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29/07/2008

Friedman: de Texas para Tel Aviv

The New York Times
Thomas L. Friedman
Colunista do The New York Times
O que aconteceria se cruzássemos J.R. Ewing, de "Dallas", e Carl Pope, o presidente do Sierra Club? O resultado seria T. Boone Pickens. E se o cruzamento fosse entre Henry Ford e Yitzhak Rabin? Obteríamos Shai Agassi. E o que aconteceria se juntássemos T. Boone Pickens, o bilionário texano do setor petrolífero, que defende o verde, e que atualmente anda obcecado pela energia eólica, e Shai Agassi, o Henry Ford judeu cuja obsessão atual é transformar Israel no líder mundial em automóveis elétricos?

Teríamos dado início a uma revolução no setor de energia.

O único efeito positivo da disparada do petróleo foi o fato de isso ter estimulado inovadores e investidores, que tiveram sucesso em outras áreas, a debruçarem-se sobre as energias limpas com uma ambição e uma determinação enormes para substituir o petróleo por fontes renováveis de energia. Dois dos mais interessantes desses novos pioneiros da energia limpa são Boone e Shai.

Agassi, 40, é um prodígio israelense da área de software que ascendeu ao alto escalão empresarial da SAP, a gigante alemã do setor. Em 2007 ele desistiu de tudo para ajudar a fazer de Israel um modelo de como um país inteiro é capaz de trocar os carros a gasolina por automóveis elétricos. Ele percebeu que nenhum outro país tem tanto interesse quanto Israel em reduzir o valor do petróleo do Oriente Médio. Em uma visita a Israel em maio deste ano, dei um passeio em um carro elétrico experimental de Agassi em um pátio de estacionamento que fica de frente para uma praia em Tel Aviv, enquanto a irmã dele ficava vigiando para ver se não aparecia nenhum policial, já que o veículo não tinha licença para circular nas vias israelenses.

O plano de Agassi, apoiado pelo governo de Israel, é criar um "sistema" completo de carro elétrico que funcionará de forma semelhante a um "sistema" de telefonia celular. A diferença é que os consumidores comprarão uma quantidade mensal de quilômetros, em vez de minutos de ligação telefônica. Cada assinante do serviço receberá um carro, uma bateria e acesso a uma rede nacional de pontos de recarga distribuídos por Israel - bem como postos que trocarão as baterias descarregadas por outras carregadas sempre que necessário.

A companhia dele, a Better Place, e a sua impressionante equipe gerenciarão a rede que carregará os carros, e ela está também fazendo contratos com companhias israelenses para a compra de eletricidade produzida a partir de energia solar - dois gigawatts no decorrer de dez anos - suficiente para alimentar toda a frota. "Israel contará com o primeiro campo de petróleo virtual do mundo no Deserto de Negev", afirma Agassi. Os seus primeiros 500 carros, construídos pela Renault, começarão a circular pelas ruas e estradas de Israel no ano que vem.

Agassi vende entusiasmadamente a sua idéia. Ele seria capaz de vender camelos na Arábia Saudita. "Hoje em dia na Europa você gasta US$ 600 mensalmente com gasolina", explicou-me ele. "Nós temos um carro elétrico cujos gastos mensais serão também de US$ 600, com todo o combustível elétrico que for preciso. E quando você não quiser mais o carro, é só devolvê-lo. Sem taxas extras e sem emissões de gás carbônico".

"O meu objetivo é tornar este carro elétrico tão barato e trivial que o consumidor sequer cogitará comprar um carro movido a gasolina. Assim que isso acontecer, o vício em petróleo acabará para sempre. Será algo como se o consumidor abandonasse a heroína e passasse a ficar viciado em leite", afirma Agassi.

T. Boone Pickens tem 80 anos de idade. Ele já ganhou bilhões de dólares com petróleo. Ele envolveu-se em esquemas fraudulentos sérios ao financiar a "lancha rápida" de John Kerry. Mas agora Pickens esta optando por um legado diferente: acabar com o hábito norte-americano de consumir petróleo com a construção maciça de geradores de energia eólica nos Estados Unidos e a conversão das nossas abundantes reservas de gás natural - que atualmente são utilizadas para gerar eletricidade - em combustível para a substituição do petróleo estrangeiro em nossos carros, ônibus e caminhões.

Pickens é motivado pelo nacionalismo estadunidense. "Devido a todo o dinheiro que estamos enviando ao exterior para pagar pelo nosso vício em petróleo, estamos a ponto de perder o nosso status de superpotência", alerta Pickens. A visão dele é resumida no seu website: "Nós importamos 70% do nosso petróleo a um custo anual de US$ 700 bilhões... Durante a minha vida inteira integrei o setor petrolífero, mas esta é uma emergência da qual não podemos escapar furando mais poços de petróleo. Se criarmos uma rede de energia renovável, poderemos acabar com o nosso vício em petróleo estrangeiro".

Na semana passada, durante um café-da-manhã, Pickens deixou claro para mim que está cansado de esperar que Washington crie um plano energético sério. Assim, a sua companhia, a Mesa Power, está construindo o maior complexo de energia eólica do mundo na região do Panhandle, no Texas, na qual ele investiu US$ 2 bilhões na compra de terras e de 700 turbinas eólicas da General Electric - a maior encomenda de turbinas deste tipo que já foi feita. Os Estados Unidos poderão atender a 20% da sua necessidade de eletricidade recorrendo à energia eólica.

Mas Pickens sabe que o projeto dele constitui-se em um caso único. "A menos que o Congresso adote políticas limpas e previsíveis - com incentivos fiscais de longo prazo e infra-estrutura - para fazer com que milhares de investidores voltem-se para as energias limpas, jamais alcançaremos a escala necessária para acabar com o vício. Os republicanos no Senado vêm bloqueando tais incentivos para as energias eólica e solar há um ano", diz ele.

Em vez de correrem atrás de esquemas malucos como a perfuração de poços no mar e a liberação do petróleo da nossa reserva estratégica, os nossos parlamentares e o presidente deveriam sentar-se com Boone e Shai e perguntar a eles: "Quais as legislações necessárias para promovermos o surgimento de mais mil indivíduos como vocês?". Bastaria que eles fizessem isso e, depois, saíssem do caminho. UOL

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