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29/07/2008

Antes dos Jogos, Pequim esconde partes de si mesma

The New York Times
Jake Hooker
Em Pequim
Os turistas que saírem pelo portão oeste do Templo Celestial, no próximo mês, provavelmente não notarão a casa de Song Wei do outro lado da rua. Nem os espectadores ao longo da rota do ciclismo olímpico provavelmente pararão no restaurante de Sun Ruonan, ao lado.

Doug Kanter/The New York Times 
Como parte de limpeza, governo chinês esconde atrás de muro partes "feias" de Pequim

Song e Sun vivem no eixo central de Pequim, em bairros que foram eviscerados para fazer com que a cidade parecesse limpa e arrumada para os Jogos Olímpicos. Ambos se mantiveram firmes apesar da pressão para se mudarem. Eles passarão as Olimpíadas atrás de telas ou muros erguidos para manter suas propriedades fora de vista.

Um véu de plástico verde agora cobre o restaurante de Sun. A casa de Song e várias lojas que ele aluga para trabalhadores migrantes foram cercadas por um muro de tijolos de 3 metros de altura na semana passada, parte de uma campanha cosmética de último minuto. As autoridades consideravam seu pequeno bloco comercial uma coisa feia.

"Nós todos apoiamos os Jogos Olímpicos", disse Song, 42 anos, que nasceu em Pequim e aluga quartos para duas famílias de migrantes que abriram lojas. "Mas por que construíram um muro à nossa volta?"

Um aviso misterioso apareceu ao lado das lojas em 17 de julho, datilografado em papel branco e não assinado. Ele dizia: "De acordo com o pedido do governo de corrigir o ambiente olímpico, um muro precisará ser construído ao redor do Nº 93 da Avenida Tianquiao Sul". Na manhã seguinte, vários pedreiros apareceram com escolta policial.

Agora um muro esconde o pequeno reduto comercial onde várias famílias de migrantes vendem meias, bolsas, calças, macarrão e kebabs preparados em uma sopa picante. Uma família atrás do muro vende sorvete, picolés e bebidas geladas em um carrinho.

Zhao Fengxia, uma vizinha que é dona de três lojas, disse acreditar que as autoridades e empreendedores imobiliários estão usando a Olimpíada como desculpa para arruinar seus negócios e pressionar para que se mudem.

Feng Pan, 18 anos, que ajuda seus pais na loja de macarrão, aceitou a versão oficial com menos crítica. "Nós influenciamos a aparência da cidade", ela disse.

Muitas cidades buscaram mudar sua imagem quando receberam eventos mundiais como os Jogos Olímpicos. Pequim está polindo uma das reformas mais caras do mundo com uma camuflagem. Ao longo do eixo central da cidade, que vai do Portão Yongdingmen, ao norte, até a Torre do Tambor, as autoridades estão fazendo o máximo para dar à cidade uma nova face, ou pelo menos esconder qualquer coisa que tenha a velha face. Pequim gastou US$ 130 milhões para reformar prédios, muitos deles templos ao longo do eixo de oito quilômetros, segundo o birô de relíquias culturais da cidade.

O Estádio Olímpico foi construído em um prolongamento ao norte do eixo tradicional - um sinal da importância histórica do evento. Nos amplos bulevares que levam ao estádio, barreiras aos veículos foram montadas e flores, grama e árvores foram plantadas.

A parte sul do eixo provou ser mais difícil de embelezar. Ela corta os bairros densamente povoados ao sul da Praça Tiananmen, que são lar de muitos dos migrantes e trabalhadores pobres da cidade. Para esconder os bairros que foram demolidos para novos empreendimentos imobiliários nos últimos anos, ou qualquer coisa que o governo considere feio, as autoridades levantaram muros.

Song, sua esposa e filha de 8 anos agora vivem atrás de um.

Eles moram aqui desde 1994, disse Song, alugando suas lojas para as famílias das províncias.

Eles vivem em cômodos apertados. No quarto dos Songs mal cabe a cama de casal no qual dormem o casal e a filha.

