importância inflado.

Os líderes do Slow Food, principalmente a chef Alice Waters entre eles, se irritaram com as críticas. Mas a maioria reconhece que a organização não foi bem traduzida para o público americano. Como resultado, ela nunca teve tanta importância cultural ou política quanto o grupo original na Europa.

Agora, eles dizem, a organização está se reformulando. E o festival em San Francisco será o local perfeito para exibir uma Slow Food USA mais inclusiva e politicamente sintonizada.

"Eu não sei se será o evento jovem, estilo Woodstock, que desejam, mas certamente tem potencial", disse Corby Kummer, um colunista de gastronomia, autor de livros e membro da diretoria da Slow Food. "Será um fracasso se apenas comparecerem pessoas bem-vestidas com mais de 35 anos da Área da Baía, a tratando como se fosse outro Mercado dos Produtores da Ferry Plaza" -uma referência ao local onde os moradores de San Francisco bem-alimentados e produtores rurais célebres conversam sobre queijos e pêssegos perfeitos.

Carlo Petrini, um italiano carismático que escreve sobre gastronomia e vinhos, iniciou o Slow Food com amigos que compartilhavam sua noção de que a política de esquerda e o prazer gastronômico podiam ter um casamento feliz. A organização internacional cresceu para 86 mil membros e se tornou uma indústria na cidade de Petrini, Bra, na Itália. Existem restaurantes Slow Food, uma universidade e um hotel. É possível comprar um colete de cashmere para caçar trufas, com o logotipo da Slow Food bordado, na sede em Bra.

O orçamento do grupo é de cerca de US$ 39 milhões e subsidiado pelo governo italiano. Grande parte de seu trabalho envolve identificar alimentos tradicionais, como mel branco etíope e limão sfusato amalfitano, e conceber formas de ajudar as pessoas que os produzem.

Sua filosofia -que a comida envolve muito mais do que apenas cozinhar e comer- é frequentemente martelada por Petrini em suas freqüentes viagens ao redor do mundo.

"Eu sempre digo que um gastrônomo que não é um ambientalista é simplesmente um idiota, e digo que um ambientalista que não é um gastrônomo é simplesmente triste", ele disse por meio de um intérprete em uma entrevista no ano passado.

No final dos anos 90, as idéias de Petrini foram rapidamente abraçadas por pessoas em ambas as costas americanas, que eram fãs dos mercados de produtos direto do produtor, alimentos locais e de uma forma mais lenta, mais meditativa de vida. Waters, que passou mais de duas décadas defendendo alimentos orgânicos deliciosos e os pequenos produtores rurais que os cultivavam, estava entre eles.

"Eu o escutei pela primeira vez e simplesmente me apaixonei", ela disse. "Eu pensei, oh, meu Deus. Somos almas gêmeas."

Grande parte dos feitos da Slow Food em seus primeiros anos nos Estados Unidos foram intelectuais. Ela conquistou facilmente novos convertidos, como os autores Eric Schlosser e Michael Pollan para seu rol de críticos do status quo na comida americana.

"A Slow Food surgiu como uma forma de influenciar o sistema por meio de pequenos grupos esclarecidos", disse Bill Niman, um produtor rural da Califórnia. "Para mim, qualquer esforço ou movimento que ajude a motivar as pessoas a perguntarem de onde vem isto e onde foi plantado é muito importante."

Mas a Slow Food também conquistou críticos rapidamente. Aqueles que abraçaram o modelo eurocêntrico da Slow Food foram vistos por alguns como esnobes e facciosos.

"Eu produzo slow food. Por que deveria me juntar?" disse John Scharffenberger, que ganhou nome produzindo vinho espumante e chocolate no norte da Califórnia. "Mas acho que é uma forma muito boa de promover comida italiana."

Fora dos restritos círculos culinários de San Francisco e Nova York, as pessoas pareciam ter dificuldade em entender do que exatamente a Slow Food se tratava. Alguns produtores rurais viam seus membros como diletantes que viajavam pelo interior "descobrindo" porcos Barkshire, tomates não híbridos e velhos pomares.

Steven Shaw, um escritor de gastronomia e fundador do site eGullet, disse que a Slow Food teve sucesso no início porque misturava hedonismo com uma agenda política esquerdista. Mas, ele argumenta, suas fortes posições antitecnologia, antiglobalização, são ignoradas pelo membro médio.