Dois pássaros moram em gaiolas penduradas ao lado da porta. Os pássaros, estorninhos marrons com penas escuras e bicos laranjas, podem imitar a voz humana. Song ensinou aos pássaros um dos poemas mais famosos da Dinastia Tang. Em intervalos de poucos minutos, eles dizem trechos do poema: "O sol branco desce sobre as montanhas" ou "o Rio Amarelo flui para o mar".

Atrás do quarto há uma paisagem lunar de mato e entulho do que costumava ser uma favela. A casa de Song sobreviveu enquanto a prefeitura demolia o bairro historicamente pobre de Tianqiao e o transformava com shopping centers, ruas mais largas e subdivisões. A situação de Song é familiar na dinâmica desta cidade em mutação. Os empreendedores imobiliários querem que ele se mude, mas ele está se segurando em busca de mais dinheiro.

Em 17 de julho, vários operários deixaram uma pilha de tijolos vermelhos na calçada. Na manhã seguinte, eles voltaram, usando sandálias e chapéus de palha, acompanhados pela polícia e autoridades locais. Eles começaram a assentar os tijolos às 8h30 da manhã.

O muro não subiu fácil. Após um breve empurra-empurra, se formou uma pequena manifestação. Song pendurou três bandeiras chinesas nos troncos das árvores - e três bandeiras brancas com o logotipo dos Jogos Olímpicos de 2008. Um trabalhador migrante subiu uma escada e pendurou um cartaz dizendo "Precisamos de Direitos Humanos!!!"

Para afugentar as autoridades, Song trouxe um grande pôster de uma foto famosa de Mao, sentado em uma cadeira de vime. "Ele achou que Mao seria capaz de fazer algo por nós", riu Zhao, a vizinha, que estava lá naquela manhã.

Os operários, eles próprios trabalhadores migrantes, trabalharam sob forte chuva. Enquanto uma multidão de trabalhadores solidários se juntava, a polícia armou um cordão de isolamento ao redor das árvores. Uma dúzia de homens de calças largas e camisas pólo permanecia ao redor, mantendo a situação sob controle.

"Uma pessoa gritou: 'Então vocês não vão permitir que as pessoas ganhem seu sustento!'" lembrou Zhao. "Muitas famílias dependem destas lojas - apesar de serem pequenas."

Gu Dahua, 47 anos, um agricultor da província de Anhui, veio para cá com sua esposa há três anos. Eles vendem pentes, espelhos, meias e outros itens pequenos, todos a 1 yuan, ou cerca de 15 centavos de dólar. A parede não fez bem para os negócios. "Está difícil agora", disse Gu.

Dois quarteirões ao norte, outra loja ao longo do eixo foi fechada para os Jogos.

Os ancestrais de Sun Ruonan abriram uma padaria no eixo sul da Praça Tiananmen nos anos 1840. A cidade tentou demoli-la no ano passado e plantar grama e arbustos ornamentais às margens da rota do ciclismo olímpico. Sua e sua irmã mais jovem, Ruoyu, uma cidadã australiana, se recusaram a sair.

Na última terça-feira, Sun, 57 anos, estava sentada sozinha no salão de seu restaurante, cercada por seus gatos. Lanternas de papel festivas estavam penduradas no salão, que cheirava a sujeira de gato e decadência. Eram 16 horas e Sun ainda estava de pijama.

"Eu realmente não quero enfrentar o governo", ela disse, caindo em lágrimas. "Para aqueles de nós que viveram durante a Revolução Cultural, esta vida é como o paraíso."

A cidade a pressionou a partir. Certa noite no ano passado, um trator trombou com o prédio. Os vizinhos foram pagos para ficar de olho nela e avisar a polícia quando recebesse alguém. Sun disse que as autoridades pressionaram o médico dela a se recusar a lhe atender.

O prédio dela está caindo aos pedaços. O governo, visando a aparência, colocou uma estrutura com tela verde ao redor dele. Enquanto os ciclistas passarem por sua casa em agosto, será fácil para os espectadores não perceberem os cartazes, implorando por ajuda, colados na porta.

"Eu estou pregada aqui como um prego", ela disse. George El Khouri Andolfato

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