"A maioria das pessoas que conheço que vão a eventos Slow Food é o equivalente culinário dos rapazes na faculdade que vão a protestos para conhecer garotas", ele disse. "Eles não dão a mínima para a ideologia."

Na primavera, vários blogueiros se enfrentaram em torno das acusações de que a organização internacional era nada mais do que uma coleção de teóricos de comida do jet set. Brahm Ahmadi, o diretor executivo da People's Grocery, uma organização comunitária que trabalha para enviar alimentos saudáveis para as áreas pobres de Oakland, Califórnia, escreveu em seu blog que a Slow Food carecia de "diversidade econômica e racial".

Katrina Heron, a presidente do conselho que está organizando o festival Slow Food Nation, disse que a Slow Food USA está tentando se tornar mais inclusiva e desenvolver uma identidade distinta do grupo europeu.

"Ele teve uma chegada desajeitada no início", ela disse. "Ocorreu uma espécie de problema de tradução."

Heron acredita que a Slow Food Nation será um momento de virada. Os líderes do festival cortejaram Ahmadi e outros a conduzirem painéis sobre fome, raça e pobreza. O grupo também contratou um "diretor de justiça" para tornar a conferência mais diversa.

Ela e outros líderes do Slow Food dizem que muitos dos 200 "convivias" nos Estados Unidos -o termo usado pela organização em vez de divisão local- estão realizando trabalho importante em locais onde pessoas de mentalidade semelhante não teriam se encontrado caso contrário. Há cinco divisões em Iowa, por exemplo, incluindo uma em Des Moines iniciada por Neil Hamilton, um cavalheiro agricultor e diretor do Centro de Lei Agrícola da Escola de Direito da Universidade Drake.

"Os mercados de produtos direto do produtor e os produtores nem sempre são muito organizados", ele disse. "A Slow Food fornece um local de organização para todas estas pessoas se unirem e ajudarem umas às outras."

A Slow Food tem ajudado a construir pequenas hortas em escolas, e saiu em ajuda à Louisiana pós-Katrina, arrecadando cerca de US$ 50 mil para ajudar os restaurantes a reabrirem, os agricultores a replantarem e os pescadores de camarão a comprarem novos equipamentos, entre outras coisas. O principal mercado de produtos direto do produtor de Nova Orleans reabriu dois meses após a tempestade, em grande parte graças ao esforço dos membros do Slow Food.

A Slow Food também ajudou a popularizar o termo "heritage" (patrimônio), atualmente usado para descrever certas raças de porcos e até mesmo frutas. O esforço do grupo em 2001 para ajudar um criador a vender seus perus raros, tradicionais -ele os chamava de perus "heritage"- se tornou uma causa célebre no Dia de Ação de Graças daquele ano.

Mas os líderes sabem que a Slow Food USA deve fazer mais caso queira se expandir além dos 16 mil membros que possui no momento e desenvolver força política suficiente para ajudar a reformar o sistema alimentar.

"Mudar os hábitos de consumo e fazer as pessoas pensarem de forma diferente a respeito de onde vem sua comida é uma coisa", disse Heron. "Mas este não é o evento principal. O sucesso da Slow Food Nation depende dos líderes políticos tratarem desta questão."

Enquanto isso, a própria Slow Food USA está tentando mudar, disse Erika Lesser, a diretora-executiva da organização nacional, cuja sede fica no Brooklyn.

"Este é realmente um momento de amadurecimento para nós, onde estamos tentando definir quem somos nos Estados Unidos", ela disse.

Para isto, a Slow Food USA está adicionando divisões em faculdades, reorganizando sua estrutura interna e abandonando o termo "convivium" pelo mais americano divisão local.

Até mesmo Waters, que é vice-presidente do conselho internacional da Slow Food, percebe que sua causa amada precisa trazer novos convidados à mesa.

E parece que muitos deles comparecerão no fim de semana do Dia do Trabalho. "Tudo o que posso dizer é, há realmente muitas pessoas bonitas vindo para torná-la maior do que a soma de suas partes", disse Waters. "Se 60 mil pessoas vierem, estivermos todos diante da Prefeitura e for uma noite bonita, bem, quem sabe o que pode acontecer." George El Khouri Andolfato

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